Bispo de Beja: "Portugal está cada vez mais 'alentejanado'"

João Marcos assumiu hoje liderança da Diocese de Beja, sucedendo a Vitalino Dantas

O novo bispo de Beja, João Marcos, considerou hoje que Portugal está "cada vez mais 'alentejanado'" em termos de fé cristã, com religiosidade pouco evangelizada, prática dominical muito reduzida e vida moral desvalorizada.

Em entrevista à agência Lusa, no dia em que se tornou o 17.º bispo de Beja, João Marcos, de 67 anos, disse que os principais problemas da Diocese de Beja "são os mesmos de todas as outras dioceses do país, sobretudo as do interior".

Ou seja, "a desertificação populacional, o tecido social cada vez mais fragilizado e mesmo pulverizado, a religiosidade natural pouco evangelizada, a prática dominical muito reduzida, a vida moral muito subjetivizada e desvalorizada", precisou, referindo: "Do ponto de vista da fé cristã, Portugal está cada vez mais 'alentejanado'".

Segundo o boletim de hoje do Vaticano, o papa Francisco aceitou a renúncia ao governo pastoral da Diocese de Beja apresentada por António Vitalino Dantas, que é sucedido por João Marcos, depois de dois anos como bispo coadjutor.

A diocese alentejana, que abrange o distrito de Beja e três concelhos do distrito de Setúbal, é, na opinião de João Marcos, "pobre de agentes pastorais" e "territorialmente muito extensa".

"Excetuado o Alentejo Litoral, a população continua a decrescer", mas "a recriação da agricultura, graças às águas da barragem do Alqueva, poderá contrariar a tendência para a desertificação populacional no Alentejo e favorecer o aparecimento de novas gerações de alentejanos libertos dos atavismos negativos que tradicionalmente os caracterizavam", admitiu.

João Marcos considerou que "uma nova relação com a natureza, dominada e trabalhada, vai ajudar as pessoas a entenderem a vida de maneira menos fatalista e pode favorecer uma relação mais aberta e confiante dos alentejanos com o cristianismo e a Igreja".

Por vários motivos, desde a reconquista cristã, "o cristianismo nunca se enraizou solidamente em muitos dos espaços e ambientes" da Diocese de Beja e "as pessoas são naturalmente religiosas, mas desconhecem o Evangelho, dizem-se católicas porque foram batizadas, mas não participam na Eucaristia", explicou.

Por isso, na Diocese de Beja, "como em outras paragens, o grande desafio, hoje e sempre, é a evangelização e a edificação da Igreja. Tudo o resto vem por acréscimo", frisou.

João Marcos agradeceu a Deus os dois anos de convivência com António Vitalino Dantas e como seu bispo coadjutor, os quais foram "um tempo novo, com as dificuldades e as alegrias próprias de quem começa, um tempo de aprendizagem do exercício do ministério episcopal, um tempo para conhecer a diocese no contacto direto com as pessoas e as comunidades cristãs".

Questionado sobre as suas prioridades e os seus projetos como bispo de Beja, João Marcos disse que deseja "ser pastor como o papa Francisco não se cansa de pedir: um pastor que tenha o cheiro das ovelhas, pela proximidade, pela convivência, pela caridade pastoral".

"Além de sentir o imperativo de cultivar os frutos do Sínodo Diocesano e de promover em 2020 a celebração dos 250 anos da restauração da diocese, não tenho em vista, nem ambiciono fazer ações espetaculares", acrescentou.

João Marcos afirmou que o seu trabalho "consistirá, sobretudo, em estar próximo das comunidades cristãs e dos pastores e em anunciar o Evangelho para consolidar os alicerces deste edifício que é a Igreja Diocesana" para que "quem vier a seguir possa construir sobre bases seguras".

Atualmente, "é necessário refundar a Igreja no seu todo, começar de novo por meio de uma evangelização básica", porque "passou o tempo da cristandade e as formas pastorais que herdámos estão cada vez mais desadequadas aos tempos que vivemos", defendeu, acrescentando: "É necessário voltar ao princípio. Também aqui, no princípio é o Verbo, a Palavra, a evangelização. É ela que suscita a fé cristã e edifica a Igreja".

Segundo João Marcos, o papa Francisco, que tem "o discernimento e a liberdade própria dos verdadeiros espirituais", é "um homem que vê muito longe, é um aguilhão incómodo para muita gente instalada e paralisada dentro da Igreja, um homem que abraça o mundo com um coração católico, universal, que não se detém nas fronteiras levantadas em toda a parte por preconceitos, medos e egoísmos".

O papa Francisco "é uma imagem muito viva do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. É também, como foram São João XXIII e São João Paulo II, uma figura paternal não só para os católicos, mas também para muitos não católicos, que vivem dramaticamente a orfandade a que esta sociedade, desgarrada da sabedoria, os condenou", rematou.

Natural de Monteperobolso, no concelho de Almeida, no distrito da Guarda, João Marcos assumiu hoje a liderança da diocese de Beja, sucedendo a António Vitalino Dantas, que pediu a resignação do cargo e cessou funções por completar 75 anos.

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