A nova vida de uma mercearia que ficou sem turistas

Fernando Lage está na Mercearia da Graça, neste bairro lisboeta, há 43 anos. A pandemia levou-lhe os turistas mas ainda não o obrigou a fechar portas. "Vai-se vendendo, mas não é aquilo que a gente quer", diz.

A pequena Travessa do Monte, em pleno bairro da Graça, Lisboa, é uma amostra do que se passa no país. Em escassos 50 metros, há dois restaurantes, uma barbearia e um cabeleireiro de portas fechadas, seguindo as restrições impostas pelo Governo para conter a pandemia de SARS-CoV-2. Apenas a padaria, a loja de venda e reparação de telemóveis, a mercearia gourmet e a mercearia tradicional estão abertas. É nesta última que encontramos Fernando Lage, 66 anos, proprietário do espaço em sociedade com a mulher, desde 1977. "Se eu não tenho medo? É assim, medo temos todos nós. Eu também tenho. Toda a gente tem medo, não é? Temos é de ter respeito pelas coisas da natureza, que é mesmo assim", diz o merceeiro, num dos poucos momentos em que a pequena loja fica sem clientes.

"Bom dia, senhor Fernando", ouve-se de alguém que passa na rua. E ele responde, tratando alguns também pelo nome. "Senhor Fernando, já vieram os queijinhos hoje?", pergunta-lhe uma cliente.

É um entra e sai durante toda a manhã. Mas Fernando Lage queixa-se da falta de movimento na loja. "Quando foi do confinamento de março houve mais movimento porque estava tudo fechado. Quando está tudo aberto fica mais fraco", explica. "Vejo até isto um bocado parado, por causa das notícias deve estar muita gente em casa", comenta.

Neste dia, as escolas ainda estão a funcionar e, neste bairro lisboeta, à exceção das filas e dos estabelecimentos encerrados ou com balcões improvisados à porta, parece que não estamos em confinamento tal o corrupio de gente na rua. Mas para aquilo a que Fernando estava habituado num dos bairros mais típicos de Lisboa, perto de alguns pontos turísticos mais procurados, não é nada. "Havia alturas em que não se podia estar aqui e agora estamos aqui sem entrar ninguém", constata. "Isto tem tendência a acabar... O que estava a segurar isto ainda era o turismo", admite, lembrando os tempos em que os estrangeiros lhe entravam na loja para comprar produtos diferentes e mais caros que a clientela habitual. "Umas bebidazinhas e tal... e charcutaria também. Agora vai-se vendendo, mas não é aquilo que a gente quer."

Compram sobretudo frutas, vegetais e "mais alguma coisa que seja preciso". Quando os supermercados maiores foram obrigados a encerrar aos fins de semana durante a tarde, ficou a ganhar e passou a vender mais "produtos de prateleira". Mas agora já tem os mesmo horários que os supermercados mais modernos e sabe que o negócio se vai ressentir.

"Senhor Fernando, tem um frasco de couve-flor?", pergunta uma cliente. Ele procura num canto da mercearia, depois vai ao outro lado e saca lá do fundo da prateleira o dito frasco de picles. "Cá está ele", diz satisfeito. "Não tem outro?", pergunta a cliente. "Só tenho esse", responde. "Não havia em lado nenhum", comenta a senhora. "Está a ver, veio cá porque não arranjou noutro sítio", realça ele, mal a cliente sai à porta.

Natural do distrito da Guarda, veio "a escorregar por uma tábua abaixo" até Lisboa e por cá ficou. Mas antes disso, viveu em Angola. "Sou retornado." Homem humilde, de poucas palavras e incapaz de ficar quieto, está sempre a espreitar o que tem de fazer a seguir, seja colocar o preço na couve, seja limpar a zona da caixa registadora, seja preparar uma pequena encomenda para ir entregar ali perto a uma senhora idosa.

Atende mais um cliente. "Desculpe lá, senhor Fernando, só tenho 50 euros", dizem-lhe. "Quem dera a muitos ter 50 euros", responde. "É um espetáculo, sempre aberto, sempre a trabalhar, atencioso", descreve um cliente mais jovem, na casa dos 40, que ali vai desde miúdo (exceto no tempo em que mudou de bairro), enquanto Fernando procura um saco com asas onde ele possa levar a garrafa de vinho ali comprada. Entretanto, alguém estica o braço lá de fora e deixa 10,20 euros no prato da balança. "Entram, deixam dinheiro, vão-se embora...", repara o cliente. "Deixaram dinheiro?", pergunta Fernando, que nem se apercebeu de nada, ainda dobrado à procura do saco. Lá de fora, acusam-se: o dinheiro é para dois maços de tabaco, que o merceeiro entrega de imediato.

"Costumo vir muitas vezes a estes minimercados. Ainda por cima nesta mercearia encontramos tudo o que precisamos. É muito mais rápido, evitamos muita gente", comenta uma cliente, já de saída com um ramo de salsa na mão. Quem precisa de umas folhas de louro também ali encontra, não precisa de comprar o saco todo.

Mais vale não ver televisão

Dias antes, António Costa anunciou o segundo confinamento por causa da pandemia, depois de o país se ter fechado em casa em março com medo das notícias que vinham de Itália e de Espanha. Agora, há relatos tão ou mais alarmantes vindos dos hospitais nacionais, com o número de mortos diários a superar os 200, com filas de ambulâncias à porta dos hospitais e com o serviço nacional de saúde à beira do colapso. "Eu nem gosto de ver televisão para não pensar muito nisso", diz Fernando. Mas não está preocupado? "Sim. Uma pessoa tem de se preocupar, que é mesmo assim", responde com um encolher de ombros.

Mas nota que há 10 meses foi bem diferente, com mais respeito pela ordem de confinamento. "Houve mais respeito. Houve e as pessoas abasteceram-se com medo da fome. Quando vieram aquelas notícias as pessoas levaram, levaram, levaram até encherem a despensa", lembra.

Chegou a hora de almoço e entra mais um cliente, trabalhador da construção civil, percebe-se pela roupa salpicada de tinta. Tem na mão um saco de plástico com um recipiente de papel de alumínio, onde está a comida, comprada num restaurante ali perto. Vem buscar uma cerveja para beber. "Isto agora tem de ser assim", diz, com ar de queixume, por ter de saltitar de lugar em lugar para comprar o que precisa para almoçar.

Fernando diz que o negócio está fraco, mas pode ter as portas abertas. Caso contrário, "não era bom, não". Pouco depois, há um cliente que se queixa do valor que o merceeiro lhe cobra pelas compras que fez: "Fogo, você não quer levar mais nada? Você leva o resto do cabelo e tudo, pá". Em troca, ouve a resposta típica de Fernando: "O cabelo agora dá jeito, com o frio que está". Ri-se e passa ao próximo cliente. "Se eu gosto da minha vida? Então a gente tem de gostar, não é? Seja lá aquilo que a gente arranjar de trabalho, temos de gostar dele, é o principal".

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