Barroca Grande, construída para os mineiros da Panasqueira

Ambiente

Aldeias em luto pela extração do lítio com os olhos nos lixos da Panasqueira

Populações e autarcas contestam o "grande buraco" que será feito na Serra de Argemela para a exploração de minerais, cujo contrato já foi assinado. Criticam, sobretudo, saber da sua existência pela comunicação social, sem mais explicações.

A aldeia de Barco é uma terra pacata, com 473 residentes, muitos idosos e que no verão triplica com o regresso dos emigrantes. Casas de primeiro andar na maioria, com hortas à volta e o rio Zêzere aos pés. Têm na frente a paisagem e vegetação da Serra de Argemela que, desde 2017, é motivo de protestos. Foi quando a população soube que a serra seria das primeiras onde seria extraído lítio, contrato de exploração que foi assinado em outubro.

É a aldeia que fica mais perto do local previsto para instalação de uma mina. Ganhou o nome Barco porque era a única forma de atravessar o rio Zêzere. E esses são os principais problemas para os autarcas, a população e os ambientalistas. A localização da exploração de lítio está próxima de uma zona habitacional e do rio Zêzere. Mas os protestos contra a extração de lítio a céu aberto não se ficam por aqui. O mapa das novas seis áreas prejudicam todo o regadio da Cova da Beira, argumentam os autarcas.

A Serra de Argemela fica nos dois concelhos do Fundão e da Covilhã. Envolve 21 freguesias, cujos presidentes estão contra a exploração, além dos autarcas da Covilhã e do Fundão, a primeira ganha pelo PS e a segunda pelo PSD. As mais atingidas são Barco, Silvares, Lavacolhos, Telhado, Castelo e Freixial.

A Argemela, junto com os projetos mineiros de Boticas e de Montalegre, já tem concessões de exploração e está em fase de avaliação ambiental. Ao contrário do que acontece com as seis áreas para extração de lítio aprovadas este ano através da Avaliação Ambiental Estratégica promovida Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). Saltaram as serras de Arga e Segura, considerando os de Argemela que também deviam ter ficado de fora.

"A Serra de Arga foi retirada, segundo as notícias, porque está em vias de classificação como área protegida. A Segura terá saído por proteção do rio Tejo e por se situar em zonas com alguma densidade populacional. Argemela possui cumulativamente estes três argumentos, está em vias de classificação como Monumento Natural Regional, fica em cima do rio Zêzere e encontra-se rodeada de freguesias", protesta Alfredo Mendes, vice-presidente do Grupo pela Intervenção da Serra da Argemela (GPSA). Um movimento que diz não "ser contra a exploração mineira", apenas "contra que seja feita em qualquer lado".

Falta de comunicação

"O que é inacreditável é haver um contrato de exploração antes do Estudo de Impacte Ambiental (EIA). Este tinha que ser prévio à assinatura", contesta o dirigente associativo. Protesta ainda por os governantes não os terem informado do projeto de exploração para a Serra.

"Desrespeitaram as autoridades locais e a própria população. Ninguém teve a hombridade de chegar aqui e dizer: "Vamos sentar e explicar o que vai acontecer"", sublinha o presidente de Junta de Freguesia de Barco, Vítor Fernandes. Entretanto, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, prometeu fazer sessões de esclarecimento com as populações, ainda sem calendário.

"Traz mais prejuízos do que benefícios", acrescenta Alfredo Mendes, salientando que a exploração do lítio será a céu aberto, o que defende ser mais prejudicial do que a exploração em galeria, como as Minas da Panasqueira, ali bem perto.

É natural de Barco e vive em Carnaxide, Lisboa, mas é na "terra" que carrega baterias. "Vila de grande beleza", não fosse a sua, e , agora, sente que tudo isso é posto em causa. "Está em causa a riqueza histórica e patrimonial da Argemela. Querem fazer um buraco de 45 hectares. O monte que vemos à nossa frente vai desaparecer, vai ser transformado numa pedreira onde não há cultivo. A água do rio Zêzere, que abastece Lisboa, vai ser usada para a exploração, vai desaparecer esta terra bonita. Há quem já esteja a vender as casas e, quem pensava em comprar, já não compra", lamenta.

Alfredo Mendes tornou-se ativista aos 68 anos, para liderar o GPSA, um movimento que nasceu em 2017. "Pela Argemela, pelo Zêzere e pelas suas gentes! ". Reúne os presidentes das juntas de freguesia de Barco, Silvares e Lavacolhos para manifestarem a sua discórdia ao DN. "Além do impacto ambiental, está em causa a saúde, o sossego, a qualidade de vida, esta vila vai deixar de ter sossego com os rebentamentos da rocha diários e as escavações", diz Vítor Fernandes.

Paulo Barbosa é o presidente da Junta de Freguesia de Lavacolhos, onde há uma praia fluvial, baloiços e café. É a Área de Lazer de Lavacolhos, o ex-líbris da aldeia. É um local aprazível, este ano com menos água do que é habitual, sossegado, onde se imagina poder passar uns dias de descanso. "Locais como este é que me fizeram deixar a cidade", elogia.

Subimos ao cume da montanha, que divide os concelhos de Fundão e Covilhã. O Castro do Cabeço da Argemela é o ponto mais alto da divisão e ficará fora da exploração por, entretanto, ter sido classificado de "sítio de interesse municipal". Processo iniciado pelo autarca do Fundão quando uma empresa o contactou e mostrou interesse em ali instalar uma mina , e que a Covilhã acompanhou.

"As máquinas vão entrar por aqui e toda esta área será esburacada, salva-se o sítio do castro, perdem-se as culturas. Esta é uma região rica em agricultura, cereja, vinhos, produção de mel", indica Paulo Barbosa, que questiona: "Tudo isto está contabilizado?" Além de não acreditar nos valores que serão distribuídos às populações onde haja exploração. Alfredo Mendes cita estudos que demonstram que Portugal não é assim tão rico em lítio.

Nestas terras ninguém quer ouvir falar dos royalties que poderão receber com a extração do lítio. Contrapõem com os rendimentos da agricultura local, também com o turismo. E, em relação à criação de empregos, são perentórios: "Aqui não há falta de trabalho, o que há é falta de mão de obra",

Luto contra o lítio

População e autarcas têm levado uma luta intensa, desde o contacto com os partidos e deputados a manifestações e pedidos de reunião com o ministro do Ambiente, Matos Fernandes. Têm tido recetividade às suas pretensões por parte dos dirigentes partidários, o mesmo não acontece com o Governo.

Barco está de luto e as freguesias mais próximas da Serra estão de luto. Têm faixas e fitas pretas contra a exploração de lítio."O povo não quer a exploração, é prejudicial à saúde", protesta Alfredo Serra, 73 anos, ex-motorista que agora ocupa o tempo na horta junto à casa.

Lúcia Alves, 66 anos, costureira, faz companhia à vizinha Maria da Graça Brito, com 99 anos feitos a 28 de fevereiro. "É mau para as pessoas aqui da terra, faz mal à saúde", diz Maria da Graça. Completa a Lúcia.:"A exploração de lítio é mesmo em cima de nós, está à nossa frente, vai ser barulho, poeiras, metais ao ar, vai poluir o nosso rio, as nossas terras. "Pensam que nos vão esmagar? O dinheiro não é tudo".

São poucas as vozes dissonantes desta luta, mas existem. É o caso de José Dias, 59 anos, de Coutada, aldeia vizinha de Barco, manobrador de máquinas. "Sou a favor da exploração do lítio. Trabalhei nas minas de Aljustrel, no túnel do Marão, na barragem da Ribeira de Pena, nunca tive problemas de saúde. Para haver benefícios tem que haver prejuízos. Já houve aqui minas e mataram a fome a muita gente de Barco".

Refere-se à "mina do alemão", que extraía o estanho e o volfrâmio e operou pouco tempo. Deixou de ser rentável em 1971 e manteve-se até 1996 para tratar os minérios de outras minas. Foi transformada no complexo turístico Quinta das Minas da Recheira, que abriu em 2020.

Neomina de Aljustrel

A sociedade que se prepara para explorar a Serra de Argemela é a Neomina, do grupo Almina, proprietários das Minas de Aljustrel (Beja), que ficou com a PANN- Consultores de Geociências, que assinou a 28 de outubro de 2021 "o contrato de concessão de exploração de depósitos minerais metálicos de lítio, estanho e metais associados", após o "prévio contrato de prospeção e pesquisa". Tem um prazo de 20 anos, podendo ser prorrogado. Pretende extrair lítio e estanho.

Está dividido em três fases, a primeira com um prazo de dois anos para a apresentação dos estudos de Impacte Ambiental (EIA) e de Viabilidade Técnico-Económica de Exploração. Após o EIA, há mais dois anos para a elaboração da Declaração de Impacto Ambiental Favorável ou favorável condicionada.

Luís Maia é administrador do grupo que esteve envolvido no desenvolvimento do projeto de exploração. Explica ao DN que, além da realização dos estudos ambientais, planeiam as "sondagens adicionais e outros estudos que visam contribuir para melhorar o conhecimento do depósito mineral", autorização que já foi pedida à DGEG. Explica: "Estas atividades visam incrementar o valor das reservas e recursos de estanho e lítio e o grau de confiabilidade da estimativa. Também se pretende melhorar a estimativa dos impactos do projeto, de maneira a desenvolver medidas de minimização (no caso dos impactes negativos) ou de reforço (no caso dos impactes positivos) durante a elaboração do EIA".

As estimativas da empresa apontam para a extração de 16 600 toneladas de estanho e 23 310 toneladas de lítio", o que poderá aumentar e será confirmado pelas sondagens. "Será feita uma primeira concentração do minério de lítio e estanho na proximidade da exploração mineira", produto final "que será vendido a refinarias".

A fase dois implica que no prazo de sete anos seja iniciada a exploração de acordo com o Plano de Lavra e o EIA, com o licenciamento e a instalação de uma unidade de tratamento e de beneficiação (lavaria). A fase três implica a instalação de uma unidade de processamento (conversor) para a produção de carbono e/ou hidróxido de lítio.

Entre outras obrigações, a Neomina deve localizar a sede num dos municípios da área de concessão, a não ser que tenha sede num outro concelho onde tenha concessões; e deve adotar medidas de integração e recuperação ambiental e paisagística. Os encargos a pagar com a exploração são distribuídos entre o Estado (dois terços), via DGEG, e as câmaras do Fundão e da Covilhã (um terço), na proporção da área abrangida pela exploração.

Luís Maia garante que "as medidas de minimização de impactos serão desenvolvidas durante a elaboração do EIA". No caso dos impactos visuais, "passarão, entre outras, pela recuperação paisagística simultânea com a exploração".

Mina da Panasqueira

A Mina da Panasqueira é várias vezes referidas ao DN como o exemplo do impacto paisagístico e ambiental, embora Alfredo Mendes sublinhe que é uma situação diferente da Argemela. A extração é feita em galerias (túneis) e não a céu aberto, o que diz ser mais prejudicial ao ambiente e à saúde.

A Mina da Panasqueira produz volfrâmio e estanho há 127 anos, numa área que vai do Cabeço do Pião (Fundão) até à Panasqueira, aldeia de São Francisco de Assis e Barroca Grande (Covilhã), esta construída para os operários. Chegou a ter 11 mil trabalhadores, durante a II Guerra Mundial, agora tem 270, indica António Corrêa de Sá, administrador executivo da Beralt, concessionária do Corpo Mineiro da Panasqueira, cujo acionista principal é a canadiana Almonty, que a adquiriu em 2016.

Alfredo Mendes e Joana Campos, presidente da Junta de Freguesia de Silvares, levam-nos ao Cabeço do Pião, da jurisprudência da autarca. Funcionava aí a antiga lavaria (tratamento dos minerais) e agora são montes de escombreiras (principalmente xisto) e barragens de lamas (o que fica da lavagem), com maior dimensão na "barragem dos rejeitados", o que é deitado fora.

"Um teleférico trazia os vagões da mina com o material em bruto e fazia-se a refinação do volfrâmio para vender. Ficaram estes montes [o negro do xisto com a oxidação fica castanho claro) onde não há vegetação, vê-se uma árvore aqui e outra ali", explica a autarca. Critica que todos aqueles resíduos tenham ali sido depositados e sem manutenção. "A única entidade que o faz é a câmara do Fundão e não é de forma eficaz porque envolveria um grande investimento. Faz plantações, até para impedir o deslizamento de terras com a chuva, mas acabam por secar". Acrescenta que há, também, queixas por causa da poluição do rio Zêzere.

António Corrêa garante que toda a água é tratada, numa estação de tratamento que o DN visitou, 500 metros cúbicos por hora. A água é reutilizada na atividade industrial, explica o geólogo Filipe Pinto.

"As coisas mudaram muito em termos ambientais e de exploração tecnológica, quer na extração quer no tratamento, caso contrário não seria viável". Exemplifica com o número de operários necessários na extração de um milhão de toneladas de minério por ano, a mesma quantidade que há 30 anos. Nessa altura, eram precisos 800 homens, agora são 270. Aproveita-se 2 % desse material, que corresponde ao filão, uma pequeníssima parte da rocha que é necessário rebentar.

Trabalham em dois turnos de oito horas no subterrâneo e em três turnos no exterior. As galerias têm quatro níveis de exploração, o maior com 400 metros de profundidade, numa extensão de 1500 km. "Hoje, podem fazer-se explorações, quer em subterrâneo quer a céu aberto, sem danos. Não há problemas de contaminação das águas. As regras são apertadas e as empresas estão muito conscientes das implicações ambientais", assegura António Corrêa.

Acrescenta que "um dos grandes problemas das minas são as águas, que arrastam minerais poluentes em suspenso, o mesmo se passa nas lavarias, mas toda a água é tratada. As próprias escombreiras foram alteradas e modificadas de modo a que a inclinação dos tabiques sejam suficientes para evitar deslizamento. Os resíduos das lamas são impermeabilizados para que não haver escorrências".

À vista de um amador, os tabiques parecem pequenos e há o impacte visual do lixo que resulta da exploração mineira. Filipe Pinto faz uma visita guiada pela mina explicando como é feito o processamento do minério, a lavra, o tratamento das águas, até ao destino final: as escombreiras e a barragem das águas, com muitos metros de altura e de profundidade. Em redor da barragem existe um piezómetro, que monitoriza os caudais da água para ver se há escorrências.

As escombreiras são bem visíveis da aldeia de São Francisco de Assis e da Barroca Grande. O bairro foi construído nos anos 50/60 do século passado para os mineiros, com escola e hospital da empresa. Chegou a ter 800 pessoas, agora vivem lá umas cem famílias.

"Quando nasci já existia a mina, faço 85 anos em março", conta Maria Lima, que emigrou de São Francisco de Assis para Angola quando se casou. Conversa com a vizinha, Maria Coelho, 78 anos. "As minas foram muito importantes, deram dinheiro a muita gente e não havia trabalho, os homens vinham de todo o lado. Mas também trouxeram a poluição, íamos lavar à ribeira e deixámos de o fazer. E os homens morreram com a silicose [doença pulmonar causada pela inalação de partículas do mineral sílica]. Não sei com que idade morreu o meu avô, mas o meu pai foi aos 55", explica a mulher, ex-enfermeira.

"Não há casos de silicose há mais de 15 anos, desde que haja um caudal suficiente de ar não há problema. São inúmeros os ventiladores", explica António Corrêa. Um operário na Panasqueira ganha em média 800 euros limpos mensais, que atingem os mil com os pagamentos adicionais, e o administrador inclui o subsídio de refeição.

O trabalho de mineiro é considerado de desgaste elevado, dois anos numa mina reduz um ano na idade de reforma. Miguel Gavinhos, 44 anos, está na extração do minério a 1200 metros do solo, é chefe de equipa. Trabalha das 08:00 às 16:00, depois vai para o Café Carmo, à entrada da Barroca Grande, propriedade da família. Nasceu no hospital local, agora o Centro Comunitário das Minas da Panasqueira, da Santa Casa da Misericórdia do Fundão. Os amigos de infância emigraram em 1991, quando houve um despedimento coletivo e a mina ficou reduzida aos serviços mínimos e não regressaram. Ele regressou. "Estive na Alemanha, pediram para trabalhar na mina e regressei, gosto do que faço", diz. Apesar de sentir que possa ser perigoso para a saúde. "Há as poeiras, os gases, mais tarde irá afetar a respiração, e vemos os nossos avós agarrados às máquinas de oxigénio. Mas muitos fazem 30 anos de mina e estão bem".

O pós-mina é outra preocupação para as populações confrontadas com a instalação de minas no seu território. António Correia de Sá informa estar tudo preparado para quando a mina fechar, o que espera que "seja o mais tarde possível". Há reserva de 14 milhões de toneladas, mais dez anos de atividade. Mas, sublinha: "Há dez anos tínhamos os mesmos 10 milhões, o que significa que todos os anos há reposição com novas explosões e galerias".

Paulo Fernandes: "A fileira agroalimentar Cova da Beira vale 100 milhões de euros por ano"

O presidente da Câmara Municipal do Fundão critica o Estado por "decidir primeiro e explicar depois". Contesta os 100 mil euros que poderá receber pela exploração do lítio. A cereja e o pêssego valem muito mais.

Quais são os principais problemas da exploração de lítio na Serra da Argemela?
Há duas questões relevantes, uma é a total falta de interligação entre o Ministério do Ambiente e, neste caso, a Direção-Geral de Geologia e Energia, e a informação a dar às comunidades e às autarquias. São assuntos com muitos anos e, desde o início, têm que ser bem comunicados. As minas têm que ser vistas numa perspetiva mais holística em termos dos impactos, não se pode olhar para estas situações numa mera equação de postos de trabalho e de riqueza. Tem um impacto social e ambiental, a médio e a longo prazo.

Quando é que tiveram conhecimento da exploração?
Numa fase muita avançada. Argemela já tem um contrato de exploração, é um contrato de prospeção/exploração desde o início. A prospeção terá sido feita ao longo dos últimos dez anos.

Qual será a quantidade de lítio?
Não sabemos, a empresa deve saber. O que sabemos é que a 28 de outubro foi assinado um contrato entre o Estado e a concessionária, a seguir às autárquicas, quando os municípios estavam na transição.

Sugere que não foi por acaso?
Na altura, ainda dei o benefício da dúvida, agora... Dois dias após as eleições legislativas, saiu o mapa do lítio, tenho muitas dúvidas se são coincidências, o que também não ajuda a ganhar confiança no processo. Em vez do Estado assumir que a questão do lítio é fundamental e explicar as condicionantes, anda sempre atrás do prejuízo. Assume a decisão, às vezes de forma autista, depois vai para as comunidades tentar explicar.

Mas quando teve conhecimento?
Há oito/nove anos, quando uma empresa nos contactou porque estava interessada na prospeção/exploração. Uma das decisões que tomei de imediato foi acelerar o processo de classificação do castro que fica na cumeada da serra. É a fronteira entre o Fundão e a Covilhã, contrariamente ao que costuma ser, o rio a funcionar como fronteira. Data do século XVIII, mas já na altura dizia-se que era uma zona rica em mineral, no tempo romano havia alguma mineração. Disse à empresa que havia linhas vermelhas: o castro e a proximidade ao rio Zêzere. Cinco/seis anos depois, quando apareceu o plano para a exploração de lítio, foi-nos pedido o parecer e que foi desfavorável. Não existia um plano de lavra [desde a extração ao tratamento] e ainda não há; referia os parâmetros do impacto ambiental mas não dizia a que se aplicavam; falava de uma mina a céu aberto numa área muitíssimo grande.

Além do Castro, há mais alguma área classificada na Serra?
Há as classificações associadas ao património natural. O monte de Argemela é um acontecimento geológico e natural, é conhecido pelo monte branco exatamente por causa dos seus minerais. Está conectado com uma paisagem ligada a rituais profanos, era um espaço espiritual e místico. Estamos a estudar a sua classificação como património natural, que é uma forma de criar um segundo elo de proteção para a sua conservação e que arrancou com o Grupo de Preservação da Serra de Argemela.

Reuniram com o ministro cessante do Ambiente, Matos Fernandes, ficaram convencidos que as vossas objeções serão atendidas?
Reunimos por causa do novo mapa do lítio. Fiquei com muitas dúvidas, tanto que no âmbito da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela pensamos recorrer juridicamente contra a decisão do nosso parecer não ser vinculativo. A alteração à lei das minas (maio de 2021)diz que os pareceres são vinculativos, o Governo responde que o processo administrativo da Serra da Argemela foi iniciado antes. Contestamos porque estão a lançar novas projeções.

Quais são as condicionantes à exploração de lítio no concelho?
Em 2019, dissemos quais eram: áreas protegidas, linhas de água, zonas arqueológicas e uma específica e que é o regadio da Cova da Beira. A produção agrícola nesta Cova da Beira vale mais de 100 milhões de euros por ano, o Estado gastou 320 milhões de euros a fazer os canais da rega. As minas de lítio geralmente são a céu aberto e têm uma necessidade brutal de água. Temos uma Identificação Geográfica Conhecida, que é a cereja do Fundão e uma Denominação de Origem, que é o pêssego da Cova da Beira. Têm um valor brutal na nossa região e no país, não podemos arriscar que este tipo de fileiras possam ter vizinhanças tóxicas.

O valor que vão receber pela exploração do lítio não compensa?
O senhor ministro disse-nos qual seria o valor dos royalties, 100 mil euros por ano para o município que tenha a mina. A fileira agroalimentar do regadio vale 100 milhões de euros por ano. Queremos lá saber disso para alguma coisa.

Argemela é uma luta perdida?
Vamos ter que nos pronunciar para o Estudo do Impacte Ambiental (EIA). Tenho quase a certeza que o EIA vai ter parecer favorável com condicionantes e é aí que temos de ser o mais exigentes perante o que são os valores em causa - da comunidade, ambientais, históricos, culturais - de forma a que a mina seja economicamente pouco viável. É muito raro um EIA ser logo negativo, aquela zona foi de exploração mineira, mas é natural que apareça com condições. Temos que estar preparados com estudos, dados, para contrapor.

Vítor Pereira: "Andamos a promover uma região de excelência e deixamos que uma pedreira a destrua?

O autarca da Covilhã (eleito pelo PS) acompanha os presidentes dos outros 14 municípios contra a exploração do lítio. Não "junto a populações e no coração do regadio". Contesta "a política do facto consumado".

O que é que a autarquia vai fazer em relação à exploração de lítio na Serra da Argemela?
Estamos na expectativa que o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) inviabilize a exploração, uma vez que envolve uma zona praticamente em cima de um curso de água, que é o rio Zêzere. E o anfiteatro que é a povoação do Barco vai ficar virado para uma exploração a céu aberto, que é na prática uma pedreira. A preocupação das populações , que acompanho, são as perturbações a todos níveis, além da intrusão ambiental. Há o impacte visual, a emissão de ruído, a remoção do que é extraído, sempre com o problema da contaminação quer dos lençóis freáticos quer do rio Zêzere. Estamos a falar da exploração e não do processamento (lavaria), não dizem que haverá aqui uma central de processamento. Ouvi dizer que existirá uma central de processamento do lítio de todas as explorações, não tenho confirmação oficial.

Foram ouvidos neste processo?
Fomos consultados e aí entramos noutra vertente do problema: qual é o valor do parecer, é vinculativo ou meramente consultivo? Obviamente que achamos que é vinculativo. A Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela reuniu recentemente e os 15 presidentes dos municípios que a compõem repudiaram com veemência a exploração do lítio no nosso território. Há um problema de défice de comunicação do Ministério do Ambiente, é a chamada política do facto consumado. Não somos fundamentalistas contra a exploração do lítio, somos é contra que seja em qualquer sítio e a qualquer preço.

Em que sítios poderá haver explorações?
Sítios afastados de lençóis freáticos e de linhas de água e que não causem forte impacto ambiental. Andamos a promover o nosso território como de excelência, para ser visitado e para a prática o desporto, de saúde, lazer, bem-estar, e depois deixamos que uma pedreira destrua este património?

Quais são os problemas das áreas agora autorizadas, que de oito passaram a seis?
Na região, essas explorações coincidem com o coração do regadio da Cova da Beira, seria uma irracionalidade permitir aí uma exploração. Aprendi na primária que a Cova da Beira era conhecida pela sua fertilidade, riqueza de solos, abundância de água, É impensável haver uma pedreira no meio de um pomar, de um cerejal, ou nas proximidades do rio.

Quais são as linhas vermelhas?
Junto a povoações e no coração do regadio, nem pensar.

Como respondem à promessa de uma compensação para os municípios onde há explorações?
Os governantes e a empresa dizem que sim, sinceramente, sou um homem de boa fé, mas temos um exemplo no nosso concelho que são as Minas da Panasqueira. É verdade que à época não havia estas preocupações ambientais, estes pressupostos, ninguém exigia nada, mas hoje temos um passivo ambiental que queremos resolver. Num conjugação de esforços com o município do Fundão e de Pampilhosa da Serra, com o fundo ambiental e as empresas mineiras, estamos a tentar mitigar os efeitos desta exploração, mas basta olhar para as escombreiras [onde se acumulam os fragmentos da rocha, do minério] para ver esse passivo. O impacto visual no meio ambiente, as escorrências, toda a parafernália de resíduos espalhada por aquelas zonas e, em bom rigor, ali nunca se processou nada, só se extrai; a riqueza, o valor acrescentado, não ficamos com ele. Falando em contrapartidas, embora o assunto não seja despiciente, não estamos preocupados com isso, estamos preocupados com o impacto na saúde e com as atividades que temos no território, que são seguras, tradicionais, limpas e atrativas.

Acreditam que o estudo de impacto ambiental seja negativo?
Desejo que seja negativo, a última coisa que queria é que esta bela povoação [Barco] e as outras que estão a montante e a jusante tenham prejuízo. As pessoas estão preocupadas, alarmadas.

É do PS, o que significa que esta não é uma questão partidária.
A unanimidade do concelho intermunicipal espelha bem essa realidade. Isso não me tem inibido nem aos autarcas socialistas de manifestar estranheza e indignação pelo facto de não haver a pré-informação. Invocam recorrentemente que os autarcas estão na linha da frente, no terreno e, quando se chega a estas horas, não somos vistos nem achados. Feito o protesto, o senhor ministro fez questão de nos receber.

O que vos disse?
Que aguardássemos serenamente o percurso das pesquisas, da prospeção, que não é intrusiva. Estamos atentos, vigilantes, vamos acompanhar com toda a atenção este assunto. Numa reunião com responsáveis da empresa afirmaram que jamais levarão a efeito uma exploração aqui, ou em qualquer outro sítio, contra a vontade dos autarcas e das populações. Mas isso é uma declaração verbal, vamos ver. Estamos expectantes para que o desfecho seja favorável às nossas pretensões e em defesa do meio ambiente. Uma das nossas preocupações é no pós-mina, os recursos são finitos.

ceuneves@dn.pt

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