"A praia é uma maravilha, mas fica perigosa se ligam as turbinas de barragem"

Cinquenta e quatro pessoas morreram por afogamento em Portugal este ano, 23 das quais no mar e 15 em rios. Ontem o caso mais recente: um jovem de 24 anos morreu afogado numa praia fluvial no rio Cávado, em Braga

Portugal registou 54 mortes por afogamento desde o dia 1 de janeiro, 23 das quais no mar. As restantes ocorreram em rios (15), poços (7), tanques (3), piscinas (3) e numa marina (1). Ontem ocorreu a morte mais recente, em Braga, na fluvial do Adaúfe, onde um jovem estudante guineense, de 24 anos, morreu afogado. Os dados são do Observatório do Afogamento e foram cedidos aos DN pela Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores (Fepons), após o desaparecimento de duas pessoas, na praia de Espinho, e da morte por afogamento de dois irmãos, no rio Vouga, em Águeda, há duas semanas. Estas ocorreram numa zona que não está classificada como praia fluvial e que não tem nadador-salvador. "Há milhares de zonas no país onde as pessoas tomam banho, mas onde não existe vigilância. São as mais perigosas", alerta Alexandre Tadeia, presidente da Fepons.

Além de não terem nadadores-salvadores, estes locais estão associados a outro tipo de perigos: "A água doce tem menos flutuabilidade do que a salgada. Se for no rio, há corrente. Se for numa barragem, a água é muito escura. E há tendência para desvalorizar o perigo nestas zonas, pelo que as pessoas metem-se mais facilmente em situações de risco". Segundo Alexandre Tadeia, "a consequência final costuma ser muito grave".

Para o dirigente, há duas formas de tentar reduzir o número de mortes nas zonas que não são consideradas praias fluviais, mas que costumam ser procuradas por populares. "Deve ser feita uma análise de risco pelas autoridades locais, para verificar que, se uma zona tem banhos com frequência, não é por não cumprir os critérios da qualidade da água, que não vai ter vigilância", sugere. Por outro lado, "é preciso educar para a segurança aquática".

De acordo com Coelho Dias, porta-voz da Autoridade Marítima Nacional, no ano passado morreram quatro pessoas em praias fluviais de jurisdição marítima: "uma em praia vigiada (praia de Crestuma no Rio Douro) e três em praias não vigiadas (Oceanário de Lisboa, Cantareira (Rio Douro) e rio Arade)". No total, "há 80 unidades balneares vigiadas e 45 não vigiadas" no país.

Ao DN, a Agência Portuguesa do Ambiente diz que "foram desenvolvidos editais e avisos que são colocados nas praias interiores que alertam para os perigos e que felicitam quem escolhe praias vigiadas e com águas identificadas para a prática de banhos". Desde 2004, que "durante o mês de agosto passam nas rádios locais e uma nacional três spots de alerta para os perigos nas águas interiores".

E a barragem mesmo ali

Pedras, paus, vegetação bravia, entulho. E pouca ou nenhuma areia. A "praia" de Esposade está longe de ter o aspeto de uma aprazível zona balnear fluvial. No entanto, a 25 quilómetros do Porto, junto à margem do Douro em Gondomar, a uns 150 metros a jusante da barragem de Crestuma, há quem vá a banhos, apesar da placa de proibição. O perigo de mergulhar numa zona de risco, não só pela falta de vigilância, como pelas inesperadas correntes provocadas pelas turbinas da hídrica, parece não causar preocupações de maior. Este é o caso de Alice Vieira, que prefere o recato deste local quase deserto ao bulício da praia fluvial de Zebreiros, por exemplo, a cerca de cinco quilómetros, que desde 2015 se tornou numa zona balnear de excelência com um areal generoso, vigilância e serviços de apoio.

"Moro do outro lado do rio. Venho a esta praia porque é mais perto de casa; pego no carro e tenho de fazer apenas quatro quilómetros até aqui. Como esta praia não é vigiada temos de ter cuidado quando vamos à água. Não nos podemos afastar muito da margem e quando está a vazar a corrente do rio puxa-nos para a zona da barragem. Mas as pessoas conhecem o local e têm consciência de até onde podem ir quando vão a banhos no rio", afirma esta moradora de Lever, no interior do concelho de Vila Nova de Gaia.

Não muito longe de Alice, que apanha banhos de sol junto à água, a família Pereira aproveita o feriado para almoçar: um piquenique na sombra das árvores, a que se seguirá uma tarde de praia.

Abílio teve de resgatar dois irmãos

Abílio Pereira vem com a mulher Deolinda, a filha Sónia Pereira, o genro Jorge Pinto e netos para a zona fluvial de Esposade, apesar de reconhecer os perigos desta área de lazer que é a da sua preferência desde há longos anos. Há cerca de uma dúzia de anos, neste preciso local, tentou resgatar dois irmãos que se estavam a afogar. Conseguiu apenas salvar uma jovem de 14 anos. O irmão, de 10, não resistiu.

"Conheço bem isto desde os tempos que vinha para aqui pescar e não tenho problemas em ir para a água com os meus netos brincar. Esta praia é uma maravilha, mas torna-se perigosa sobretudo quando estão a funcionar as turbinas da barragem: a água faz uma corrente de baixo para cima a grande velocidade. Se, por exemplo, cair uma bola mais para o meio do rio e alguém for atrás dela possivelmente vai parar às comportas. E aí é muito complicado, porque já é muito fundo. Foi o que aconteceu com esses dois irmãos que foram resgatados", recorda o patriarca da família Pereira, que ainda assim não abdica de vir para Esposade.

Para este veraneante, a zona ribeirinha de Esposade tem vantagens: "Aqui a água é mais quente e não é parada, porque estamos para cá da barragem e beneficiamos da circulação das marés que em agosto até traz até aqui água salgada. Temos espaço para colocar uma mesa e umas cadeiras e passar aqui um bom bocado à sombra sem estar tudo apinhado de gente. O problema é neste momento isto estar um pouco abandonado, nem repõem a areia que é levada no inverno pelas cheias, nem tratam das árvores... Durante os meses de verão há mais gente e dantes havia famílias inteiras a acamparem aqui e a passarem uma ou duas semanas de férias. Agora proibiram isso também. Não é possível acampar a menos de 500 metros do rio. Isso é feito para beneficiar as empresas de barcos de cruzeiros, que não gostam de ver aqui o pessoal acampado."

Sobre a praia quase selvagem está o bar do clube gondomarense Águias da Livração. Alcino Valente, que este mês começou a explorar o espaço, apela a que, ao invés de ter uma placa de proibição de banhos, a zona ribeirinha seja arranjada, que seja reposto o areal, limpo o entulho e tratada a vegetação. Tudo para que a praia "se encha de gente e o negócio melhore nos meses de verão".

Bem mais contundente é o cliente Fernando Castro, que vive em Esposade há 26 anos e "noutros tempos atravessava o rio a nado". Quase sem ser preciso perguntar, ele faz a defesa da praia que tem à porta de casa:

"Os meus filhos tomam banho aqui. É inseguro? Inseguras são as praias fluviais com vigilantes e tudo do lado do rio, em Gaia, que ficam em cima do canal de navegação, por onde passam os cruzeiros do Douro. As pessoas entram na água, dão dois passos e aquilo afunda. É bem mais perigoso que aqui, que temos pé até quase meio do rio. Mas não há interesse em revitalizar isto", diz este gondomarense, acrescentando que, apesar do descaso, a praia "clandestina" continua a ter entusiastas: "Há três ou quatro anos tiraram uma placa que dizia praia de Esposade. E colocaram outra a dizer que é proibido nadar. Mas mesmo assim as pessoas continuam a vir para aqui. Há quem acampe aqui uma ou duas semanas e passe aqui as férias. Ultimamente menos pessoas. Basta arranjarem isto que acredito que esses tempos vão voltar.

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