Carolina Santos nasceu em Coimbra, mas foi em Castelo Branco que cresceu e viveu até aos 18 anos, quando deixou a cidade para descer até Lisboa e iniciar o curso de Economia na Nova School Business of Economics. Para trás deixou uma infância feliz, cheia de curiosidade e até estimulante pelo que aprendia na escola e fora dela. E se assim foi, reconhece ao DN, “foi porque tive sempre excelentes professores em todas as áreas, que sempre fomentaram nos alunos a curiosidade dentro e fora da sala de aula”. Por isso, não esquece o seu percurso nas escolas João de Deus, até ao quarto ano, na EB 2+3 Cidade de Castelo Branco, do quinto ao nono ano, e na Escola Secundária Nuno Álvares, onde terminou o Secundário com a média de 20 valores. A paixão pelos números e pela matemática surgiu ainda na primária, e foi tornando-se mais forte ao longo dos anos. Hoje, continua acesa e associada às “humanidades”, depois de ter enveredado no mestrado e no doutoramento na área da Economia da Saúde. Aos 31 anos, e no Dia Internacional da Mulher na Ciência, e já como investigadora do Nova Health Economics and Management Knowledge Center e professora auxiliar convidada na Nova School of Business and Economics, diz ao DN: “Não me arrependo da escolha que fiz” - uma escolha, que, sublinha, ter sido tomada “pela força dos números e pela dimensão social e humana que a Economia acaba por ter na compreensão da vida das pessoas”. Com humildade assume ao DN: “Tenho tido uma minha experiência muito positiva”, comentando até que considerar que é “uma mulher da Ciência é um termo muito forte, mas não deixo de o ser. E sou sobretudo pela curiosidade, porque investigar é a beleza da ciência, nomeadamente a que é feita na academia que não moldada nem restringe princípios”. Neste dia 11 de fevereiro, em que se assinala o Dia Internacional da Mulher na Ciência, aqui fica o testemunho de uma das mais jovens investigadoras na área da Economia da Saúde. No dia em que se assinala o Dia Internacional da Mulher na Ciência, o que significa investigar?Para mim, investigar representa aquilo que é a beleza da ciência, sobretudo a que é feita na academia, que não molda nem restringe princípios. Significa ter liberdade intelectual para estudar temas que genuinamente me interessam e dar um contributo à sociedade que não é ditado por lógicas de retorno financeiro de curto prazo. O que quero dizer é que se não fosse a academia e outras entidades que se dedicam à investigação, haveria sempre uma parcela de estudos que, se calhar, nunca veriam a luz do dia, se a investigação fosse deixada unicamente ao setor empresarial com fins lucrativos.Mas considera-se uma mulher da ciência?Dizer que sou uma mulher da ciência é um termo muito forte, mas, na verdade, não deixo de ser e creio que sou sobretudo pela curiosidade que há em mim, desde pequena.Quando começou essa paixão pelos números?Foi logo na escola primária com a matemática. Sempre gostei muito e ajudou ter tido sempre bons professores. Cheguei a pensar em ir para a área das engenharias, mas aos 16 anos fiz um curso de verão no Instituto Superior Técnico e percebi que a minha outra paixão, pela área das Humanidades, não estava aqui tão presente. Foi então que comecei a pensar em seguir Matemáticas Aplicadas ou Economia, esta última não porque a tivesse tido como disciplina no Secundário, porque não tive, mas porque comecei a ler livros de alguns Prémio Nobel da Economia e o que estes pensavam. E tudo se conjugou, uma vertente muito forte da matemática e também a dimensão social, histórica e humana. Estava tudo na Economia que procura compreender todas as opções e decisões do homem, quer individualmente ou em conjunto, nas empresas ou na sociedade, e como é que estas se refletem no crescimento da Economia e no bem-estar das populações.Hoje é investigadora no Nova Health Economics and Management Knowledge Center e há três anos que participa na elaboração do relatório sobre o “Acesso a Cuidados de Saúde”, no âmbito da cátedra da Economia da Saúde e da Iniciativa Equidade Social, com o professor Pedro Pita Barros. Como é que chega à área da Saúde?O interesse nesta área começou na faculdade. Fiz uma cadeira opcional, Economia da Saúde, dada pelo professor Pita Barros, que me interessou profundamente, se calhar logo pela sua dimensão humana e de organização dos mercados num sector como o da Saúde, que é algo que toca a qualquer cidadão - por exemplo, entusiasmou-me perceber como se deve financiar a Saúde, o que faz com que uma pessoa invista na sua própria saúde ou que incentivos podem interessar as pessoas a terem seguros de saúde privados? Tudo isto pode ser analisado e moldado através dos modelos económicos. Na altura, gostei muito dessa unidade curricular, depois acabei por contactar o professor para saber se estaria disponível para me orientar na minha tese de mestrado na área da Economia da Saúde. E diria que a a experiência foi tão positiva, pelo menos na minha perspetiva, que acabei também por a seguir no doutoramento, que também foi orientado pelo professor Pedro. Foi um contínuo. Depois apareceu a oportunidade de integrar o Nova Health Economics and Management Knowledge Center, que tem cerca de dez anos, que envolve economistas, gestores, médicos, farmacêuticos, a trabalhar em conjunto e a expor cada um a temas ligeiramente fora da sua área, e isso fomenta ainda mais a curiosidade que deve estar sempre presente na ciência.. Na área da Economia da Saúde nunca houve muitas mulheres, ainda continua a ser um mundo dos homens, não se sente sozinha?É verdade que historicamente a investigação em Economia da Saúde é maioritariamente levada a cabo por homens. Mas tem havido progressos no sentido de haver uma maior representatividade de mulheres. Por exemplo, hoje, a composição dos órgãos sociais da Associação Portuguesa de Economia da Saúde (APES) já espelha esta tendência. E se em 1985 a comissão instaladora/sócios fundadores da APES só tinha uma mulher (Rosa Andrade), num total de cinco membros (para além de Rosa Andrade, integravam a comissão instaladora António Correia de Campos, Luciano Patrão, João Pereira, Rogério de Carvalho), tal como na direção de 1986, que só tinha Teresa Mariz, num total de seis pessoas, a verdade é que, nos últimos anos, a realidade é outra. A direção e os órgãos sociais da APES são constituídos sobretudo por mulheres.É essa a tendência internacional?Por exemplo, a presidência da European Health Economics Association (EuHEA) é atualmente composta por duas investigadoras (sendo uma portuguesa, a professora Céu Mateus, da Lancaster University) e um investigador. E, no meu caso, o facto de ter começado ainda na faculdade a integrar as atividades da APES, onde já havia muitas mulheres como referência, também contribuiu para que me sentisse motivada a enveredar por uma carreira nesta área.Se tivesse que destacar algo na sua experiência o que destacaria?A minha experiência tem tido muitos desafios e tem sido muito gratificante. Tenho tido a sorte de poder estudar temas que gosto, como o acesso da população a cuidados de saúde ou competição e regulação no mercado farmacêutico. Por outro lado, o poder trabalhar em rede, nomeadamente com equipas internacionais altamente qualificadas, é algo que motiva a fazer mais e melhor, o que valorizo muito. Há um ponto que gostava de frisar é que as atividades de lecionação, nomeadamente de Economia da Saúde, são um excelente complemento à minha atividade de investigação. São atividades que se alimentam mutuamente: expor temas e conceitos a alunos exige sistematização e clareza, ao passo que as questões colocadas pelos alunos, não raras vezes, acabam por servir como mote para projetos futuros.Acredita que a investigação que se faz na academia na área da Saúde pode mudar a situação do Serviço Nacional de Saúde?Acredito. É possível mudar-se quando há estudos e políticas de saúde introduzidas que vão nesse sentido, como por exemplo a criação das Unidades Locais de Saúde ou a extensão das Unidades de Saúde Familiar Modelo B. Ou ainda determinadas formas de comparticipação dos medicamentos. O impacto destas políticas podem ser avaliadas e quantificadas e cabe aos investigadores e cientistas acompanhar essas alterações nas políticas públicas para se aferir os resultados, se estes estão em linha com o que era esperado ou se há necessidade de os repensar. Considera que Portugal ainda tem muito a fazer na recolha de dados para investigação? A infraestrutura de dados em Portugal ainda é bastante incipiente ou, pelo menos, os dados não são facilmente disponibilizados à comunidade científica, como sucede noutros países (sobretudo de dados de painel, ao nível do indivíduo, que nos permitam acompanhar o estado de saúde da população, os seus rendimentos e condições socioeconómicas), mas fazer investigação na área da Saúde em Portugal e com dados nacionais é um compromisso e um contributo para a ciência (nem que seja um modesto contributo). Pelo menos, permite haver um conhecimento mais detalhado sobre as especificidades dos desafios que Portugal atravessa no campo do acesso a cuidados de saúde e nas dinâmicas concorrenciais no setor da saúde.Descobriu a Economia nos livros de prémios Nobel o que espera alcançar na carreira que encetou?O meu objetivo é contribuir com estudos e publicações de qualidade, mas, a minha ótica da ciência, não me leva a medir o meu trabalho única e exclusivamente pelo número de publicações e de citações. Sei que é essa a métrica que dita as progressões na carreira, mas acredito que estar onde estou, num projeto na área da Saúde, que promove uma discussão mais ativa sobre o sistema de saúde em Portugal, é igualmente importante. Por exemplo, já tive oportunidade de trabalhar numa empresa e, sendo as carreiras longas, não excluo a possibilidade de, um dia, voltar a trabalhar no meio empresarial, mas decidi voltar à academia por ter tido a oportunidade de integrar o projeto em que estou e que visa contribuir com o melhor conhecimento da sociedade portuguesa e do seu relacionamento com o sistema de saúde e com a discussão de políticas com ênfase nesta área. Ou seja, penso que há formas complementares de se fazer ciência, obviamente que temos de nos alinhar com as metas e objetivos em vigor, mas acima de tudo acho que o que devemos fazer é o que nos dá prazer e motiva. E este tem sido a minha filosofia de vida nos últimos anos..As Mulheres na Ciência em Portugal