Carros que falam, sanitas inteligentes e cheiros no metaverso: o futuro segundo a CES

A grande feira onde as empresas tornam públicas as suas apostas para o futuro regressou em grande a Las Vegas e mostrou visões arrojadas que vão mudar a forma como conduzimos, trabalhamos e vivemos em nossas casas.
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"A única coisa que conta realmente é o que o utilizador sente e experimenta", disse o CEO da BMW, Oliver Zipse, na keynote em horário nobre que precedeu o arranque da CES 2023. A grande feira de tecnologia invadiu recentemente Las Vegas em força, com 100 mil participantes e milhares de produtos novos, e um dos temas centrais foi a personalização e a experiência do utilizador, num mundo super tecnológico em que as máquinas podem substituir (quase todas) as interações e tarefas humanas.

A dissipação das barreiras entre o físico e o virtual ficou patente na apresentação da BMW, que se catapultou para o futuro com a revelação de um carro que fala e muda de cor. "O futuro da mobilidade é elétrico, circular e digital", disse Oliver Zipse antes de revelar o carro-conceito iVision Dee.

O elétrico desportivo irrompeu pelo palco mostrando uma forte personalidade e algum humor com uma voz feminina e uma grelha expressiva, capaz de mudar para comunicar sensações. Inteligente por dentro, o iVision Dee consegue mudar a cor exterior para se alinhar com o humor do condutor. Zipse explicou que "Dee" é acrónimo de "Digital Emotional Experience" e a ideia é que o carro seja um companheiro, mais que um objeto com função utilitária.

As comparações com o KITT da série O Justiceiro dos anos oitenta eram inevitáveis, por isso o carro falante parceiro de Michael Knight também entrou em palco. E o Exterminador Implacável Arnold Schwarzenegger, agora um ativista contra a crise climática, fez uma aparição para falar da importância da Inteligência Artificial num futuro que mistura o físico e o digital.

CitaçãocitacaoO Exterminador Implacável Arnold Schwarzenegger, agora um ativista contra a crise climática, fez uma aparição para falar da importância da Inteligência Artificial num futuro que mistura o físico e o digital

Esta digitalização da experiência foi evidente nas apostas que as várias construtoras revelaram na CES, uma feira que está a tornar-se cada vez mais importante na mobilidade. Na keynote da Stellantis, conglomerado resultante da fusão entre a Fiat Chrysler e o PSA Group, o destaque esteve no Inception Concept da Peugeot e na Revolution 1500 da Ram, carros-conceito elétricos de design e funcionalidades arrojadas. O CEO, o português Carlos Tavares, disse que a empresa está a transformar-se para concretizar a sua visão tecnológica, que dará maior liberdade às pessoas ao mesmo tempo que endereça a crise de recursos.

"A necessidade de inovar para o nosso futuro é maior que nunca", afirmou o executivo", sublinhando a importância do software na nova geração de carros. "Os clientes querem simplicidade. Há demasiada fricção entre os clientes e os seus carros", indicou. Um dos focos estará nos cockpits mais inteligentes para que os clientes "se foquem em viver e não em botões."

Outras novidades automóveis apresentadas na feira foram o carro elétrico Afeela da Sony Honda Mobility, o carro "voador" para quatro pessoas Aska A5 ou o Mercedes-Benz Vision EQXX, com a construtora a anunciar que irá lançar a sua própria rede de carregadores de carros elétricos aberta às outras marcas.

Houve de tudo para a casa na CES, dos frigoríficos que mudam de cor da LG às tigelas que analisam a composição nutricional VersaWare e uma miríade de robôs familiares. A Samsung fez um brilharete com o Flex Hybrid, que parece um livro e se transforma num tablet, mas também anunciou a SmartThings Station, uma espécie de "consola doméstica" que controla tudo em casa.

No entanto, foram as sanitas inteligentes que viraram cabeças. A Withings propôs o aparelho U-Scan, que analisa coisas como pH, níveis de vitamina C ou de cetona e o ciclo de ovulação feminino. A Vivoo apresentou um teste de urina que se conecta ao assento da sanita. E a Kohler revelou um trio de sanitas inteligentes, liderado pela Numi 2.0: vem com a assistente por voz Alexa integrada, uma tampa que abre e fecha automaticamente e limpeza ultra-violeta. Vai custar 11 mil dólares.

Outra nota nesta área é o esforço de integração, algo de que o responsável português da Hisense, Pedro Santos, falou ao DN.

"Todos os nossos produtos cada vez mais vão tendo wi-fi", referiu. "O que estamos a fazer é ter a televisão como um hub de controlo da casa, em que conseguimos controlar o ar condicionado, saber se a máquina de lavar já acabou o programa, pôr a máquina de lavar loiça a funcionar, escolher uma receita e inclusive podemos estar na sala com os amigos e escolher na televisão o vinho que vamos beber à refeição."

O enorme investimento que empresas como a Meta têm feito no metaverso ainda não convenceu a maioria dos utilizadores, mas o entusiasmo dos criadores continua em alta. A CES teve uma secção dedicada a realidade virtual (VR) realidade aumentada (AR) e metaverso e algumas invenções indicam o caminho que o segmento pode seguir. No stand da Magic Leap havia gritos constantes de pessoas a experimentarem a simulação hiperrealista de uma montanha russa. A Sony mostrou a PSVR 2, a HTC lançou o VIVE XR Elite, a TCL entrou no segmento com os óculos NXTWear S e a Holoride revelou um gadget que cria experiências VR dentro do carro, usando o movimento natural da viagem.

É tudo para melhorar a emulação da realidade. Várias outras empresas apresentaram peças de vestuário hápticas, capazes de dar sensações ao utilizador, como foi o caso da japonesa AI Silk Corporation. Kazumi Katsuyama explicou ao DN que a luva Lead Skin "tem um sistema de estimulação elétrica para fazer o utilizador sentir coisas como gravidade e peso" e é feita de têxteis condutores, que resistem à transpiração e podem ser lavados.
A norte-americana OVR introduziu óculos VR com cartuchos de oito aromas diferentes, que podem ser combinados para criar cheiros diferentes e ajudar a transportar o utilizador para o que está a experimentar no metaverso.

E houve novidades ligada à realidade aumentada, como o motor óptico da Lumus que cria óculos AR iguais a óculos normais ou o RayNeo X2 da TCL, com processador Snapdragon XR2 da Qualcomm.

Três empresas indicaram Portugal como país de origem na feira: a Noras Performance, que teve um stand próprio, e a Omniflow e BestHealth4U, que estiveram integradas no Pavilhão Europeu. Todas estiveram à procura de oportunidades para se lançarem ou solidificarem no mercado norte-americano, atraindo o interesse de potenciais clientes, investidores e parceiros.

A Noras Performance mostrou a sua boia salva-vidas U SAFE, que é feita de plástico resistente e comandada remotamente para ir ao encontro da vítima que caiu à água. O produto foi patenteado e ganhou um prémio de inovação atribuído pela associação que organiza a CES (CTA), na categoria Human Security for All.

"A maior valência da boia é a simplicidade. Uma criança consegue salvar uma pessoa", disse ao DN o CEO Jorge Noras. "A boia está sempre hibernada e basta lançar à água e fica logo operacional." O empresário disse que esta inovação, produzida em Torres Vedras, vem "revolucionar" os sistemas de salvamento e tem condições para se tornar obrigatória no futuro. "Este produto vai ficar na História e gostava de fosse reconhecido como um produto português", salientou Jorge Noras. A empresa está a vender para guardas costeiras, iates, concessões de praia e tem até o interesse do exército norte-americano.

CitaçãocitacaoTrês empresas indicaram Portugal como país de origem na feira: a Noras Performance, a Omniflow e a BestHealth4U. Todas estiveram à procura de oportunidades, atraindo o interesse de potenciais clientes, investidores e parceiros

Pelo seu lado, a Omniflow mostrou a luminária inteligente Omniled que capta energia eólica e solar num design compacto, armazena energia e pode fornecer vários outros serviços. O CEO Pedro Ruão explicou que a grande vantagem é poder recondicionar luminárias já existentes, o que evita a necessidade de nova construção.

"O sistema reduz em mais de 90% o consumo de energia comparado com uma luminária convencional", indicou o executivo. "Além disso, instalámos outros serviços em cima da nossa plataforma. Pode ser wi-fi público, visão computorizada inteligente, sensores de qualidade do ar, câmaras, todo o tipo de sensores."

Produzida na zona industrial do Porto, a Omniled já está a ser usada em 35 países e custa entre 2 e 4 mil euros por unidade, conforme o tamanho.

A outra inovação portuguesa na CES foi mostrada pela BestHealth4U, que criou adesivos biomédicos que se ligam em vez de colar e assim não danificam a pele. O Bio2Skin chega já em 2023 como material para ser integrado em dispositivos médicos, como pensos e sacos de ostomia. Mas a criação mais interessante é o adhesiv.AI, que conjuga o adesivo com sensores que mudam de cor e permitem monitorizar a evolução de uma ferida de forma remota.

"Tem sensores que dão informações importantes sobre a evolução, como é o caso da temperatura, PH, a deformação, se tem bactérias ou não", explicou ao DN a CEO Sónia Ferreira. "Os sensores vão fazer mudar a cor do topo do adesivo. Com a nossa aplicação tira uma fotografia e o algoritmo desenvolvido por nós vai mandar o relatório ao profissional de saúde para saber como está a evoluir a ferida." A informação evita desperdício de pensos desnecessários e poupa tempo ao doente e ao profissional de saúde.


[carros elétricos] "Tecnologia é muito dispendiosa"

A Stellantis, que detém marcas como a Peugeot, Fiat, Jeep e Opel, apresentou a sua visão para a próxima geração automóvel pela mão do CEO português Carlos Tavares. A carrinha Ram 1500 Revolution e o sedan Peugeot Inception Concept mostraram linhas arrojadas que vão liderar o futuro das respetivas marcas na mobilidade elétrica. Falámos com o CEO no final da apresentação, uma das mais concorridas da CES 2023.

Quando é que vão chegar à Europa?
Vão chegar à Europa, já estão a ser vendidos na Europa muitos carros elétricos. Estes aqui são carros de conceito, obviamente. A carrinha pick-up vai ser introduzida nos Estados Unidos, mas a partir do momento em que é elétrica já estão abertas as portas para a Europa.

Parece-lhe que a eletrificação automóvel pode avançar ao mesmo ritmo em Portugal?
O problema da eletrificação para Portugal, como para muitos países do mundo, é o custo. A tecnologia é muito dispendiosa. O custo de fabrico do carro elétrico é 40% mais elevado que um carro convencional. Se formos transferir esses 40% para o preço do cliente já não há clientes, obviamente. Esse é o problema maior. Não podemos ter a ideia de que não vamos oferecer carros elétricos à classe média. A questão aqui é proteger a classe média para que o seu poder de compra lhe permita comprar carros elétricos, que naturalmente custam 40% mais caro.

Como se resolve isso?
Temos um desafio muito grande, que é trazer os custos para baixo o mais rapidamente possível. Nesse aspeto, a Stellantis está bem posicionada porque é uma empresa global. Tem acesso a volumes, tem acesso a quantidades de negócio muito maiores que permitem reduzir os custos mais rapidamente e fazendo isso, talvez possamos introduzir vamos dizer no sul da Europa. Os carros vão estar à venda e depois a questão é o preço.

dnot@dn.pt

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