As duas estudantes que se confinaram na entrada da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e estavam desde terça-feira de manhã em greve de fome foram retiradas do edifício esta quinta-feira pelos bombeiros. Teresa Cintra e Jade Lebre, que pertenciam ao grupo de estudantes que ocupou a Faculdade de Psicologia desde 26 de abril - impedindo a entrada de pessoas e o normal funcionamento da faculdade - estiveram cerca de 50 horas sem comer..As estudantes tinham afirmado que só saíriam se a reitoria da Universidade de Lisboa enviasse um email à comunidade educativa a apoiar publicamente a ação que este sábado pretende bloquear o Terminal de Gás Liquefeito no Porto de Sines..Depois de mais de dois dias de greve de fome, a direção da Faculdade de Psicologia chamou a PSP e os Bombeiros Sapadores de Lisboa para abrirem as portas e retirarem as jovens. O estado de saúde de Teresa e Jade foi sendo acompanhado pelo INEM e na noite de quarta-feira apresentavam níveis preocupantemente baixos de glicemia, o que motivou o pedido para que fossem retiradas da faculdade ontem. Teresa Cintra foi depois transportada ao hospital devido ao estado de saúde debilitado em que se encontrava..A porta-voz da Greve Climática Estudantil, Alice Gato, disse ao DN que a ocupação na Faculdade de Psicologia, e em outras escolas e universidades, terminou ontem, para que os jovens possam descansar e preparar a ação de desobediência civil no Terminal de Gás Liquefeito do Porto de Sines..Desde 26 de abril que várias instituições escolares foram ocupadas para exigir o fim ao uso do combustível fóssil até 2030 e eletricidade 100% renovável e acessível para todas as famílias até 2030..Esta ação está a ser organizada pela Plataforma Parar o Gás que reivindica a produção de energia 100% renovável até 2025. A plataforma considera que o Porto de Sines é a "entrada principal de gás fóssil em Portugal". Além do mais, consideram que este espaço representa a indústria fóssil no seu pleno funcionamento.."Aquilo que queremos é que a energia não seja um lucro e sim um direito. Que todas as pessoas possam ter acesso a energia descentralizada, produzida por fontes renováveis e que possamos reconquistar o setor energético. Que seja gerido pelas pessoas e para as pessoas", afirma Catarina Viegas, porta-voz da Plataforma Parar o Gás..Os jovens garantem que esta será uma ação pacífica. "Parte do nosso consenso de ação, e quem vem à ação tem de estar de acordo com esse consenso, é que esta é uma ação não violenta e portanto qualquer força policial que nós tenhamos de confrontar não sofrerá a nossa resistência de forma violenta", explica Catarina Viegas..A Plataforma considera que é assustador viver num país em que a ação climática ainda está aquém do que será expetável e, por isso, estão dispostos a "sacrificar-se" por esta causa. Da parte do Governo, os jovens sentem que não há vontade de criar medidas que permita lutar contra as alterações climáticas. "Os governos continuam simplesmente a ser um Estado para criar negócios, a nossa energia ainda não está a ser fornecida publicamente, não há uma energia pública renovável, a nossa energia continua na mão de privados. Isto mostra que não há um esforço", diz Catarina Viegas..Atualmente o planeta exige que se corte 75% das emissões até 2030 para que se possa atingir a neutralidade carbónica. A porta-voz da Plataforma Parar o Gás lembra que por mais que tenha sido feito no passado, ainda não é suficiente. "Estamos numa situação de emergência e é preciso agir como tal. Não é como se fosse apenas algo para negociar e conversar. É preciso agir. É preciso mobilizar uma total mudança no sistema para que as nossas vidas consigam ser de alguma forma dignas", frisa..Catarina Viegas considera que tecnologicamente o mundo está perto de atingir a neutralidade carbónica e que a partir de agora é uma questão de vontade política. "Há formas de garantir o equilíbrio entre a produção e o consumo através de fontes renováveis que já estão a ser estudados há décadas. Isto vai desde o armazenamento de energia quando há excesso e quando há quebras na produção a expansão da rede elétrica", exemplica. A jovem lembra que ao introduzir meios de energia renovável os acionistas das grandes empresas vão perder rendimentos e investimentos nas infraestruturas fósseis que apoiaram ao longo do tempo.."Afinal quem é que nós queremos que ganhe? Somos muitos a ganhar contra poucos que têm muito a perder. É essa escolha que é preciso que seja feita e isso é uma escolha política", termina Catarina Viegas..sara.a.santos@dn.pt