'Boom' industrial sufoca Sines e força Governo a plano público de exceção
Perante a ameaça de asfixia social e a escalada das rendas para valores mínimos de 2000 euros mensais, o Governo vai avançar com um plano público de investimentos de exceção para Sines. A garantia foi dada esta quarta-feira, 2 de setembro, pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, citado pela Lusa, face ao alarme lançado pela autarquia: sem resposta urgente na habitação, nas creches e na Saúde para acompanhar os mais de 20 mil milhões de euros de capital privado em investimentos no concelho de Sines, a população local está a virar-se contra o próprio boom industrial.
"Vamos fazer um plano especial para Sines, que está a ter uma concentração de investimento enorme", assegurou o governante, à margem da cerimónia de entrega do Título Digital de Exploração a duas novas fábricas do Projeto Alba, da Repsol. Reconhecendo que uma intervenção deste tipo "não é normal no conjunto do país", Castro Almeida admitiu que a singularidade do território obriga o Estado a entrar em campo: "É preciso que as pessoas que vêm para cá trabalhar tenham condições especiais", com acesso a "casa, escola, centros de saúde, lares de 3.ª idade, infantários e pré-escola".
A resposta governamental surge na sequência de um aviso contundente deixado minutos antes pelo presidente da Câmara de Sines. Álvaro Beijinha (CDU) alertou que o concelho vive uma situação "absolutamente dramática" no plano habitacional, agravada pelo choque demográfico: desde 2021, a população cresceu mais de 12% – cerca de duas mil pessoas –, sem que os serviços públicos tenham acompanhado a pressão.
Hoje, denunciou o autarca, o mercado local colapsou: já não existem casas para arrendamento a menos de 2000 euros por mês, nem imóveis para aquisição abaixo dos 300 mil euros. Um cenário que está a minar a paz social em torno dos grandes projetos. "As pessoas começam a estar contra os investimentos porque sentem que, cada vez que há mais investimento, o preço da habitação sobe, a dificuldade de colocar um filho na creche é maior e esperam mais tempo pelos cuidados de saúde", avisou.
Reiterando que o município apoia os megaprojetos industriais, Beijinha exigiu que estes venham "necessariamente acompanhados de investimento público em todas as áreas" e apelou à responsabilidade social dos privados.
O autarca aproveitou ainda a presença do ministro para exigir uma revisão urgente da Lei das Finanças Locais e a possibilidade de celebrar contratos locais com os investidores, expondo o desequilíbrio fiscal do território: perante dezenas de milhares de milhões em projetos, a receita de derrama arrecadada pelo município não chegou a um milhão de euros em 2024 e ficou abaixo dos 1,5 milhões no último ano – uma fração marginal num Orçamento Municipal de 41,5 milhões de euros.

