A moda do peixe de Setúbal ganha uma nova vida

Procura duplicou em muitos restaurantes e até há zonas que ganharam novo brilho para receber visitantes à mesa

O que leva a família Castro a viajar de Lisboa até Setúbal num domingo e a esperar por mesa até às três da tarde? São quatro adultos e duas crianças. O pai justifica: "O bom peixe assado, com esta vista maravilhosa sobre o rio Sado. Olhe-me só para aqueles besugos tão gordos e para o aspeto dos robalos", exemplifica David, enquanto diz ter descoberto os atributos gastronómicos sadinos há pouco tempo por causa da novela Mar Salgado, que rodou na SIC em 2014 e 2015. "Mostrava a cidade, bairros típicos, o peixe, o mercado e a serra. Viemos experimentar, provámos o peixe e ficámos fãs. Olhe, passámos a vir cá uma vez por mês", revela, enquanto o empregado chama a família para a mesa lá do canto.

Entre os restaurantes ouvidos pelo DN a opinião é unânime. Mar Salgado deu uma espécie de "segunda vida" ao já célebre peixe assado de Setúbal, ao próprio choco frito, mas também à caldeirada. Sobretudo a algumas das zonas mais típicas da cidade, como é o caso do bairro da Fonte Nova, que num passado recente sentira na pele os efeitos de alguma degradação que afastou clientela. Hoje as esplanadas estão cheias.

"Isto mudou tanto ultimamente. Primeiro foram as obras da câmara que requalificaram o bairro. Logo aí sentimos que as pessoas passaram a vir mais. A novela fez o resto", conta Stephane Sammut, gerente do Kefish, um dos três restaurantes da Praça Machado dos Santos (Fonte Nova) que somam uma capacidade superior aos 500 lugares, partilhando um fogareiro coletivo no centro do largo, com vitrinas e áreas de preparação do peixe. "É para as pessoas escolherem à vontade e poderem ver tudo até à mesa. É um dos nossos atrativos", diz. As contas feitas por alto permitem estimar que aos fins de semana 70% dos clientes chegam das zonas de Lisboa e Cascais. "Entre as três esplanadas chegamos a servir mais de 1500 refeições", revela, numa altura em que o cheiro da sardinha assada já se espalha pelo bairro. "Começa a estar gorda e já pinga", garante, assumindo que o choco do estuário ali ao lado está no ponto e o carapau--manteiga também. "Pena que este ano o maio foi muito chuvoso e deu cabo do negócio", lamenta.

Tiago Marquinhos, gerente do Miami, falou ao DN num dia "mais calmo". Era uma quarta-feira, mas estava a almoçar depois das três da tarde. "A procura tem sido tanta que há dias em que Setúbal até tem falta de resposta", admite, lamentando aquelas horas apertadas em que não consegue dar a atenção que o cliente merece. "Às vezes não conseguimos sentar todas as pessoas, que já vêm cansadas da viagem, e isso pode ser mau para o futuro", diz.

A sua casa duplicou as refeições aos fins de semana, tendo Tiago passado a trabalhar quase ininterruptamente durante 12 horas por dia. "Tenho de ter sempre pessoal jovem a servir às mesas para aguentar o serviço de esplanada e lá dentro", diz, reiterando que a novela - em que participaram Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, Joana Santos e José Fidalgo nos papéis principais - traduziu um forte impulso no negócio. "Passámos a ter aqui caras novas. Queriam saber onde ficavam os locais transmitidos por Mar Salgado, mas ficaram nossos clientes. Alguns até já telefonam a reservar mesa." Agora já são 15.30 de domingo, mas ainda há gente à espera nos restaurantes junto à doca. A Tasca da Fatinha tem fila, mas os clientes recebem a garantia de que não vão dali sem almoçar. Já Paulo Oliveira, o responsável pelo Casa do Mar, prefere ficar com o contacto dos clientes, permitindo que vão dar uma volta, ligando-lhes quando a mesa estiver vaga. Por mais tarde que possa parecer, a maioria gosta de deferência e espera para degustar as douradas, os robalos, as enguias, os besugos ou os pregados. Tudo do mar.

Onde se compra o melhor peixe

Os peixes estão à vista de todos, numa montra imponente e arranjada a preceito, mas que começa a ser "construída" logo cedo nas bancadas do Mercado do Livramento, onde Paulo Oliveira entra diariamente, de geleira com rodas tipo trólei, pelas 08.00 horas. Começa pela "pedra" da Cila, a vendedora a quem já telefonou na noite anterior para encomendar douradas e robalos do mar, entre os 800 gramas e um quilo, para duas pessoas.

"Está tudo arranjado. Já sabe o que eu quero. Praticamente limito-me a conferir a qualidade", revela, partindo para a bancada do vizinho à procura de ovas de peixe-espada, que chegaram de Sesimbra. "Não há melhores", afiança, não estando muito convencido com os pregados por causa do tamanho. "Queria levar maiores, mas fazem falta para decorar a montra", admite, enquanto pede dois quilos de "gordos massacotes", embora não encontre as douradas de meio quilo que constam da lista que tem na mão.

Justifica que o tempo não tem ajudado e que às vezes falta peixe. "Como não gasto de aquacultura fico limitado. Já tenho ficado sem peixe a meio do jantar nos dias de maiores enchentes", admite, concordando que a procura disparou à medida que a novela foi revelando Setúbal. É capaz de admitir que "foi o dinheiro mais bem empregado dos impostos" que paga à câmara.

"Passaram a aparecer pessoas a perguntar onde ficava o mercado, porque queriam ir ver", relata, ao mesmo tempo que percebe que o carapau-manteiga de Dulcília Pereira já está no ponto. "São dois quilos, se faz favor."

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