A cor é sobrevivência, vivência, sedução, espicaça-nos respostas instintivas e intuitivas, é um elemento de manipulação, modela-nos enquanto consumidores, apropria-se de objetos, de odores, de sabores, das nossas memórias. Sobre este mundo tangível e intangível, detém-se a poeta e docente universitária Rosa Alice Branco no livro As Cores das Coisas - Viagem pela Natureza e pelos Objetos (edição Contraponto). Aveirense de berço, autora de uma obra poética com 12 títulos, Rosa Alice Branco vê na cor o trunfo da imaginação. Propriedade que permitiu ao poeta Paul Éluard escrever o verso: "A terra é azul como uma laranja". "Um verso que se imiscuiu em mim como uma verdade poética indiscutível", sublinha a autora na introdução ao seu novo livro. Animais da Terra, primeiro livro de Rosa Alice Branco teve publicação em 1988. Reconhecida internacionalmente, a autora tem a sua poesia publicada em inúmeros países, tanto em livros como em revistas literárias. A par com a atividade literária, Rosa Alice Branco tem um doutoramento em Filosofia Contemporânea e dedica-se profissionalmente à Neuropsicologia da Perceção e à Estética..Está profissionalmente ligada à Neuropsicologia da Perceção e à Estética, para além disso tem duas cores no seu nome. Aparentemente temos a conjugação perfeita para este livro. Mas terá razões mais profundas para o entregar aos escaparates. Sim, no nome ainda encontra outro facto interessante, há uma rosa com a designação de Alice. Desde 1990 que leciono Psicologia da Perceção, mais tarde Teoria da Perceção, também Cultura do Ambiente e Cultura Contemporânea. De toda a vasta gramática visual, a cor foi sempre a linguagem que mais me cativou desde a infância. O meu pai foi cineasta [Vasco Branco]. Passávamos a vida em festivais de cinema e na nossa casa tínhamos uma espécie de sede de cinema de oposição ao regime de Salazar. Os filmes que não passavam no Cineclube onde o meu pai era presidente, eram exibidos em nossa casa. Além disso, todos os agostos, eu e os meus irmãos, íamos percorrer os museus da Europa com os meus pais. Víamos os museus e depois as cidades [risos]. O meu pai também era ceramista, pintor e escritor. O meu mundo rodeou-se de cor, mesmo no sentido da arte. Portugal é um país muito pequeno, mas com uma grande diversidade de cores. Vivo no Porto, vivi 15 anos em Lisboa e nasci em Aveiro, onde permaneci até perto dos 16 anos. Ali, tem as salinas, a reflexão da água salgada e toda aquela luz. Quando vinha ao Porto, uma cidade granítica, parecia-me sempre de noite. Também me recordo da primeira vez que fui ao Algarve e de ver as cores dos hibiscos. A paixão pela cor não é algo que procurei, foi algo que veio até mim..O seu livro é uma síntese desse seu percurso... Sim, e espero que também um caminho de futuro [risos]. Há informação que pedi ao editor para adicionar ao livro à beira da publicação. Por exemplo as novas tendências para 2022 da Pantone. Sentia-me angustiada por saber que enquanto o livro estava em produção, surgia nova informação sobre as cores. Por exemplo, a aplicação do Vantablack [a substância mais escura até agora criada pelo homem] é algo relativamente recente, embora já fosse conhecido em 2019 no universo automóvel. Também é interessante escrever sobre o passado da cor e no meu percurso, como nas possibilidades infinitas cromáticas que nos trazem as novas tecnologias, como o vídeo mapping ou as artes urbanas..Percebemos que, de facto, não dá folga à cor no seu dia a dia... Sim. Por exemplo, a cor pode trazer dignidade a pessoas que não têm mais nada. Conto-lhe uma história: a propósito de um convite que recebi para participar num festival de poesia na América Latina, desloquei-me a Santiago do Chile. Aí, quis ir ver os subúrbios. Julgo que as grandes coisas que podemos ver estão nos desvios dos centros das cidades, onde as realidades são mais genuínas. Ali estava um subúrbio extremamente pobre, mas com casas estonteantes. As casas, cada qual da sua cor, estavam pintadas de violeta com amarelo torrado e vermelho. Nalgumas sociedades, a dignidade dos habitantes é transmitida pela diferenciação da sua casa..Abre o seu livro com uma expressão bela: "a cor é a linguagem do olho". Que alcance tem esta expressão? Uma frase proferida por George Berkeley, um filósofo dos séculos XVI e XVII, que entra em campos como a matemática. Berkeley é o primeiro a tratar a visão como uma linguagem e a cor como uma linguagem dentro visão. O que ele revela é que a visão é tão ricamente articulada e ensina com tanta facilidade que é a linguagem que o autor da natureza nos concedeu para ser a linguagem do olho. A cor guia-nos na natureza para a sobrevivência e para a nossa vivência. Na nossa vivência sabemos quais as cores que devemos pôr na casa, aquelas que devemos vestir. A cor avisa-nos se há bagas vermelhas. Já o verde, associamo-lo à frescura. Sabemos se há um tempo de seca quando a erva fica amarelada..A cor também é sedução. Como digo no livro, no mundo animal há machos que mudam visceralmente de cor na época da reprodução. Antes baços, para de repente apresentarem um ventre azul-turquesa ou vermelho. Ou seja, há algo orgânico em prol da reprodução. É muito interessante se pensarmos nos primeiros machos humanos, nas tribos, e de como se pintavam, também aqui por questões rituais..Escreve no seu livro que a cor é a "louca da casa". Porquê? Porque uma coisa é a representação da cor, outra é a cor que vemos. Quando vemos as cores, muitas delas em duas dimensões, elas alteram-se em contacto com as demais. O filósofo Nicolas Malebranche considera no seu livro De la recherche de la vérité que a imaginação é a "louca da casa", porque só a razão era tida em consideração. Ora, do ponto de vista da perceção julgo que a cor é "a louca da casa", pois modifica-se na vizinhança das demais. O rosa, ao lado do azul, parece um tom quente, mas ao lado do laranja parece frio. Se tiver um cinza-claro, a cor mais camaleónica, rodeada de um laranja, é vista como azulada. A iluminação ainda muda mais tudo isto. Por exemplo, numa loja nunca sabemos bem a cor da roupa. Recordo-me da dificuldade de escolha entre um azul-marinho e um preto. Mas se colocar estas cores lado a lado, vai perceber a diferença. Ou seja, há uma relatividade que também se aplica às cores..No caso dos espaços comerciais, temos a luz, a música, o odor a apelarem aos nossos sentidos. O odor e a música também alteram a nossa perceção das cores? Sim, em relação à música é algo muito patente por exemplo nas sinestesias. Os sinestetas verdadeiros são aqueles que vêm uma determinada cor numa escala musical. Dou no meu livro o exemplo do compositor francês Olivier Messiaen, um sinesteta verdadeiro, que colocava nas suas partituras cores para influenciar o maestro e, desta forma, a interpretação dos músicos e o próprio público. Este encadeado permitia que percebessem as emoções do compositor..E no palato, como se dá essa relação? Em relação ao palato, as sinestesias não são tão frequentes. O paladar pode ser influenciado pela cor. Imagine uma carne fabulosa que esteja iluminada de castanho. Vai saber-nos sempre duvidosamente a podre. Dou-lhe um outro exemplo: a cenoura só foi laranja em homenagem a Guilherme I de Orange-Nassau, no século XVI. Imagine alguém que só viu cenouras laranja ao encontrar uma congénere violeta? A que lhe saberia? Se temos dúvidas em relação ao sabor, ele raramente nos surpreende pela positiva. Se tiver uma bebida de limão e esta for cor de laranja, vai associá-la ao sabor da laranja. Um iogurte, numa embalagem preta, vai parecer-lhe mais ácido ao ser consumido..Ou seja, a cor manipula-nos. Daí, a escolha das cores não ser inocente na publicidade. Nas grandes empresas é muito bem pensada. Às vezes, a identidade da empresa tem a ver com a cor dos produtos, outras vezes, a cor do logótipo nada tem a ver com isso. Simplesmente criam o que é mais apropriado para atrair o consumidor. No passado escrevi uma retórica da cor e a última parte do estudo centra-se na apelação e na persuasão. Acabo sempre com a fidelização ao produto, ou seja, este tem de apresentar qualidade suficiente para fidelizar. Passamos numa autoestrada e a marca da empresa tem de ser visível através das cores, bem conseguidas, não através da forma. A persuasão também passa pela cor e esta é sedução. Não é por acaso que foi condenada na Idade Média, na Reforma. Porque era considerada fonte de pecado devido a esse poder de sedução..Falando de sedução, a cor e a pele têm uma relação antiga, complexa. Neste contexto não nos podemos esquecer do branco e da roupa que toca diretamente na pele. Sim, porque o corpo era visto como fonte de pecado. Para o manter o mais puro possível, também numa perspetiva de limpeza, a cor que se lhe associa é o branco. Todos os anúncios de detergentes tocam nessa questão, embora, entre as últimas criações das empresas, encontremos produtos para limpeza azuis, associados aos antibacterianos e aos laboratórios. Antes, seria impossível encontrar-lhes essa cor pois era associada ao cianeto. A comercialização de gomas e gelatinas tornaram as cores mais permissivas..Falou do azul, não é uma cor que encontremos nos alimentos no seu estado natural... Exato, não encontramos. Temos, por exemplo, os mirtilos, mas são violeta. Por exemplo, os perfumes eram feitos a partir das cores mais percetíveis nas plantas. Ninguém faria um perfume cinzento, cor que associaríamos ao bolor..O azul-marinho é a cor mais amada por metade da população ocidental. Será uma resposta à raridade desta cor no passado ou o produto de uma sociedade de consumo que adora jeans? A cor azul tem uma conotação positiva desde o manto da Virgem, como símbolo de paz e pureza. Mesmo os grandes historiadores da visão não têm a certeza se determinados povos não viam o azul e o confundiam com verde. No passado, obter o azul era difícil. Por exemplo, Vermeer [Johannes Vermeer] numa das suas obras, Rapariga com brinco de pérola, faz a união daqueles azuis magníficos com branco. Obter o lápis-lazúli era tão caro que, realmente, o que era usado, era a azurita nas diversas camadas. A última camada era pintada com lápis-lazúli..O verde também é uma cor muito difícil. É a cor do dinheiro, do efémero, mas também mal-amada. Na verdade, também as tintas eram efémeras, ficavam rapidamente acinzentadas. Mal-amadas porque também era difícil fixá-las. Já com o vermelho é o contrário, é uma das cores que se fixava por mais tempo. Por exemplo, na Idade Média, as noivas rurais vestiam-se de vermelho no dia do casamento. O vestido teria de ser reutilizado..Não é anacrónico o vermelho ser conotado com a sumptuosidade e a vulgaridade? Muitas vezes não é o mesmo vermelho. Nos povos mais antigos, a proximidade era muito maior entre um vermelho brilhante e um azul brilhante, do que entre um vermelho brilhante e um vermelho deslavado. Porque as grandes oposições eram entre o vermelho e o baço. Sabemos que alguma sumptuosidade é dada pelo mate e não pelo vermelho. Pensemos na cultura Ocidental: um imperador podia vestir-se de vermelho. Se pensarmos na prostituição, ela começou por ser amarela. As casas das prostitutas eram sinalizadas a amarelo. Num certo momento, a prostituição passa a ser vermelha..Também na cor da lingerie vemos uma evolução. Passa do branco para tons pastel e só depois vai recorrer a cores mais saturadas. Começa-se pelo preto, primeiro associado a uma sensualidade de mau tom, mas depois torna-se sinónimo de elegância. O vermelho na lingerie passa a ser a cor da vulgaridade..O mar que nos embala em tons de azul era tido como verde. O que nos fez mudar a perceção da cor do mar? Na água do mar há muita matéria verde. Se reparar nas magníficas cores das águas do oceano, por exemplo no Havai, por mais que as queiramos ver azuis, elas na realidade são verdes. Depois, na profundidade vamos ter o azul, resultante da sobreposição das camadas de água. A primeira cartografia a partir do momento em que precisou de colocar no papel elementos de cor diferenciadores para a terra firme e para o mar, obviamente escolheu o verde para a terra. A natureza é de um verde assumido. O da água era o chamado verde-azulado, com maior percentagem do primeiro pigmento. Na realidade, a partir do momento em que assumimos o mar como azul, temos tendência para olhá-lo como azul..Ao apreender as cores com o olhar da ciência, não está a poeta a despojá-las de poesia? Não. Chegaram a fazer-me a pergunta ao contrário. Dou-lhe o exemplo com o meu último livro de poemas, Amor Cão e outras palavras que não adestram (2022). Já há algum tempo que queria escrever um livro de poesia sobre os pequenos e grandes predadores que somos nós, os humanos e esta nossa paranoia de querermos domesticar tudo à nossa volta. Lembrei-me de contar a história do cão e a sua evolução a partir de Konrad Lorenz, zoólogo e etólogo, Prémio Nobel da Medicina. Todos os meus poemas têm uma epigrafe de Konrad Lorenz, embora depois tenha poemas simplesmente de vários tipos de donos e de cães: o invisual, mas também o que leva o cão a concurso, o que procura estatuto social através da raça de cão. Perguntaram-me "como consegue a partir do ensaio chegar à poesia". Já escrevi muitos poemas baseada no Damásio [António Damásio], porque tudo faz lembrar tudo. No fundo, a realidade é complexa. Leibniz disse uma coisa lindíssima: "No Universo tudo conspira.".As cores das coisas - viagem pela natureza e pelos objetos.Rosa Alice Branco.Editora Contraponto.224 páginas.dnot@dn.pt