438 candidatos às especialidades não quiseram vagas nos grandes hospitais de Lisboa e Vale do Tejo

O ano de 2022 fica para a história como aquele que reuniu o maior número de sempre de vagas - ao todo, 2057, quando em 2021 tinham sido 1938. Mas fica também marcado por ter tido o triplo de vagas por preencher em relação ao ano anterior, 161 contra 50. A esmagadora maioria em unidades da Grande Lisboa. O bastonário dos médicos diz que a situação deve constituir "um alerta para todos" e que a tutela deve procurar os porquês. Veja o mapa de vagas em aberto.

Ana Mafalda Inácio
Jovens médicos concentram-se mais a Norte e fogem mais do Sul.

Este ano foram lançadas 2057 vagas para a formação em especialidades médicas, a iniciar em janeiro de 2023. Foi o maior número de sempre, tendo-se ultrapassado a barreira das duas mil. O bastonário dos médicos assume o feito, até porque foi "a partir dos meus mandatos que este número veio sempre a aumentar", mas diz não saber até quando vai ser possível manter esta capacidade formativa, porque "os hospitais estão cada vez mais à míngua", comentou ao DN.

Mas de uma boa notícia, há vários alertas que surgem. Desde logo, diz Miguel Guimarães, é preciso perceber por que é que, do maior concurso de sempre de vagas, 161 ficaram em aberto? Ou por que é que, dos 2321 candidatos, segundo números da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), 438 recusaram qualquer uma destas vagas, sobretudo no que toca a duas especialidades fundamentais, Medicina Interna (MI) e Medicina Geral e Familiar. Ou por que é que a esmagadora maioria das vagas deixadas em aberto pertencem a unidades da Região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), algumas são hospitais centrais?

Várias questões que fazem com que, e ao contrário da tutela, que na terça-feira lançou uma nota à imprensa sublinhando sobretudo que, em 2023, o "SNS vai formar o maior número de médicos especialistas de sempre", o bastonário defenda que o importante neste momento "é perceber o que está a acontecer com estas especialidades e com algumas das grandes unidades do país". Ou numa visão mais política, onde é que a tutela, "não esta, porque tem muito pouco tempo, mas as anteriores têm errado para fazer com que tantas vagas tenham ficado em aberto".

Miguel Guimarães sustenta que a análise da situação pode não ser fácil, mas tais resultados "têm de ser estudados". É preciso saber se "a atual situação do SNS e de alguns hospitais, especificamente da Grande Lisboa, está a afastar os jovens licenciados em Medicina de uma carreira clínica", refere. Ou se, por outro lado, o problema até pode estar nas próprias especialidade, sendo que das 48 a concurso, só seis ficaram com vagas em aberto, nomeadamente Medicina Interna (MI), Medicina Geral e Familiar (MGF), Farmacologia Clínica, Imunohemoterapia, Patologia Clínica e Saúde Pública. Mas do total das 161 vagas que sobraram é preciso não esquecer que 103 pertencem a unidades da Grande Lisboa, e destas 90 são da carreira hospitalar e 71 dos cuidados primários.

O bastonário lembra que duas das especialidades com mais vagas em aberto são, precisamente, "as que estão mais pressionadas nos serviços de urgência dos hospitais, no caso de Medicina Interna, e com burocracias nos cuidados primários, no caso da Medicina Geral e Familiar". Por isto mesmo, sublinha, "é importante que a situação seja estudada, avaliada e discutida, tendo de haver uma explicação por parte do Ministério da Saúde sobre o que pode está a acontecer".

Região Norte foi a única que ficou apenas com três vagas em aberto

De acordo com os dados a que o DN teve acesso, (ver tabelas), das 235 vagas disponíveis para MI, 67 ficaram por ocupar, 42 em LVT, e das 574 para MGF, 71 ficaram desertas, 38 em LVT, mas de um total de 200. Em contrapartida, na Região Norte, das 182 vagas para MGF só uma ficou por ocupar em Bragança e das 79 para Medicina Interna, só duas não foram ocupadas, também em Bragança. Ao todo, destas 251 vagas só três ficaram em aberto.

À questão sobre o porquê desta disparidade - se é porque a formação é diferente no Norte? Se é porque os serviços estão mais organizados? Ou se é até por uma visão mais conservadora, no sentido de os jovens licenciados preferirem seguir a carreira clínica - Miguel Guimarães responde: "Até pode ser por uma questão mais conservadora, de os jovens serem formados no Norte e quererem ficar junto das famílias, mas não é certamente pela formação ser diferente. A formação é igual em todo o país. O que pode diferenciar a região Norte da do Sul é o facto de haver mais médicos a dirigir unidades, com uma outra visão da gestão, e isso ser mais atrativo para os serviços".

O que considera ser o "alerta máximo" é o facto de 438 jovens terem recusado qualquer uma das 161 vagas que ficaram por preencher, manifestando alguma preocupação se tal terá como causa "a forma como os jovens licenciados se sentem em relação ao SNS, no sentido de não se sentirem bem tratados e, por isso, procurarem logo outras alternativas à carreira clínica", reforçando: "Isto tem de ser estudado, até para se encontrarem soluções para o futuro".

O documento a que o DN teve acesso revela que a Região de Lisboa e Vale do Tejo, a par da do Alentejo, foram as mais preteridas pelos jovens médicos de entre as seis especialidades que ficaram com vagas em aberto. O mapa de vagas (tabela a consultar em baixo) revela que em Farmacologia Clínica, das 5 vagas nacionais, as duas do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, ficaram por preencher, em Imunohemoterapia, das 20 vagas nacionais 9 ficaram por preencher e todas na região LVT, em centros hospitalares como Lisboa Norte, Lisboa Ocidental e Lisboa Central.

O mesmo aconteceu em Medicina Interna, que das 235 vagas nacionais ficou com 67 em aberto, sendo 42 na região LVT - basta referir que os centros hospitalares Lisboa Norte e Lisboa Central tinham, respetivamente, 13 e 14 vagas disponíveis e cada um ficou com 8 vagas por ocupar. Na área da Grande Lisboa, o Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) só conseguiu preencher duas das 8 vagas disponíveis. O DN sabe que este resultado está a suscitar grande preocupação dentro desta unidade, pois receia-se que tal venha a comprometer o futuro da especialidade. O Hospital de Vila Franca de Xira não conseguiu preencher nenhuma das cinco vagas que tinha e o Garcia de Orta, em Almada, ficou com uma vaga em aberto das quatro que tinha. O Beatriz Ângelo, em Loures, tinha seis e ficou com três em aberto.

Ainda em Medicina Interna há a destacar as regiões do Centro, que das 41 vagas disponíveis ficou com 8 por preencher, a do Alentejo, que das 11 vagas só preencheu três, ficando com 8 em aberto, e a do Algarve, que tinha nove para o Centro Hospitalar Universitário e ficou com duas por ocupar.

Medicina Geral e Familiar teve 574 vagas e ficou com 71 por preencher

Na especialidade MGF, cujo total lançado para 2023 também foi o mais elevado de sempre, 574 vagas, ficaram 71 por preencher, destas 38 em LVT, de um total de 200, 14 no Alentejo, de entre 26, 6 na região Centro, de um total de 114, e apenas duas ficaram em aberto na região Norte, Bragança, de entre um total de 182. A região dos Açores também registou dificuldades, das 18 disponíveis só preencheu seis, ficando 12 desertas.

Das outras especialidades com vagas em aberto, como Patologia Clínica, onde havia 7 vagas nacionais ficaram três por preencher, seis em LVT e uma no Alentejo. Em Saúde Pública, das 50 vagas disponíveis este ano só cinco ficaram em aberto, três no Alentejo e duas no Centro.

Perante esta realidade, Miguel Guimarães diz que como bastonário e médico o seu primeiro apelo vai para os jovens que não querem especializar-se. "A medicina atual e a do futuro incide na especialização. Portanto, apelo a todos os médicos que fazem clínica que optem por uma especialização".

Por outro lado, e sobre as vagas deixadas em aberto em LVT e se estas terão a ver com o nível de vida mais elevado, o representante dos médico assume que pode ser "uma hipótese, mas isso também acontece em outras regiões, como no Algarve", destacando que "as vagas deixadas abertas no Interior também são uma grande preocupação. "Se fosse ministro ou presidente da ACSS e olhasse para o Interior ficaria em pânico, com as vagas deixadas em aberto e com o número de médicos que se está a reformar ou vai reformar nos próximos três anos nessas regiões. Nesta altura, já estaria a estudar o problema e a procurar soluções".

E estas não podem ficar apenas por se tentar pagar mais alguma coisa aos médicos, "há que encontrar outros incentivos para zonas carenciadas, que, hoje, como se vê, não estão só em zonas periféricas, a 200 ou 300 km dos grandes centros, mas também já nestas regiões. Basta olhar para Lisboa. Por isto tenho vindo a defender que é preciso encontrar uma linha especial de apoio, quer na saúde, na habitação e na educação. É preciso haver condições concorrenciais para estas regiões para conseguirmos assegurar e fixar médicos", argumentou.

Este ano, 222 licenciados de outros anos entraram na especialidade

Segundo a ACSS, este foi o ano em que maior número de médicos conseguiram escolher a foemação que queriam, havendo até 222 licenciados que não tinham concorrido à especialidade nos anos anteriores e que este optaram por escolher uma das vagas disponíveis. Os números indicam ainda que foram colocados nas especialidades 89% dos candidatos, de um total de 2321 candidatos iniciais, não se sabendo, no entanto, se houve candidatos a desistir. Mas tal para a ACSS "significa um aumento da atratividade de ingresso na formação especializada em relação ao ano anterior".

De referir ainda, que o número de médicos internos que passaram da formação geral para a formação especializada correspondem a mais 66 do que em relação ao ano passado. Na nota à imprensa, o organismo do Ministério da Saúde destaca ainda o número de colocados em Pediatria (102), mais do dobro do valor registado nos últimos des anos, desde 2012, em que entraram apenas 47 internos, e em Ginecologia-Obstetrícia (53), onde se verificou um aumento de 10% face ao ano transato.

Nos últimos dez anos, as colocações nas especialidades de Psiquiatria (72) e de Psiquiatria da infância e da adolescência (14) também aumentaram 62%, o que, refere a ACSS, "evidencia um progressivo investimento na prestação de cuidados de saúde mental aos portugueses e na capacitação do SNS".

Em relação a 2021, o mapa nacional de vagas apresentava um total de 1938, sendo 18 exclusivas para o Ministério da Defesa, mas do total 50 ficaram por preencher, a maioria também em zonas centrais do país. No total, existiam 2462, embora perto de 600 tenham desistido antes ou durante o processo.

Deste total de 50 vagas, 31 respeitavam à especialidade de Medicina Interna, sendo dez são no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte. Em Medicina Geral e Familiar ficaram 14 por preencher, a maioria em Lisboa e Vale do Tejo e no Alentejo. Também ficaram sem ninguém quatro vagas de imuno-hemoterapia em Lisboa e no Alentejo e uma de patologia clínica no Alentejo. Já na altura, a Ordem dos Médicos referia ser um resultado "inédito e desolador", revelando a gravidade da situação que o SNS atravessa.

Este ano, o bastonário volta a reforçar que ser urgente que se "vá ao encontro da expetativa dos médicos e dos portugueses, que pedem um SNS mais forte, com efetivas condições técnicas e humanas para uma medicina de qualidade".