Aterrar em Marte pela mão de uma empresa de Lisboa

Criada há 11 anos, quando o espaço era ainda embrionário no país, a empresa Spinworks criou um sistema mais preciso para descer noutros planetas

Dentro de três semanas, Francisco Câmara, João Oliveira e Tiago Hormigo mudam-se com os computadores e um drone todo equipado com câmaras de vídeo e vários sistemas eletrónicos para uma pedreira perto de Alenquer. Será ali, no meio do nada, num terreno desativado que eles próprios estão agora a preparar, para que se pareça com uma paisagem marciana no arranjo das rochas, que vão fazer a primeira grande prova de fogo da sua nova tecnologia espacial.

Trata-se de um sistema de deteção e desvio de obstáculos em tempo real para uma aterragem de precisão em Marte - que também pode ser usado em missões à Lua, a cometas ou a asteroides -, que a sua empresa, a Spinworks, sediada em Lisboa, desenvolveu nos últimos dois anos para a ESA, a agência espacial europeia.

Neste momento, já está tudo mais do que testado no computador - e a funcionar sem falhas. Na fase final da aterragem em Marte, que tem uma atmosfera muito rarefeita e uma gravidade cerca de três vezes menor do que a Terra, tudo acontece muito depressa: dos 400 metros de altitude até ao solo são apenas 30 segundos. Nessa descida alucinante, o software tem apenas dez segundos para avaliar o risco do local em que a nave vai descer: é o tempo de detetar um eventual obstáculo e ainda ter margem de manobra para um desvio rumo a um sítio seguro. Neste momento, o sistema que os jovens engenheiros da Spinworks desenvolveram já consegue fazê-lo em modo virtual. Num ecrã gigante, na parede, Francisco Câmara, um dos líderes do projeto, com João Oliveira e Tiago Hormigo, projeta o filme de uma das muitas simulações feitas. Visto de cima para baixo, lá está o terreno rugoso virtual a aproximar-se. Ao lado, aquela mesma zona da "superfície marciana" surge pintada a duas cores - a verde estão as áreas seguras para pousar, a vermelho as perigosas.

Subitamente, o sistema percebe que o ponto escolhido para a aterragem se encontra na zona vermelha - porque há uma rocha no caminho, ou uma cova -, e então aciona os comandos para dirigir a "nave" para a parte verde, onde por fim aterra em segurança.

O algoritmo que comanda a descida está a correr sem falhas e no tempo certo: as imagens da câmara chegam a cada décimo de segundo, como previsto, e são combinadas com as de um LiDAR, um sistema de varrimento de laser que lê o relevo, e tudo é processado em tempo real, de forma que a nave pode salvar-se a tempo de uma aterragem desastrosa.

"Com o LIDAR temos um nível de precisão do relevo da ordem dos seis centímetros, muito mais preciso do que todos os outros sistemas existentes", diz Francisco Câmara, sublinhando que este tem uma taxa de sucesso acima dos 99% numa aterragem em Marte. Atualmente, pousar no Planeta Vermelho tem taxas de sucesso de apenas 80%, dado que não há ainda nenhum sistema de aterragem deste tipo - outros grupos, além da Spinworks, estão a trabalhar nisso, na Europa e nos Estados Unidos.

Falta agora a prova dos nove, no terreno, o que vai ser feito na tal pedreira, com uma série de testes, ou seja, de aterragens, com um drone que a própria equipa construiu e equipou com a sua tecnologia. E, para que tudo se assemelhe ao que acontece com a descida de uma sonda no Planeta Vermelho, o drone tem de estar a uma altitude de cem metros no momento em que inicia a manobra de aterragem.

"Temos de fazer pelo menos mil descidas, em diferentes pontos e a horas distintas do dia, para no final termos uma estatística robusta", explica Francisco Câmara. Num projeto deste tipo, "não pode haver mais de um por cento de aterragens falhadas", resume.

A campanha seguinte também já está marcada: será em novembro, em Marrocos, num vasto terreno de solo avermelhado, pedregoso e muito "marciano", já preparado para isso mesmo. É ali que decorrem muitos dos derradeiros testes de veículos e tecnologias de missões a Marte.

Se tudo correr bem, como a equipa da Spinworks espera, em janeiro o projeto estará concluído e entregue à ESA. Até lá, ultimam-se detalhes - e respira-se confiança.

Seis jovens, uma empresa e o sonho de voar alto

No princípio eram seis, todos jovens de 20 e poucos anos, todos saídos do Instituto Superior Técnico, da área da Engenharia Aerospacial, todos com alguns anos de experiência no estrangeiro, na ESA, ou empresas de referência, como a Airbus. "Quando entrámos no Técnico não havia indústria aerospacial em Portugal", lembra Tiago Hormigo, que trabalhou no centro de controlo da ESA, em Darmstadt, na Alemanha, e foi um dos fundadores da Spinworks, em janeiro de 2006. A temporada lá fora, "a trabalhar no que de melhor se fazia na Europa na área do espaço, logo à saída do curso", fez toda a diferença. "Isso galvanizou-nos", recorda Tiago Hormigo. E a possibilidade de criar uma empresa em Portugal acabou por surgir com naturalidade. Hoje a Spinworks tem 19 engenheiros e investigadores e de projeto em projeto, todos ganhos em concursos internacionais e competitivos, nomeadamente no âmbito da ESA, a equipa cresceu, ganhou know-how e desenvolveu tecnologia própria e competitiva, como a do sistema de aterragem de precisão noutros planetas.

Do espaço para a Terra, há novas aplicações

O primeiro projeto que a Spinworks ganhou, logo em 2007, no valor de um milhão de euros, foi a produção de antenas para o Galileo, o sistema europeu de navegação por satélite. "Não foi fácil, porque só recebíamos a verba depois de entregar as antenas, mas foi um sucesso", lembra Tiago Hormigo. Isso foi decisivo para se abalançarem a novos concursos, nomeadamente da ESA. E nessa altura começou a desenhar-se o caminho para esta nova tecnologia de deteção e desvio de obstáculos para aterragem de precisão. "Achámos que valia a pena investir nesta tecnologia", conta Francisco Câmara. Logo em janeiro de 2007 ganharam um projeto da ESA para desenvolver um sistema desse tipo para a missão Next Lunar Lander, que acabou por ser cancelada. Mas o conhecimento ficou e voltou a servir de trampolim para a diversificação de outras aplicações, também terrestres, como o apoio à agricultura e silvicultura, com drones e imagem em tempo real. "Desenvolvemos os nossos próprios drones para isso e prestamos serviços a agricultores e produtores florestais", diz Francisco Câmara.

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