As Vozes da Acampada
REINALDO RODRIGUES

As Vozes da Acampada

Numa das principais praças da capital portuguesa, estão há semanas, muitas tendas com histórias dentro. Uma mistura de estudantes, pais preocupados e muitos profissionais liberais que não arredam pé do Rossio em defesa pelo direito à habitação. Numa discussão que oscila entre o direito à habitação e o direito à manifestação
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No dia 17 de outubro, a Avenida da Liberdade assistia a mais uma manifestação, milhares de pessoas desfilavam e reivindicavam o direito à habitação. Era claro, para os presentes, que aquele movimento terminaria com a pernoita de muitos numa das principais praças da capital. Na cidade do Porto sete dias antes já muitos tinham decidido chamar à atenção para o problema da habitação com o assentar de tendas na Praça D. João I bem próximo da avenida dos Aliados artéria principal da cidade. A ação policial da madrugada de 13 de outubro deveria ter posto termo ao protesto, mas acabou por funcionar como faísca para que, dias depois, depois desta manifestação fossem montadas tendas no centro de Lisboa.

No meio das muitas lutas pessoais que desciam a avenida em protesto, estava Marta Bentes, uma estudante de jornalismo com 19 anos, natural de Serpa e a partilhar um pequeno T2 na margem sul do Tejo com duas irmãs. Para ela nunca existiu a menor dúvida “tinha visto os protestos noutros países, depois no Porto, e achei logo desde o início que era uma iniciativa que podia e pode impactar o nosso país. E, portanto, quando houve esta ideia de fazer a acampada não pensei duas vezes e para mim era certo que ia estar presente”. A questão da habitação preocupa-a face à iminência de terminar o curso e a entrada no mercado de trabalho e a impossiblidade de viver “numa casa só minha e não ser obrigada a partilhar quarto ou casa com outras dez pessoas”.

De acordo com os dados mais recentes do INE referentes ao segundo trimestre de 2026, o preço mediano de venda de habitação no município de Lisboa atingiu os 5 299 euros por metro quadrado. Trata-se de uma subida de 14,7% em relação ao ano anterior, sendo que o cenário é idêntico no que se refere ao arrendamento. De acordo com o INE, o valor médio da renda mensal para uma habitação de 80 m2 é, em média, de cerca de 1423 €. Só na última década, estima-se que as rendas dos novos contratos de arrendamento na capital tenham aumentado cerca de 103%. São valores incomportáveis para jovens, como Marta, que afirma: "Já vi várias casas em que as pessoas pagam muito e não têm absolutamente quaisquer condições. Portanto, acho que há uma grande falta de habitação pronta. E o desejo de um jovem de viver sozinho ou com o namorado ou a namorada torna-se impossível para quem vive com o salário mínimo".

Apesar das várias cargas policiais, as tendas têm voltado a ocupar a praça e existem de facto muitos voluntários envolvidos não só na conservação e limpeza do espaço mas também na manutenção de uma cantina solidária que vive de doações que chegam à organização da acampada. Para Bruno Cancelinha, este quadro é um dos aspectos mais positivos desta manifestação. Para este ativista “a acampada já teve várias vitórias como centrar o debate nacional naquilo que é uma das principais crises em Portugal, que é a crise da habitação”.

Diariamente, realizam-se reuniões entre os presentes, denominadas assembleias populares. Marta explica-nos como funcionam: "Quem quiser falar tem de se inscrever. As pessoas têm três minutos para falar e podem decidir se querem partilhar a sua revolta ou propor ideias. Depois, há sempre alguém que escreve essas ideias e, no final de todas as intervenções, faz-se uma votação de braço no ar”.

Destas discussões de fim de tarde, sob a estátua de D. Pedro IV, já emergiram várias propostas, explica Bruno, “temos muitos edifícios devolutos no nosso país, mesmo nos centros das cidades que estão abandonados, alguns dos quais são propriedade pública ou municipal e que devem ser reabilitados para habitação pública”. O engenheiro informático com trinta anos, está desde o início na acampada e descreve o seu dia-a-dia “acordar aqui no Rossio, tomar um pequeno almoço ali na nossa cantina popular e depois ir para casa trabalhar, porque eu estou em regime de teletrabalho. De vez em quando tento passar por aqui à hora do almoço, ver como é que estão as coisas, mas tenho que continuar a trabalhar”.

Num dos cantos da praça um homem pinta uma tela. Chama-se Galeno, um artista plástico brasileiro que já sofreu na pele o problema das rendas “eu pagava uma renda de 800 euros e o proprietário pediu para nós sairmos porque ele queria alugar pelo dobro, 1600 euros. Então, ficou difícil para nós permanecermos e tivemos que sair”. Na tela vai desenhando uma alegoria aos acontecimentos das últimas semanas: as tendas, os manifestantes, a polícia e os muitos jornalistas que por ali circulam. Acredita que provavelmente esta “acampada em si não apresente resultados. Mas a pressão é grande, porque o número de imóveis disponíveis é muito pequeno. Se os políticos não agirem no sentido de disponibilizar mais habitação, a coisa vai complicar. As pessoas vão para a rua, não têm onde morar. A renda está muito alta, não tem jeito. O movimento é grande”. Conclui.