Bial lança medicamento para a doença de Parkinson até ao final do ano

Ongentys já foi aprovado pela Comissão Europeia e será o segundo medicamento português. Farmacêutica rompeu parceria com empresa que realizou ensaios clínicos com morte em França

A farmacêutica portuguesa Bial prevê lançar um novo medicamento para o tratamento da doença de Parkinson antes do final do ano, anunciou esta terça-feira António Portela, o presidente executivo da Bial.

O Ongentys já foi aprovado pela Comissão Europeia e, explica a Bial em comunicado, consegue reduzir "o chamado período off-time em doentes de Parkinson, período que se caracteriza por um estado de profunda imobilidade dos doentes", reduzindo os sintomas da doença.

A Bial começou a investigação desta molécula há onze anos e espera disponibilizar o novo medicamento já no final do ano em alguns mercados europeus, nomeadamente em Portugal, Alemanha e no Reino Unido. Aos restantes, o Ongentys chegará em 2017. Para o desenvolvimento do fármaco, que será produzido em Portugal, a Bial investiu cerca de 300 milhões de euros.

Em comunicado, António Portela refere que a aprovação do Ongentys pela Comissão Europeia "é o resultado do empenho da empresa na investigação e desenvolvimento de soluções terapêuticas inovadoras". O responsável recorda que, depois da aprovação do Zebinix para a epilepsia - o primeiro medicamento português - "o Ongentys é o segundo segundo medicamento a ser desenvolvido em Portugal com aprovação pelas autoridades europeias". Apoiado por "um vasto e exaustivo programa de desenvolvimento clínico" que incluiu 28 estudos e envolveu mais de 900 pacientes de 30 países, este é o segundo medicamento totalmente desenvolvido pela Bial e o primeiro apresentado após o ensaio clínico ocorrido em França que ficou associado à morte de um dos voluntários e a danos neurológicos em outros quatro, a 17 de janeiro.

O Ongentys é um medicamento de toma única diária, que deve ser combinado com outros fármacos ou terapias, e que permite aos doentes uma qualidade de vida adicional durante duas horas do dia, indicou o presidente da empresa, António Portela, durante a apresentação do novo fármaco. "A doença de Parkinson é neurodegenerativa, crónica, progressiva e irreversível e caracteriza-se por uma progressão lenta, não existindo cura nem forma de a travar eficazmente, somente algumas terapêuticas para retardar o progresso", explicou o responsável.

Estima-se que existam 1,2 milhões de doentes com Parkinson na Europa, 22 mil em Portugal, segundo números avançados pela Associação Europeia da Doença de Parkinson (EPDA). Normalmente, a doença manifesta-se entre os 55 e os 60 anos.

Abandonado projeto da molécula testada em França

Na conferência de imprensa em que apresentou o novo medicamento para aliviar os sintomas da doença de Parkinson, o presidente executivo da Bial revelou que rompeu a parceria com Biotrial na sequência do ensaio clínico conduzido pela empresa francesa em que morreu um voluntário. António Portela afirmou que a parceria com a Biotrial está suspensa e referiu "largas de dezenas de milhões de euros" de prejuízos devido ao sucedido. O presidente executivo da Bial disse não ter "respostas cabais para dar sobre o assunto", que levou o Ministério Público de França a abrir uma investigação.

A 17 de janeiro, Guillaume Molinet, de 49 anos, morreu durante um ensaio clínico realizado em Rennes pela empresa especializada Biotrial, enquanto testava uma molécula que atuava sobre o sistema nervoso para o laboratório português Bial. Outros cinco voluntários tiveram também de ser hospitalizados, e alguns deles apresentam ainda sequelas neurológicas decorrentes dos testes com aquela substância que tinham sido validados pela Agência Nacional de Segurança do Medicamento (ANSM). Este foi o mais grave acidente alguma vez ocorrido na Europa no âmbito de um ensaio clínico.

Sublinhando que é "obrigação" da Bial procurar explicações para o que aconteceu, António Portela disse que para a farmacêutica subsiste uma incógnita sobre o caso: "Por que é que (...) houve quase 100 [pessoas] que testaram sem qualquer problema" a molécula e por que é que, "naquele último grupo de seis, há um que não tem qualquer problema, há quatro que têm efeitos secundários e há um que veio a falecer".

A Bial, acrescentou, desconhece os resultados da autópsia do homem que morreu no ensaio clínico da molécula, embora os dois relatórios já efetuados tenham confirmado que foram "cumpridas as regras em termos de regulamentação".

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