Pelo menos 100 pessoas, sobretudo jovens perderam a vida em afogamentos em incidentes balneares desde 2019, de acordo com dados da Autoridade Marítima Nacional (AMN) obtidos pelo DN. Eram 97 até ao final de junho, sendo somados mais três mortes ocorridas durante a última onda de calor que atingiu o país - contando o país este ano já sete mortes (quatro até 30 de junho). Nestes três casos mais recentes, dois tinham apenas 16 anos e a outra vítima tinha 20 anos. Todos os incidentes aconteceram em rios. Segundo os dados da AMN, em 2025 foram registadas 19 vítimas fatais, um aumento face às cinco vítimas do ano anterior. É preciso recuar até ao ano de 2019 para ter um valor tão elevado de mortes. A série revela uma oscilação anual, entre um mínimo de cinco vítimas em 2024 e um máximo de 19 em 2019 e 2025, ano em que as mortes aumentaram 280% face ao anterior.Mas as estatísticas revelam que o verão do ano passado foi mais mortal, porque teve 13 casos no terceiro trimestre,diante de nove casos em 2019. A análise histórica mostra ainda que cerca de 60% das mortes ocorrem entre julho e setembro, o trimestre mais crítico da época balnear, enquanto os primeiros meses do ano registam um número menor de vítimas.Em quatro dos últimos cinco anos (2021, 2022, 2023 e 2025) registaram-se dez ou mais mortes, e três deles tiveram 14 ou mais. A faixa etária dos jovens é a que regista mais mortes em Portugal, de acordo com um balanço recente da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI). As mesmas entidades anunciaram que, nos últimos cinco anos, 60 crianças e jovens perderam a vida por afogamento. Estes dados incluem as mortes em piscinas, que não entram na estatística da Autoridade Marítima Nacional. Entre 2020 a 2024, aconteceram 28 mortes e 18 internamentos de jovens entre os 15 e os 19 anos.Neste período houve uma redução de casos em poços e tanques, mas observa-se um crescimento contínuo de acidentes em planos de água naturais, como rios, ribeiras, lagoas e praias. Estes locais afetam predominantemente os jovens dos 10 aos 14 anos e dos 15 aos 19 anos.Independente do local onde a morte acontece e do número, Sandra Duarte, da APSI, é taxativa. “Nós temos essa tendência de análise, mas uma morte já era muito, um jovem, uma criança que perdeu a vida num acidente que era perfeitamente evitável e a verdade é que de um ano para o outro está sempre a aumentar”, começa por dizer ao DN. A diretora técnica da associação lembra que, além das mortes, há muitos casos de acidentes graves, em que as vítimas podem ficar, por exemplo, sem movimentos das pernas e braços. “São danos muito graves que acompanham a pessoa para o resto da vida”, destaca. Sandra Duarte diz ao DN que Portugal não possui uma estratégia nacional coordenada nos moldes recomendados pelas Nações Unidas na matéria. E falha também na estatística, que ainda está dispersa. “Este ponto está bem pendente há um bom tempo, e passa pela criação de um observatório, de um sistema que permita a integração de várias fontes de dados sobre a forma como os afogamentos”, sustenta. A falta destas informações, reforça a diretora, prejudica o desenho e implementação de medidas de prevenção.Ainda no âmbito de prevenir acidentes, a APSI defende que a escola ensine as “competências aquáticas”, para que esse conhecimento seja aprendido desde cedo. No caso das piscinas - onde a maior parte das mortes são de bebés e crianças pequenas até aos quatro anos - a associação reivindica a criação de um enquadramento legal. “A única legislação que existe para as piscinas são aquelas que estão enquadradas em parques de diversão aquática, portanto para todas as outras há um vazio legal”, detalha.A representante da associação pontua que tem tentado o diálogo com autoridades políticas para alterações na lei, mas sem efeito prático até agora. “A verdade é que esses esforços já são feitos quase desde o início da campanha da APSI, a primeira edição é de 2003, e ainda não tivemos grande reflexo relativamente às estratégias. Houve aqui algumas tentativas, mas depois também fruto de todas essas processos de ciclos governativos na avançam”, argumenta.Juntamente com a GNR, a APSI lançou uma campanha de prevenção, na qual mantém boa expectativa. “É importante que continuemos a fazer isso todos os anos, há novas famílias, famílias que nunca tinham tido crianças pequenas, novos pais, novos avós, novos tios, e que muitas vezes quando não tinham crianças nunca tinham pensado neste assunto e não estavam conscientes do risco. O afogamento é um acontecimento dramático e traumático e pode ser evitado”, finaliza.amanda.lima@dn.pt.60 crianças e jovens morreram afogadas nos últimos cinco anos.Onda de calor. Nadadores salvadores alertam para aumento de risco de afogamento