Calor extremo em Pedrógão é indício de alterações climáticas

Situação meteorológica de 17 de junho e dias seguintes foi anómala e não é compatível com clima atual, diz especialista do IPMA. Cientistas afirmam que o conhecimento sobre fogos florestais não está a chegar aos operacionais

A 17 de junho, quando deflagrou em Pedrógão o trágico incêndio que causou 64 mortos e mais de duas centenas de feridos, e queimou cerca de 53 mil hectares naquele concelho e nos vizinhos, 53% do território nacional, incluindo toda aquela região, estava com temperaturas da ordem dos 40 graus Célsius. Uma situação anómala que os especialistas em climatologia do IPMA estão a encarar como uma manifestação das alterações climáticas.

"Foi uma situação meteorológica que não é compatível com os parâmetros do nosso clima atual", garante Pedro Viterbo, que dirige o departamento de Meteorologia e Geofísica do IPMA, e um dos especialistas que participaram ontem no debate sobre o conhecimento científico dos fogos e o seu contributo para prevenção e gestão de risco de incêndios florestais - uma das sessões paralelas do encontro Ciência 2017, que decorre até amanhã no Centro de Congressos de Lisboa (ver fotolegenda).

"Estamos a começar a olhar para aquela situação do ponto de vista das alterações climáticas", sublinhou o especialista ao DN, acrescentado que "nas próximas semanas" a sua equipa estará em contacto com os colegas em Espanha para "se fazer esta análise para a Península Ibérica". Até final do ano, diz Pedro Viterbo, "contamos poder dizer com que grau de probabilidade esta situação meteorológica foi uma manifestação das alterações climáticas", adiantou.

A perplexidade da Science

A meteorologia é um dos parâmetros essenciais no debate sobre incêndios florestais, e por isso a questão não faltou na discussão, que envolveu vários especialistas que há décadas fazem investigação científica nesta área. Mas uma das grandes conclusões foi também a de que o conhecimento científico e os avanços tecnológicos gerados em Portugal e noutros países na área dos fogos florestais não estão a chegar a quem combate os incêndios no terreno. "O conhecimento não está a ser suficientemente utilizado pelos organismos que intervêm no combate, que têm protocolos e missões relativamente rígidos", afirmou, ao DN, José Cardoso Pereira, professor e investigador do Instituto Superior de Agronomia e especialista em cartografia de risco de incêndio, sublinhando que "há resistências na adoção dessa informação".

Paulo Fernandes, professor e investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e especialista em fogos florestais, concorda que esse conhecimento não está a chegar ao terreno. Na sua opinião, "não existe nas instituições uma cultura de integração desse conhecimento". Um exemplo? Em 2014, com outros colegas, Paulo Fernandes participou no desenvolvimento de uma folha de cálculo para a previsão diária de incêndios e nesse mesmo ano, conta, decidiram disponibilizá-la à Autoridade Nacional de Proteção Civil para que a testasse. "Nunca me chegou nenhum feedback sobre se aquela era uma ferramenta útil", diz. No dia 17 de junho, ele próprio decidiu testar a folha de cálculo para Leiria e os resultados, considera, foram elucidativos: poderiam ocorrer 19 fogos, com mais de cem hectares de área ardida. "É claro que a ferramenta pode ser melhorada, mas era preciso que tivesse havido feedback."

Ajudar a contornar esta dificuldade de absorção dos novos conhecimentos científicos e tecnológicos por parte das instituições que estão no terreno é o anseio de uma nova rede que englobe todos os atores e parceiros nesta área: as universidades, as instituições da administração pública e local e os operacionais. "Estamos a tentar arrancar, na Universidade de Lisboa, com uma rede deste tipo, um centro de conhecimento sobre o fogo, com um modelo de funcionamento em que são os utilizadores, como os operacionais no terreno, os municípios, e outros, a propor o que deve ser estudado e desenvolvido, para que o conhecimento não seja depois visto como um corpo estranho", diz José Cardoso Pereira.

Durante o debate, Paulo Fernandes contou que na sequência do incêndio de Pedrógão recebeu um telefonema da revista científica Science. Tinham uma perplexidade: sendo Portugal um dos países que, proporcionalmente, produzem muita investigação científica nesta área, o conhecimento não tinha chegado para evitar a catástrofe. "Tive de dizer que não tinha chegado", confirmou. Afinal há muitas outras parcelas nesta complexa equação: o desordenamento florestal, a desertificação do interior, onde já pouca gente vive - e quase toda idosa -, a inexistência de um organismo dedicado exclusivamente à defesa da floresta, como eram os extintos serviços florestais, são algumas delas.

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