O Aeródromo de Bragança vai acolher os especialistas e curiosos que queiram observar esta quarta-feira, dia 12, o eclipse solar.
O Aeródromo de Bragança vai acolher os especialistas e curiosos que queiram observar esta quarta-feira, dia 12, o eclipse solar. FOTO: Rui Ferreira / Global Imagens

Aeródromo de Bragança: onde o Sol se vai apagar e haverá chuva de estrelas

Comissário Nacional detalha por que o Parque de Montesinho já não é o local de observação do fenómeno e revela que Portugal irá testemunhar uma inédita trilogia ibérica de fenómenos astronómicos.
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A observação central do eclipse solar de 12 de agosto foi transferida do Parque Natural de Montesinho para o Aeródromo de Bragança devido aos incêndios ativos na região. No novo local, o evento estende-se deste esta madrugada até à noite, ainda com a observação da chuva de meteoros das Perseidas e animação festiva, adiantou ao DN Pedro Mota Machado, Comissário Nacional para o Eclipse 2026.

Os fogos que grassaram no interior do Parque de Montesinho e em concelhos vizinhos geraram preocupação junto da Proteção Civil e motivaram a intervenção dos seus elementos, que em conjunto com a GNR, estarão no terreno a patrulhar o perímetro para travar o acesso de curiosos ao local inicialmente agendado.

No aeródromo transmontano, o eclipse atingirá uma cobertura de 99,89% do disco solar. E, embora seja um valor impressionante, o astrofísico esclarece que esta margem impede a escuridão total e inviabiliza a observação direta da coroa solar. “Mesmo no extremo, no paroxismo do eclipse, não fica de noite, fica uma luz desmaiada, uma luz azul prateada, fica mais frio e vai-se sentir o vento que se levanta durante o eclipse, que já é denominado o vento do eclipse”, descreve Pedro Mota Machado.

Pedro Mota Machado, Comissário Nacional para o Eclipse 2026.
Pedro Mota Machado, Comissário Nacional para o Eclipse 2026. FOTO: eclipse2026.pt

Assim, a tentativa de recolher dados para desvendar o grande enigma da física solar – o contraste térmico entre a fotosfera (a 5500°C) e a coroa solar (que atinge entre um a dois milhões de graus Celsius) – levará a maioria dos investigadores portugueses para fora do país. “Há colegas astrofísicos que, para fazerem a observação, não ficam em Portugal, vão ver a Espanha, onde a centralidade e o tempo do eclipse total dura muito mais tempo, mais de três minutos”, frisa o investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Em solo nacional, Pedro Mota Machado assume uma missão puramente cívica de supervisão e diálogo com o público: “Não vou fazer uma observação do eclipse para mim, em termos científicos, vou estar ao serviço da população, o que acho também que é um dever do cientista.”

O Comissário deixa, por isso, um aviso premente sobre a segurança ocular durante o fenómeno – que decorrerá entre as 18h30 e as 20h30 em Portugal Continental –, recomendando a utilização de óculos certificados com norma ISO ou CE. A par dos 300.000 exemplares gratuitos disponibilizados pela Óptica Zeiss, existem modelos à venda em farmácias por 2€ a 3€ e em grandes superfícies. O especialista lembra ainda que não é necessário um par por pessoa: numa observação de duas horas, basta fazer rotações no grupo de 20 a 30 segundos com os óculos postos.

A obscuridade pelo país e a experiência sensorial em Bragança

Em todo o território nacional, o fenómeno manifestar-se-á como um eclipse parcial muito acentuado. No Algarve, a cobertura da área solar atingirá 92%, subindo para 95% em Lisboa e oscilando entre os 97% e os 98% no Porto. Bragança atingirá o pico nacional com 99,89%.

Para quem pretenda assistir noutras zonas do país, o conselho prático é simples: escolher um local com o horizonte desimpedido a oeste. E o Comissário esclarece também que a iluminação pública ou a poluição luminosa não afetam a observação, e que o eclipse pode ser apreciado em qualquer sítio desimpedido: "Pode ver o eclipse na praia com os pezinhos na água? Pode. Pode e vai ver. E vai ver um excelente eclipse que vai deixar recordações inesquecíveis."

Uma colina elevada, com vista desimpedida para Oeste, com um belo piquenique e bebidas frescas, sugestão do DN, também foi um programa do agrado do Comissário Nacional para o Eclipse 2026.

A raridade do fenómeno e o desafio tecnológico

Os eclipses totais em solo português são acontecimentos extraordinariamente raros devido à reduzida dimensão da sombra projetada pela Lua na Terra (cerca de 200km de diâmetro). "É por essa razão que o último eclipse total do Sol que ocorreu em território nacional foi em 1912, há mais de 100 anos, e que o próximo vai ser daqui a mais de um século, em 2144", contextualiza Pedro Mota Machado.

Devido a essa limitação geográfica e temporal, a ciência moderna recorre a tecnologia espacial de ponta para simular estes eventos. A Agência Espacial Europeia (ESA) desenvolveu a Missão Proba-3, composta por duas sondas em voo de precisão sincronizado: uma munida de detetores e outra com um disco ocultor. Ao alinharem-se no espaço, geram "eclipses totais artificiais" de forma contínua para permitir o estudo prolongado da coroa solar sem depender dos escassos segundos de um eclipse terrestre.

Só é possível observar a cromosfera e a coroa solar, para estudo, durante um eclipse solar total.
Só é possível observar a cromosfera e a coroa solar, para estudo, durante um eclipse solar total. FOTO: Canva

É por isso que, quem não pode 'viajar' até ao espaço – isto é, aceder facilmente às observações da Missão Proba-3, cujo nome resulta do acrónimo de PRoject for On-Board Autonomy (Projeto para Autonomia de Bordo, em português) –, viajou até Espanha, como contou o investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, em busca de respostas sobre a coroa solar.

Esta questão fundamental da física solar centra-se no contraste térmico incompreendido entre a fotosfera e a coroa do Sol, explica o cientista. Enquanto a superfície solar visível no dia a dia se encontra a cerca de 5500°C, a camada exterior que a envolve – a cromosfera e a coroa solar – atinge temperaturas escaldantes situadas entre um e dois milhões de graus Celsius, precisa.

"E sobre esse assunto nós sabemos exatamente o mesmo, que é: nada", adverte perentoriamente Pedro Mota Machado. "É uma grande pergunta neste momento que não tem resposta na ciência", explica o astrofísico, sublinhando que a energia da coroa solar é habitualmente ofuscada pelo brilho intenso do disco solar e só se torna diretamente percetível durante a fase de totalidade de um eclipse, quando a luz da fotosfera é totalmente bloqueada.

Noite de festa e alinhamento no céu

Além do eclipse ao final da tarde, esta quarta-feira, 12 de agosto, será marcada por outros motivos de atração astronómica. Durante a madrugada, cerca de uma hora antes do nascer do Sol, ocorrerá um alinhamento planetário visível a olho nu com Mercúrio, Vénus, Júpiter e Saturno (estando Urano e Neptuno observáveis via telescópio). Este será um fenómeno aberto apenas aos cientistas, na pista de Bragança.

Mas à noite, mesmo depois do eclipse, o programa de acolhimento no Aeródromo de Bragança prosseguirá com a observação da chuva de meteoros das Perseidas, complementada por animação cultural, música e gastronomia local, criando um ambiente festivo e inesquecível para os visitantes, sublinha o comissário.

Uma trilogia ibérica inédita: "Guardem os óculos!"

Este eclipse marca o início de uma sequência excecional de eventos astronómicos na Península Ibérica nos próximos três anos. "Nós temos aqui um triunvirato de eclipses que vão bafejar de sorte a Península Ibérica nestes três anos, portanto, eu digo a toda a gente: guardem os óculos! Porque vão ser úteis no próximo ano e principalmente daqui a dois anos", enfatiza Pedro Mota Machado.

O calendário astronómico ibérico prosseguirá a 2 de agosto de 2027, com um eclipse que será total no sul de Espanha e norte de África – apresentando uma duração de totalidade excecional de quase 6 minutos –, sendo visível em Portugal como parcial, com maior incidência no Algarve. Já em janeiro de 2028, ocorrerá um eclipse anular do Sol, no qual a Lua, por estar num ponto mais distante da sua órbita, não cobrirá a totalidade do disco solar, deixando visível um radiante "anel de fogo", com visibilidade e profundidade excecionais na região do Alentejo.

A esperança do Comissário Nacional é que esta vaga de fenómenos seja um catalisador de literacia científica para os mais jovens. "O céu quando nasce é para todos, mas também quando se eclipsa é para todos", conclui Pedro Mota Machado.

Curiosidades

Plataforma oficial

Para centralizar toda a informação, acompanhar a agenda nacional e seguir o relógio em contagem decrescente para o momento do alinhamento, está disponível a plataforma oficial eclipse2026.pt. Aqui ficam destacados cinco pontos relevantes reunidos no portal:

Simulador local

O site integra uma ferramenta onde os cidadãos podem selecionar o seu distrito e consultar os minutos exatos de início, pico e fim do eclipse na sua zona.

Dados Insulares

Nas Regiões Autónomas, o eclipse atinge 78% nos Açores e 77% na Madeira, arrancando a fase parcial cerca de uma hora mais cedo no fuso horário açoriano.

Emissão Global

Para quem estiver em locais sem visibilidade a Oeste, a plataforma assegura a transmissão em direto via streaming, permitindo acompanhar a fase máxima em qualquer ecrã.

Rede Nacional

O portal centraliza mais de 400 ações educativas e de observação dinamizadas ao longo do ano por escolas, municípios e centros Ciência Viva em todos os distritos do país.

Caixa Pin-Hole

Para observação indireta sem olhar para o Sol, a plataforma ensina a construir câmaras escuras artesanais (caixas pin-hole), recorrendo ao princípio ótico de Alhazen.

Marco Festivo

O programa de Bragança integra o Festival Geração Ciência, assinalando os 30 anos da rede Ciência Viva (1996-2026) com iniciativas que ligam a astronomia à cultura científica.

Diário de Notícias
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