Casa do ascensor da Bica vai ter apartamentos turísticos

Edifício de cinco pisos foi arrendado a um privado, que investiu mais de um milhão de euros na sua reabilitação. Iniciativa tem gerado expectativa junto dos comerciantes

João Gonçalves, nascido e criado na Bica, no centro histórico de Lisboa, consegue ver da janela de casa a unidade hoteleira que está a nascer no edifício do ascensor que desde 1892 percorre a Rua da Bica de Duarte Belo. "Não me faz diferença", garante o lisboeta de 52 anos, enquanto fuma pacatamente um cigarro. Pouco passa de o meio-dia de quinta-feira e, ali, onde não se sente o bulício da capital, apenas a subida e descida do "elevador" interrompe a tranquilidade com que, ocasionalmente, turistas em família se vão cruzando com moradores mais ou menos idosos. A partir do final do próximo mês, data prevista para a abertura do espaço gerido pela Lisbon Serviced Apartments, tudo poderá ser diferente.

"É bom, é ótimo", antevê Carlos Teixeira, 46 anos e proprietário de um café no Largo de Santo Antoninho, localizado mesmo em frente às traseiras do imóvel com saída para a Rua de São Paulo. Com um negócio direcionado, desde o seu início, para visitantes do bairro em que existe cada vez mais alojamento local, antecipa já um aumento do número de clientes. Até porque, sublinha, tudo indica que a nova unidade hoteleira não terá espaço para refeições, como é habitual. "Nós servimos pequenos-almoços", salienta. A esperança não é descabida.

Com abertura anunciada para o final do próximo mês, o edifício terá no seu interior, de acordo com a Lisbon Serviced Apartments, "25 pequenos apartamentos, totalmente equipados". "O principal alvo é o turismo de qualidade para pessoas que procuram alternativas aos hotéis convencionais, procurando pequenos apartamentos equipados junto da população local", acrescenta, numa resposta por e-mail, a empresa que garante ser o "maior gestor de alojamento turístico em Portugal". O facto de ocupar o edifício do ascensor da Bica é, por isso, uma mais-valia.

Edifício é monumento nacional

"O ascensor da Bica tem um ambiente único que permite visitar Lisboa, mas sem que o viajante se sinta num hotel tradicional", sustenta, frisando que a sua história e a sua localização foram os principais motivos que justificaram a opção pelo transporte que, popularmente, é conhecido por elevador. No seu site, a gestora do espaço salienta, de resto, a proximidade dos apartamentos ao Chiado e ao Bairro Alto, com "bastantes bares, esplanadas, restaurantes", "lojas de roupa de jovens designers" e atuações de fadistas, como um dos benefícios dos apartamentos, que custam 75 euros por noite e dão para um máximo de duas pessoas. A informação garante que todas as habitações têm "decoração original do Museu da Carris".

Ao todo, a Lisbon Serviced Apartments investiu mais de um milhão de euros na reabilitação do edifício classificado como Monumento Nacional e propriedade da Carris, que o arrendou por 25 anos e com quem o DN tentou, sem sucesso, falar. Projetado pelo arquiteto português Raoul Mesnier du Ponsard, o ascensor da Bica liga, na prática, o Largo do Calhariz, perto do Chiado, à Rua de São Paulo, no Cais do Sodré.

É aqui que, segundo o site da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), a sua utilização é feita "mediante a transposição de um edifício de cinco andares, delimitado por cinco pilastras na sua fachada principal, com portas em ferro forjado". O interior da cabine que alberga os dois carros que sobem e descem alternadamente encontra-se, por sua vez, revestido a azulejos. Esta área não foi até agora, constatou o DN no local, alvo de qualquer intervenção, mantendo-se integralmente.

"Se for um hotel, é ótimo. Nunca é demais ter várias coisas a acontecer no mesmo sítio. Chama pessoas", afirma Mafalda Baeta Nunes, que hoje inaugura, na companhia do marido, alemão, um restaurante no Largo de Santo Antoninho. Para os novos comerciantes da Bica, um bairro que, nos últimos anos, tem vindo a perder o seu caráter popular a favor de uma maior procura turística, a abertura do novo espaço de alojamento local é uma oportunidade. E não só para atrair mais clientes.

"Pode ser que o hotel exerça pressão para termos mais policiamento", desabafa o também morador Carlos Teixeira, as noites sem dormir por causa do barulho da noite, cada vez mais vibrante, bem presentes na memória.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG