Bertrand Piccard. "Lutar contra as alterações climáticas é lucrativo"

O explorador suíço de 64 anos, que foi o primeiro a dar a volta ao mundo de balão e a circum-navegar o planeta num avião solar, dará uma palestra inspiracional no primeiro dia das Conferências do Estoril, que regressam a 1 e 2 de setembro e contam com o Dinheiro Vivo como media partner. Enquanto não chega a próxima aventura, a missão de Bertrand Piccard tem sido mudar a narrativa sobre as questões ecológicas.

Vem de uma família de exploradores para quem não parece haver impossíveis. Um deles até inspirou o nome do capitão Picard no universo Star Trek. O Betrand foi o primeiro a completar uma viagem de balão à volta do mundo (1999) e o primeiro a circum-navegar o planeta num avião solar (2016). A sua família serviu de inspiração ou sentiu-se pressionado a seguir-lhe os passos?
A minha família foi uma inspiração fantástica. Não só o meu pai foi o primeiro homem na estratosfera e fez o mergulho mais profundo de sempre na Fossa das Marianas, a 11 quilómetros de profundidade, mas também por todas as pessoas que conheci que eram amigos do meu pai: astronautas do início do programa espacial norte-americano, ambientalistas, pioneiros da aviação, pioneiros do mergulho... E eles deram-me este desejo de explorar. Mostraram-me o quão importante é explorar outras formas de pensar, de fazer coisas que nunca tinham sido feitas antes. Porque se algo nunca foi feito, então és obrigado a ser criativo, inovador, a ser disruptivo. Precisas de inventar soluções que ninguém encontrou até agora. Por isso foi um estímulo fantástico.

E tem sido isso que tem feito. No projeto do Solar Impulse, do avião solar, por exemplo. Foi uma forma também de fazer avançar a tecnologia nesta área, certo?
Quando apresentei o sonho do Solar Impulse aos fabricantes de aviões, eles disseram-me que era impossível, porque o Sol não dá energia suficiente para voar num avião dia e noite. E este é o paradigma de hoje. Em termos de energia, as pessoas querem sempre produzir mais, ter mais fornecimento. E quando olhamos agora para a questão do gás russo e do petróleo russo, toda a gente está a entrar em pânico e a pensar, onde é que podemos encontrar outros fornecedores. Mas o paradigma tem de ser mudado. A disrupção seria dizer: "Se não temos produção suficiente, vamos ser mais eficientes com o consumo". Como é que podemos poupar energia? E foi isso que aconteceu com o Solar Impulse. Não podíamos aumentar o poder do Sol, mas podíamos diminuir o consumo do avião. E foi por isso que tivemos um avião tão eficiente. Era muito grande, voava muito devagar, só levava uma pessoa a bordo, mas podíamos provar que a energia solar permitia que um avião elétrico voasse dia e noite, vários dias e várias noites seguidos. E é isto que eu adoro. Quando as pessoas dizem que algo é impossível, encontramos outra forma, uma forma disruptiva para ser possível, para o tornar possível. Mudar a forma de pensar. E isso é o que temos que fazer com o ambiente.

Acha que ainda é possível impedir que as alterações climáticas alcancem níveis insustentáveis para nós?
Sim, mas temos de mudar a nossa forma de lidar com a energia. A questão não é como podemos produzir mais energia. A questão é como podemos consumir menos. Como podemos ser mais eficientes. E o que vi com a Fundação Solar Impulse é que há centenas e centenas de soluções que permitem ser mais eficientes com a energia, com os recursos, nos produtos, em termos de desperdício, avançar na economia circular, com novos sistemas de aquecimento e arrefecimento, novos tipos de motores...

Através da fundação que criou em 2003 penso que já identificou mais de mil soluções...
Sim, identificámos, selecionámos e classificámos 1400 soluções até agora.

Pode dar um exemplo?
Vários. Uma solução permite recuperar o calor da chaminé de uma fábrica, de forma a enviá-lo de volta à fábrica. Não é só menos energia consumida, não é apenas menos CO2 produzido. É também uma redução na conta da energia. São menos 20% a 40% que a fábrica tem de pagar no final do mês. Outro exemplo, de que gosto muito, é o sistema que permite aquecer ou arrefecer os edifícios com energia geotermal no centro das cidades. Porque até agora a energia geotermal era usada para casas individuais no campo. Hoje, com este sistema, podemos instalar no centro das cidades, em grandes edifícios. Outro exemplo é um sistema que pega em lixo que não é reciclável e transforma-o em material de construção ou gravilha. Ou os velhos pneus, há milhões e milhões todos os anos e ninguém sabe o que fazer com eles, mas que podem ser transformados em travessas para os caminhos de ferro.

Há muitos exemplos possíveis em 1400 soluções...
O que eu gosto é o que chamo da Teoria da Piranha, os pequenos peixes que mordem nos rios da América Latina. Se temos uma, não acontece nada, porque é demasiado pequena. Mas se temos 1400 piranhas de uma vez, então somos um esqueleto em três minutos. E isto é exatamente o que temos de fazer em relação às alterações climáticas. Precisamos de todas estas soluções em conjunto. E cada uma delas vai reduzir um pouco da poluição, um pouco do CO2, um pouco dos desperdícios... E isto pode fazer uma grande, grande diferença.

Quando vemos as temperaturas recorde, como em julho por toda a Europa, é fácil falar sobre o aquecimento global e as alterações climáticas, porque as pessoas estão a senti-lo na pele. Mas quando a onda de calor desaparece, as pessoas tendem a esquecer-se. Como é que fazemos para que não esqueçam?
Mostrando que, hoje, lutar contra as alterações climáticas é economicamente lucrativo. Dou um exemplo para Portugal. Um dos recordes do mundo para a energia mais barata na indústria solar está em Portugal, que chega a ser quatro vezes mais barato que o nuclear, o gás natural, o petróleo ou o carvão. Isto é atrativo. É excitante. E é assim para tudo. Todas as soluções que identificámos são economicamente lucrativas para as pessoas que as usam e para as pessoas que as produzem. Logo isto é um incentivo enorme. Porque é que é importante? Porque até os negacionistas das alterações climáticas, até as pessoas que não se preocupam com o ambiente, podem ficar interessadas em usar estas propostas porque poupam dinheiro. Ou lucrar.

Mas quando o mundo está a enfrentar uma crise como a de agora, com a guerra na Ucrânia e o custo de vida a subir... as pessoas querem soluções agora. Querem poupar dinheiro agora. E por vezes estes projetos poupam dinheiro no futuro...
Não, não. Todas as soluções que identificámos já existem. Não é uma ideia vaga para o futuro. Já existem hoje. Podem ser implementadas já. O que precisamos são decisões políticas. Precisamos, por vezes, de mudar a regulação, de forma a permitir que estes sistemas sejam usados e por vezes há oposição. Em Portugal há muita oposição por parte dos ecologistas contra a energia solar ou energia eólica.

Depende do que estamos a falar...
Não faz sentido. Precisamos todos de avançar nas energias renováveis, na eficiência energética, na economia circular, na gestão do lixo, tudo isto tem de ser feito rapidamente. Agora, se temos a oposição das pessoas que dizem: "Os painéis solares não são bonitos na paisagem"... Então acabou. Então vamos ter alterações climáticas. Teremos uma qualidade de vida desastrosa, mas ainda teremos uma bela paisagem. Não faz sentido.

Mas acha que esta guerra e esta crise podem obrigar a recuar na luta contra as alterações climáticas. Estamos a ver países como a Alemanha a reconsiderar adiar o corte com o carvão, porque o inverno está a chegar e será preciso aquecer as casas. Acha que podemos recuar nesta luta?
Acredito nisso a curto prazo, isto é, para o próximo inverno. Claro que precisamos de aquecer os edifícios das pessoas que vivem em países frios. Mas até aí podemos aquece-los de forma razoável. Podemos poupar 40% de energia se aquecermos uma casa a 20 graus em vez de a 25 graus. É importante perceber isso. E depois também temos de isolar bem os edifícios, aquecer os quartos e salas onde as pessoas vivem, não os que estão vazios. Precisamos de acender a luz quando é preciso. Precisamos usar lâmpadas LED, que são 20 vezes mais eficientes que as incandescentes... Há muitas formas de reduzir o uso de energia.

Mas por vezes as pessoas dizem: estamos a fazer isto, estamos a fazer este esforço e a investir no futuro, em energias verdes e depois a China não está a fazer nada, a Rússia não está a fazer nada. Então não merece a pena. O que dizer a estas pessoas?
É verdade que a Europa é apenas responsável por 9% das emissões de CO2 no mundo. Mas se a Europa der o exemplo de como pode trabalhar com energias renováveis, como pode trabalhar com eficiência energética, como pode trabalhar com tecnologias limpas, então os outros vão seguir, porque vão ver que é possível e que é lucrativo. E se a Europa tiver muito sucesso com estas tecnologias, prometo que os outros vão seguir-nos muito, muito rapidamente. Mas temos de o mostrar. E claro, a Europa não vai salvar o mundo e o clima sozinha. Mas a Europa pode criar empregos, pode aumentar o poder de compra dos mais pobres, estimular a criação de indústrias para as tecnologias limpas. E tudo isto beneficia a Europa. E, já agora, também beneficia o clima. É assim que vejo a esperança contra as alterações climáticas.

É essa a mensagem que vai tentar transmitir quando vier a Portugal para as Conferências do Estoril, em setembro?
Sim, definitivamente. Quero mudar a narrativa da ecologia. Até agora ouvimos que a ecologia é cara, chata, que ameaça a nossa mobilidade, o nosso conforto, ameaça o crescimento económico. O que eu quero mostrar é que hoje é exatamente o oposto. A ecologia e a proteção ambiental é algo emocionante. É economicamente lucrativo. Permite criar emprego. É bom para o crescimento económico, porque são precisas novas oportunidades de negócio para proteger o ambiente. E porque salvamos os recursos naturais e salvamos energia.

Uma das coisas positivas é que a nova geração parece já ter percebido a mensagem. Vimos isso nos protestos dos jovens nos últimos anos, a lutar pelo futuro.
Sim, mas aqueles que estão a tomar as decisões são os mais velhos e é por isso que não temos tempo para esperar que a próxima geração chegue ao poder. Precisamos de educar os políticos de agora, os CEO e chairmen de hoje. O que eu gosto de ver nos jovens a protestar nas ruas é que levam os políticos a agir, obrigam a que tomem algumas decisões como medidas de emergência climáticas. Mas também recomendaria aos jovens que deviam gritar um pouco mais "soluções, soluções, soluções" e não apenas "problemas, problemas, problemas".

Além de ser um explorador, também é psiquiatra, sabe como as pessoas pensam. Porque é que a ameaça das alterações climáticas não é vista como a ameaça da covid-19?
A covid era uma ameaça imediata à vida, as pessoas estavam com medo de morrer no mês seguinte. As alterações climáticas são algo para os próximos anos. Então é mais fácil aprovar medidas contra a covid. Mesmo assim, não sei como foi em Portugal, houve em vários países protestos contra as medidas para combater a covid. Cada vez que tocamos no comportamento das pessoas perturbamo-las nos seus hábitos e as pessoas odeiam mudar. Por isso é mais fácil quando é uma ameaça de morte a curto prazo, como a covid. Mas as alterações climáticas são algo que também temos de enfrentar. Se dizemos que é para a próxima geração, não funciona. As pessoas vão esperar. E é por isso que é importante focar no facto de que, se precisamos de motivar as pessoas para fazer algo, temos de mostrar que é economicamente lucrativo. Que é uma forma de as pessoas mais pobres pouparem dinheiro, terem mais poder de compra, terem uma fatura elétrica menor. E se fizermos isso, vamos dar a esta luta pelas alterações climáticas um foco positivo. E também para a indústria, para a economia, para as finanças, mostrar que em tudo isto há novas oportunidades.

E para lá desta luta contínua no combate às alterações climáticas, qual é a sua próxima aventura?
Uma é um avião a hidrogénio e outra é uma nave solar, como um Zepelim, de 150 metros de comprimento, totalmente solar, a voar a energia totalmente limpa.

E quando é que os podemos ver a voar?
Espero que o Zepelim solar esteja pronto em três anos e o avião a hidrogénio, talvez em quatro ou cinco anos.

susana.f.salvador@dn.pt

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