À procura de um lugar ao sol, Lisboa prepara reabertura das esplanadas

Ao fim de 79 dias de confinamento obrigatório, o país prepara-se para dar mais um passo para a reabertura da economia. Na capital, pastelarias e restaurantes fazem contas aos funcionários de que vão precisar e esperam por dias melhores.

Mais de um ano após o início da pandemia, o setor da restauração está hoje mais magro e anémico. São efeitos secundários provocados por dois confinamentos nacionais e por sucessivas medidas restritivas para assegurar a saúde pública, mas que colocam empresários e trabalhadores em risco. Apesar das dificuldades, a reabertura das esplanadas amanhã é vista como um sinal de esperança para um progressivo regresso a um "novo normal". Em Lisboa, pastelarias e restaurantes estão por estes dias a implementar procedimentos de segurança e higiene para dar início à recuperação na segunda fase do desconfinamento.

A confirmação chegou na passada quinta-feira pela voz de António Costa, que, no final da reunião do Conselho de Ministros, fez questão de sublinhar que "não pode haver grupos com mais de quatro pessoas" e que "todas as cautelas devem ser mantidas" para que tudo corra como previsto. "Quando permanecermos no café à conversa, mesmo ao ar livre, devemos manter a máscara para evitar os riscos de transmissão", alertou o primeiro-ministro. Paulo Gonçalves, gerente da icónica pastelaria Versailles, explica ao DN que tudo está a ser preparado com "antecedência" e que serão aplicadas as "regras de higiene que já existiam, como limpar as mesas e cadeiras sempre que um cliente sai".

No espaço da Avenida da República, a zona da esplanada foi crescendo à medida que as restrições foram sendo apertadas pelo Governo, tendo agora cerca de 40 lugares onde serão servidas "refeições, serviço de pequeno-almoço e lanche". Paulo Gonçalves lamenta, contudo, que as regras não tenham sido anunciadas mais cedo, nomeadamente no que respeita à lotação máxima possível. "Dificulta o nosso trabalho porque não sabemos com quantos funcionários vamos reabrir. Todos os que serviam às mesas estão em layoff", diz. Capacidade de adaptação é, em período pandémico, uma qualidade fundamental que os empresários da restauração foram obrigados a desenvolver desde março de 2020. "Temos de nos ir adaptando", afirma.

"O calendário escolhido pelo Governo penaliza de forma grave os que mais sofrem com esta crise, os restaurantes", afirma Daniel Serra, presidente da PRO.VAR

O grupo que detém um dos mais antigos estabelecimentos lisboetas irá manter cerca de 15 trabalhadores em casa, pelo menos até à reabertura total no setor prevista para a última fase do desconfinamento, a 3 de maio. "Vamos chamando as pessoas aos poucos", esclarece o gerente. Em pleno coração da cidade, a esplanada em que Fernando Pessoa tem lugar cativo, n"A Brasileira, os preparativos já começaram com vista a um regresso à atividade interrompida desde o início do ano. "Encerrámos portas [durante o confinamento], pois não acreditamos que a modalidade de entregas, tal como existe hoje, se coadune com uma marca como a nossa", conta Sónia Felgueiras. A responsável de marketing acredita que naquela loja histórica a experiência deve ser vivida "in loco e não à distância", razão pela qual voltam a receber clientes já na segunda-feira. À semelhança do que aconteceu em maio, "os procedimentos serão os mesmos" para assegurar a segurança de clientes e colaboradores. Daniel Serra, presidente da associação setorial PRO.VAR, lembra que com "um ano de pandemia decorrido, todos conhecem, estão conscientes e preparados para implementar as regras necessárias", mostrando-se mais preocupado com "comportamentos errantes fora destes locais" que podem significar novos encerramentos se não forem impedidos.

Na zona ocidental de Lisboa, com vista privilegiada sobre o rio Tejo e o Padrão dos Descobrimentos, o restaurante de gastronomia de fusão italiana e japonesa, EsteOeste, aproveitou a oportunidade para renovar o espaço exterior. "Estamos a realizar algumas melhorias no espaço, com a colocação de novos candeeiros, aquecedores e uma cobertura por cima da esplanada", afirma, com entusiamo, o sócio Gonçalo Salgado. No local em que, nas estações de primavera e verão, eram organizados concertos musicais antes da pandemia serão servidos almoços, mas também "alguns dos nossos pratos icónicos durante a tarde e ao final do dia". A intenção é também retomar, ao fim de semana, o serviço de brunch "que tanto sucesso teve nos últimos meses do ano passado", diz.

Tempo de recuperar

A luz ao fundo do túnel está cada vez mais perto, mas as cicatrizes deixadas pelos obstáculos do último ano estão à vista. Responsável pela gestão do restaurante Chapitô à Mesa, na encosta do Castelo de São Jorge, Tiago Dominguez conta ao DN que a reabertura da esplanada esteve em cima da mesa, mas que não irá acontecer por uma questão de precaução. "Parte da esplanada é utilizada pela cantina da escola do Chapitô", diz, detalhando que pretende "abrir o restaurante de forma racional e faseada, acompanhando a procura do mercado, equilibrando os custos e a receita". A dura realidade trazida pela covid-19 forçou uma redução abrupta no número de trabalhadores, de cerca de 60 para 33. "Tivemos que baixar custos em consequência da baixa receita do ano passado, de forma a diminuir o prejuízo", lamenta.

"Aproveitámos este tempo para reorganizar a casa, repensando e melhorando os processos e mecanismos de trabalho", diz o responsável pelo Chapitô à Mesa.

Situação semelhante, embora em menor quantidade, aconteceu à gestão do EsteOeste e da Versailles, que decidiram não renovar alguns dos contratos terminados durante os últimos meses. "Os apoios demoraram um pouco a chegar, mas da nossa parte conseguimos tudo aquilo que pedimos", atesta Paulo Gonçalves. Gonçalo Salgado critica o atraso no processo de ajuda à restauração, que diz ter "incongruências, implementação difícil e burocrática". O sócio do restaurante pede "simplificação e um reforço de apoio para 2021" dadas as perspetivas ainda negativas para um futuro próximo. "A fatura deste último ano é brutal e muito difícil de suportar", diz.

No Chapitô à Mesa, que integra a escola artística, Tiago Dominguez assume ter sido necessário "renegociar com os diferentes parceiros de negócio, como as rendas com o senhorio ou prazos e planos de pagamento com fornecedores", de forma a assegurar a sustentabilidade do espaço. O presidente da PRO.VAR defende que "os apoios entregues são claramente insuficientes para a maioria das empresas", que, diz, estiveram encerradas seis meses no último ano.

Desconfinamento à vista

Depois da retoma das vendas ao postigo e de algum alívio nas restrições impostas, a reabertura das esplanadas é vista pelos empresários como um passo na direção certa, embora preferissem uma retoma mais rápida. "O calendário escolhido pelo Governo penaliza de forma grave os que mais sofrem com esta crise, os restaurantes, que na sua maioria não vão abrir antes do dia 3 de maio", denuncia Daniel Serra. Em causa estão os horários que a associação considera "castradores" e incompatíveis com as necessidades dos clientes. "Muitos empresários encontram-se desesperados", garante.

O gerente da histórica Versailles compreende a importância de controlar a pandemia, embora admita que gostasse que a reabertura tivesse "começado mais cedo". Por outro lado, mostra-se preocupado com a obrigatoriedade anunciada pelo Governo das empresas optarem pelo teletrabalho até ao final do ano, porque "se as pessoas não circulam também não consomem". Já Gonçalo Salgado aponta a testagem, o rastreamento e isolamento de casos positivos como algo "vital" para evitar novos períodos de confinamento, lamentando que "esse trabalho não tenha sido desenvolvido de forma tão eficaz como seria desejável".

Agora é tempo de planear o regresso e esperar que o número de casos de covid por 100 mil habitantes permaneça na zona verde, mas também que a meteorologia contribua para uma maior procura dos consumidores pelos espaços exteriores e que as reservas comecem a chegar. A conquista de um lugar ao sol será, acreditam, fundamental para inverter a contração económica e voltar a fazer crescer os negócios.

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