Bactérias hospitalares. Um em cada dez doentes é infetado

Portugal tem perto do dobro da taxa de infeção hospitalar da média europeia e é dos países que mais usa antibióticos

Um em cada dez doentes internados num hospital em Portugal apanha uma infeção hospitalar. Problema já identificado - e apontado no último relatório da OCDE - que levou ao lançamento de várias campanhas para o controlo de infeções e para o uso mais racional de antibióticos, com o objetivo de reduzir a resistência das bactérias aos tratamentos disponíveis. No hospital de Gaia 30 doentes foram identificados com a bactéria Klebsiella pneumoniae com multirresistência. Oito pessoas morreram e 12 permanecem internadas. Este tipo de resistência nesta bactéria é raro em Portugal.

Portugal tem uma taxa de infeção hospitalar de 10,7%, perto do dobro da média europeia, que ronda os 6%, e é dos países que mais consomem antibióticos. Os dados dizem respeito a 2013 e fazem parte do relatório "Portugal - Prevenção e controlo de infeções e de resistência aos antimicrobianos", o último disponível. Os dados são os mesmos que o relatório da OCDE, realizado a pedido do Ministério da Saúde e publicado em maio deste ano, destacava como pontos negativos, assim como o elevado uso de antibióticos, superior ao registado nos outros países que fazem parte da organização.

Em 2013 Portugal ocupava o nono lugar entre os países com maior consumo de antimicrobianos na Europa. Já nos hospitais, tinha-se registado uma diminuição da prescrição, deixando Portugal bem melhor na lista. Embora o relatório salientasse que não havia informação de todos os hospitais. O uso excessivo de antibióticos e o não cumprimento do tratamento leva à criação de resistências por parte de bactérias.

O último relatório sobre a prevenção e o controlo de infeções não dava indicação do número de mortes associadas a infeções hospitalares, mas admitia que parecia relevante a mortalidade associada às infeções hospitalares. O anterior, com dados relativos a 2011, indicava a existência de infeções em 25% das mortes verificadas nos hospitais, o que correspondeu a 11 357 mortes.

Oito mortes em Gaia

O hospital de Gaia regista um surto de infeção com a bactéria Klebsiella pneumoniae portadora do KBC. Este tipo de resistência nesta bactéria é de 1,8% em Portugal, tornando-a rara. Valor abaixo da média europeia e muito longe da registada em alguns países como a Grécia onde é de 50%. Na unidade foram detetados 30 casos de infeção. Oito pessoas morreram, mas o hospital esclarece que "a causa não pode ser atribuída diretamente a esta infeção dada a complexidade e a gravidade dos quadros clínicos de base". A Direção-Geral da Saúde está a monitorizar a situação e deve hoje emitir um comunicado.

O primeiro caso foi notificado a 7 de agosto e foram de imediato tomadas medidas para controlo da infeção, que passaram pela aquisição de material para identificação da bactéria e medidas de isolamento dos doentes. O caso zero terá sido uma doente internada há 50 dias no hospital, com uma complicação pós-cirurgia que teve de tomar vários tipos de antibióticos. Entretanto 12 pessoas permanecem internadas, nenhuma nos cuidados intensivos, e nove já tiveram alta.

"Do ponto de vista da infeção, as situações estão estáveis. A maioria das infeções foram urinárias e em feridas operatórias. Temos três casos de pneumonias, disse Margarida Mota, coordenadora do Programa de Prevenção e Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobiano do Centro Hospitalar Gaia/ /Espinho. Esta é uma bactéria de disseminação rápida e neste caso multirresistente. "Tem um mecanismo que produz uma substância que destrói os antibióticos. Para a tratar temos de fazer combinações de vários antibióticos", explicou.

A sua transmissão dá-se pelo contacto de pele ou em superfícies contaminadas. "Não se pode falar de falhas dos profissionais de saúde. Não são só estes que estão envolvidos com os doentes. Temos também as visitas. Temos todos os programas exigidos de precaução básica, apoio na prescrição e somos auditados. Se não tivéssemos tomados medidas, teríamos mais doentes infetados e que podiam constituir mais mortes. Penso que a corrente de transmissão está quebrada. O último caso foi detetado na sexta-feira, embora possa surgir mais alguma situação de algum doente já infetado", disse Margarida Mota.

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