Ana Bacalhau: "Deve haver apoio à obra cultural, mesmo quando não é viável comercialmente"

10 perguntas à queima-roupa, 10 respostas na ponta da língua. Nesta rubrica, o DN desafia personalidades a comentar assuntos quentes do país e da atualidade. Hoje é a vez desta reconhecida cantora portuguesa, que já foi a voz da banda Deolinda.
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Liberdade, o que é?
Vou citar Nina Simone: "É não ter medo". É poder fazer, pensar, agir como bem entendermos, sabendo que os nossos limites são os limites do outro. Aquilo que podemos fazer não pode prejudicar o outro, mas não prejudicando o outro, o que podemos fazer, por nós e para nós, é tudo.

Quotas de música portuguesa na rádio.
Num mundo ideal, não seria necessário, mas neste momento penso que tem de haver alguma segurança de que uma certa parte da música portuguesa é veiculada às pessoas através das rádios. Bem sei que se calhar, para as pessoas mais novas, a música, não chega tanto pelas rádios, mas pelos seus pares. Percebo que há pessoas que preferem estar no Spotify e serem elas a descobrir, mas é uma ínfima percentagem A maior parte das pessoas não quer, não tem tempo, não tem a competência para isso e então ouve as rádios. Mas o ideal é chegarmos a uma altura em que já seja tão natural as rádios passarem e ouvirmos e querermos, que já nem seja preciso.

Estado da cultura.
Da parte de quem cria e tem algo para mostrar, a cultura está sempre pululante, há sempre coisas para mostrar, ideias diferentes, ideias novas, movimentos estéticos, obra a mostrar. Na parte artística e cultural, as coisas estão saudáveis no sentido de que há obra. Deve haver apoio a essa obra, mesmo com as obras que não são viáveis comercialmente, mas não é por isso que não têm o direito de existir.

Uma lição da pandemia.
Não ficou tudo bem.

Agir por emoção ou razão?
Tem de ser as duas: liberdade é liberdade. Aquilo que sentimos primeiro tem um peso, mas temos de pensar se aquilo que sentimos e que queremos fazer é o certo e não vai prejudicar ninguém. Às vezes os nossos instintos animais tomam conta de nós e aí só vemos vermelho e não queremos saber. Aí temos de pensar um bocadinho, mas se o cérebro disser que está de acordo contigo e não vai fazer mal a ninguém, então reaja-se. Portanto, diria as duas.

Uma lição da sua vida.
Tentar exprimir-me. A expressão individual, mas ao serviço de uma expressão coletiva. Ou seja, tentar mostrar um bocadinho de quem sou, porque na arte, como noutros campos, o que interessa mostrar é uma certa singularidade, porque se queremos ser iguais aos outros, como artistas isso não interessa. Temos de ser quem somos, essa busca de nós próprios, mas ao mesmo tempo manter um elo ao outro, porque senão as pessoas olham para nós e somos tão nós que não conseguem encontrar pontes. E obviamente que aquilo que fazemos é com o intuito de que chegue aos outros e que lhes diga alguma coisa.

Remédio para viver melhor?
Ora, se soubesse já o estava a engarrafar e a vender. Costuma-se dizer que a diferença entre remédio e veneno está na dose, portanto, acho que uma boa dose de controlo de ego é recomendável. É bom termos um ego saudável, é bom gostarmos de nós próprios, é bom, mas só nos vermos a nós e não querermos sentir o outro e pôr-nos no lugar do outro não é incrível. Um bom controlo de ego é excelente.

Um desporto?
Faço aquele desporto que se tem de fazer para o corpo ficar saudável, mas esse não adoro. Mas adoro dançar e quando ouço música e posso dançar, esse é o meu desporto favorito.

Igualdade homem-mulher?
Para mim é o que será natural. Metade da população é do sexo masculino, metade da população é do sexo feminino, mais ou menos, 50-50. Para mim é absolutamente natural, porque acredito que qualquer ser humano é igual ao seu semelhante, somos todos iguais na nossa diferença. Portanto, todos temos o mesmo valor e homens e mulheres é tudo igual.

Um podcast.
Diria o do Bruno Nogueira.

Ouça aqui o podcast:

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