Alunos portugueses levam minhocas astronautas a competição da ESA

Estudantes de Escola de Novas Tecnologias dos Açores, de Ponta Delgada, venceram a competição nacional CanSat e vão representar Portugal na final europeia, promovida pela agência espacial europeia

Três minhocas "astronautas", um satélite em forma de lata, muita eletrónica e computação, uma boa mão-cheia de dados e um trabalho de equipa sem falhas valeram à equipa da Escola de Novas Tecnologias dos Açores, de Ponta Delgada, São Miguel, a ENTA Team Sat 3, o primeiro lugar na competição CanSat Portugal, que terminou no domingo, na ilha de Santa Maria, nos Açores, e que o júri, presidido pelo cientista Manuel Paiva, considerou "a melhor até hoje".

João Farias, Ricardo Sousa, Marina Sousa, Mariana Viveiros e Diogo Medeiros ganharam a medalha de ouro desta competição promovida pela Ciência Viva e pela agência espacial europeia ESA, e destinada a alunos do ensino secundário, e vão agora representar Portugal no CanSat europeu, que vai decorrer em Bremen, na Alemanha, entre 28 de junho e 22 de julho.

Tal como fizeram para a prova nacional, os alunos terão de cumprir na Alemanha a sua missão espacial. O pequeno satélite do tamanho de uma lata de refrigerante (daí o nome can, em inglês), que eles próprios construíram e puseram a funcionar, vai ser ali lançado por um rocket até uma altitude máxima de mil metros. E depois, tudo se joga num abrir e fechar de olhos: um minuto, mais coisa, menos coisa, o tempo que dura a queda do microssatélite, amparado por um pequeno paraquedas.

Nesse breve intervalo, a equipa tem de receber em terra, no seu computador, os sinais enviados durante a descida, com as medições obrigatórias da temperatura do ar e da pressão atmosférica, e tudo o mais que se propõem medir e estudar no seu projeto.

No caso da ENTA Team Sat 3, o objetivo é uma experiência científica para determinar, através da análise de uma enzima, em amostras de tecidos de três minhocas astronautas - sim, elas foram a bordo da lata espacial -, se a aceleração na descida lhes causa stress oxidadativo.

Para esse estudo bioquímico, a equipa criou um pequeno laboratório de campanha, e de acordo com os resultados que apresentou na competição nacional - em inglês, porque a ideia é tudo se passe como numa missão a sério - indicam que há mesmo um aumento da tal enzima.

Ir à Alemanha não é nada que atemorize a equipa da ENTA, até porque, para alguns destes cinco jovens, disputar a competição europeia já não é nenhuma novidade. No ano passado, foi justamente a equipa desta escola açoriana que venceu o CanSat nacional, e que depois acabou por se sagrar também a grande vencedora internacional, ao arrebatar o primeiro lugar a nível europeu. Afinal, qual é o segredo deles?

Ricardo Sousa, para quem esta vitória tem um sabor muito especial - ele é daqui, da ilha Santa Maria, onde decorreu pela primeira vez esta prova nacional -, sorri, e responde sem hesitar. "Muito empenho, muito trabalho, e muita confiança na equipa", vai enumerando. "Distribuímos entre nós as tarefas de acordo com os conhecimentos de cada um, porque assim é mais eficiente, e tentamos evoluir sempre. Nunca estamos satisfeitos", sublinha.

Diogo Medeiros concorda. Para ele a palavra-chave é "dedicação". E o professor de eletrónica e programação da ENTA, Duarte Cota, que já orienta a equipa da escola há três anos, tem a mesma opinião. "Dedicação, muito trabalho e disciplina", resume. "Estes alunos são impecáveis, estão sempre disponíveis e motivados, e têm a capacidade de perceber quando devem dar a liderança, num dado momento, àquele que sabe mais nesta ou naquela a área", explica satisfeito e, claro, orgulhoso.

Além da medalha de ouro, o júri atribuiu mais dois prémios e uma menção honrosa. A equipa Epasat IV, da Escola Profissional de Almada, constituída por Pedro Cunha, Carlos Pólvura, Pedro Santos, André Fontes e o Rafael Silva, e orientada por Luís Bettencourt - para este professor, da ilha de Santa Maria, o prémio também tem esse sabor especial - conquistou a medalha de prata. E os alunos ganharam também um estágio de uma semana na estação que a ESA tem naquela ilha, e que é operada pela Edisoft. "As datas já estão a ser combinadas", conta Luís Bettencourt. "Vai ser muito importante para o currículo deles", diz, satisfeito.

A equipa CanSat 3E3, da Escola Secundária João de Deus, de Faro, e os Icarus, da Escola Adolfo Portela, em Águeda, ganharam, respetivamente, a medalha de bronze e a menção honrosa.

"Foi o melhor dos quatro anos, desde que realizamos esta competição em Portugal", garante a diretora-executiva da Ciência Viva, Ana Noronha. "Os projetos foram melhores, mais criativos, mais sólidos do ponto de vista tecnológico e as apresentações também tiveram mais qualidade", explica. "Os professores", sublinha, "são a alma disto e souberam aproveitar o feed-back que tem sido dado pelo júri ao longo destes quatro anos, para melhorar os projectos, e isso vê-se nestes resultados".

Manuel Paiva partilha a mesma visão. "Presidi durante dois anos ao júri da competição internacional e verifico que as equipas portuguesas estão perfeitamente ao nível das congéneres europeias", diz. A vitória da equipa açoriana no ano passado é a melhor confirmação disso mesmo. Mas, para Manuel Paiva, o facto de as equipas vencedoras virem principalmente de escolas técnico-profissionais, contém outra lição essencial. "Portugal não deu importância suficiente às escolas técnicas, e precisa de mudar isso".

A jornalista viajou a convite da Ciência Viva e do Governo Regional dos Açores

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