A relíquia desenhada pela freira que foi salva do terramoto

Biblioteca Nacional expõe verdadeiras relíquias da cultura religiosa

É uma autêntica filigrana dançarina; junto da letra capital, a freira dominicana que a desenhou colocou uma pequena bailarina, cortesã. Todo o antifonário (livro para o canto litúrgico) é assim, iluminado com plantas e animais, por vezes figuras humanas. Ornamentado pelas freiras do convento da Anunciada na primeira metade do século XVI para ocasiões festivas, o manuscrito é um dos dois antifonários de cantochão que, a pretexto dos 800 anos da fundação da Ordem dos Pregadores, ou dominicanos, estará exposto na Biblioteca Nacional, em Lisboa, a par de outras obras importantes, pela raridade, valor artístico ou relevância cultural.

A mostra bibliográfica acompanha as terceiras jornadas de história e atualidade sobre os dominicanos em Portugal. Decorrendo no próximo fim de semana (na sexta e no sábado, 11 e 12), na Universidade Católica, em Lisboa, as jornadas comemoram os oito séculos da criação da ordem, que neste ano se assinalam. A mostra bibliográfica, na Biblioteca Nacional entre os dias 11 e 19, pretende evidenciar o papel dos dominicanos em áreas como a devoção popular e a catequese, mas também na história e cultura, teologia, música ou literatura.

Fernanda Guedes de Campos, comissária da exposição, destaca os dois livros de coro manuscritos, ambos produzidos e ornamentados pelas freiras dominicanas do convento da Anunciada. Situado um pouco acima da Igreja de São Domingos, o convento ficou em ruínas com o terramoto de 1755 e só o discernimento das freiras que sobreviveram permitiu salvar os dois códices. Nem sempre as iluminuras ficam sujeitas às margens do texto, observa a comissária, o que lhe confere uma grande beleza e mostra a "grande imaginação e liberdade" das freiras na conceção e ornamentação do manuscrito.
A exposição inclui ainda textos de espiritualidade, teologia, sermões e catequese, temas dominantes nas três dezenas de livros que ali ficarão expostos.

Joias da cultura ocidental

Não faltam obras maiores da cultura ocidental - um dos volumes da Suma Teológica, de São Tomás de Aquino, por exemplo -, a par de textos de referência da cultura portuguesa, como alguns livros de frei Luís de Granada ou frei Bartolomeu dos Mártires (que pode ser proclamado santo, em breve), uma Vida de Santa Joana, de frei Luís de Sousa, ou a Legenda Áurea, coletânea de vidas de santos. Livros que, ao longo de séculos, tiveram muitas edições em muitos países e ajudaram a formar a consciência católica dos últimos séculos.

Fernanda Campos recorda uma das histórias contadas por Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga no século XVI e um dos principais intervenientes no Concílio de Trento. Ao chegar a uma paróquia, o bispo ouviu gritar "viva a Santíssima Trindade, irmã de Nossa Senhora". Mais uma confirmação da falta de cultura católica, num tempo em que, em plena Reforma impulsionada por Lutero (sobre cujo início se assinalaram os 500 anos, na segunda-feira passada), o protestantismo avançava pelo continente europeu.

Esse foi um dos episódios na origem do Catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais, manual em que Bartolomeu dos Mártires procurava sintetizar a doutrina católica da época em linguagem acessível.
As jornadas sobre os 800 anos dos dominicanos, organizadas pelo Centro de Estudos de História Religiosa, da Universidade Católica, e o Instituto São Tomás de Aquino, contam com a participação de vários investigadores portugueses e estrangeiros, entre os quais Giuseppe Marcocci, coautor, com José Pedro Paiva, da História da Inquisição Portuguesa 1536-1821.

Jornalista do religionline.blogspot.pt

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