A idade não é um obstáculo ao amor ou à aventura

"Ele tinha dito que eu era a sua última e mais bonita aventura, e ele trouxe alegria e magia à minha vida. George morreu aos 91 anos [a vida dele tinha sido cheia de aventuras, viagens e mulheres], quando eu tinha 78. Só então comecei a envelhecer"

Eu costumava pensar que o amor serôdio, se existisse, se limitava a cadeiras de baloiço ou carrinhos de golfe e que tinha de ser uma coisa melancólica devido às limitações físicas da idade.

A falta de memória tornaria impossível qualquer conversa interessante e as pessoas de idade não pareciam inclinadas a participar, ou capazes de o fazer, na coisa bela que é o amor - infelizmente, pois que melhor maneira haveria para passar por esse período miseravelmente chato, doloroso e terrível a que chamamos os nossos anos dourados?

Assim, quando conheci George, não andava certamente à procura do amor. Com 83 anos, ele era um viúvo recente e eu, aos 71, estava há muito anos divorciada. Partilhávamos uma casa de campo nas montanhas Catskill com algumas outras pessoas de idade que eram amigos comuns e, contra a minha vontade, ele despertou-me a atenção.

Ele parecia gozar de boa saúde, à exceção de um pouco de diabetes. Usava bengala e ainda conseguia andar - cerca de um quarteirão. Tinha dentes falsos, identificados por uma ponte dourada que aparecia num dos lados do seu sorriso desarmante. Ainda tinha muito cabelo. O melhor de tudo era que quando falava valia a pena ouvi-lo.

George viajara muito, vivera em vários países europeus, declarava--se um socialista, em tempos possuíra uma casa numa ilha grega, tinha opiniões fortes sobre tudo e lembrava-se da maior parte das coisas que lhe tinham acontecido. Quanto a mim, ainda conseguia andar sem bengala, acabara de publicar um livro e os meus amigos diziam-me que eu parecia uma jovem.

As coisas avançaram rapidamente e não demorou muito até eu me mudar para a sua casa na Florida. Bom, eu sempre fui impulsiva. E porque não? Os meus filhos e netos estavam longe, envolvidos nas suas próprias vidas e o meu contrato de arrendamento estava quase a terminar. E, entretanto, eu achava o George irresistível.

O que nos surpreendeu foi que a eletricidade que gerávamos era tão forte e convincente como o amor tinha sido 50 anos antes, que mexia com as nossas cabeças de igual forma. Ainda mais surpreendente era o facto de termos uma vida sexual vibrante e deliciosa. Os poucos obstáculos pareciam fáceis de transpor e passávamos muito tempo na cama ou nus dentro da piscina isolada.

Eu não desejava realmente tê-lo conhecido com 25 ou 30 anos; ele gostava de mulheres em demasia e acreditava no "casamento aberto". Era ainda um namoradeiro indomável. Sem as limitações físicas da idade, suspeito de que poderia ter ido atrás de algumas sexagenárias.

Quando a minha cabeça arrefeceu um pouco, comecei a ter reservas em relação a esta reforma antecipada. O que estava eu, uma nova--iorquina de toda a vida, a fazer em Key Largo? Bogey e Betty não estavam à vista; em vez deles havia centros comerciais, mosquitos, pelicanos, cobras e furacões. Nada de praias ou marginais. Muita bebida e muitas drogas, quando tudo o que eu bebia era um Martini ocasional e George não bebia de todo.

Os amigos dele, para os quais George funcionava como uma espécie de consultor independente, eram um bando curioso: delinquentes, veteranos do Vietname, almas atormentadas, molestadores de crianças e fugitivos. Eles entravam e saíam da nossa casa para reuniões e o telefone estava em grande parte ocupado com sessões de aconselhamento a longa distância sobre amor ou dinheiro, a vida ou a morte - George não vacilava diante de nada.

Eles pagavam-lhe consertando e transportando coisas e trazendo--lhe peixe fresco acompanhado de instruções sobre como cozinhá-lo. Eu perguntava-me se George teria algum segredo criminoso obscuro, mas, embora fosse rebelde por natureza, ele parecia ter-se mantido do lado certo da lei.

Eu tinha posto a escrita de lado por alguns meses para me concentrar em George e tagarelar com John e Pete, os meus delinquentes favoritos, enquanto George estava ao telefone a salvar alguma pobre alma do desespero ou pior. Comecei a gostar desta vida preguiçosa. Podia não ser assim tão mau envelhecer nesta casa confusa, mas confortável com a piscina, desde que o ar condicionado continuasse a funcionar.

Passado um ano, George sentiu o tédio a aproximar-se de nós, por isso entrámos no seu Mitsubishi branco e partimos para visitar a família e os amigos, uma dúzia ou mais em dez estados do Leste do país. Foi uma viagem para testar a resistência de pessoas com metade da nossa idade e que acelerou ao chegarmos perto de Nova Iorque.

George, que tinha vindo a guiar a maior parte do tempo (eu tinha carta mas não era lá muito boa na condução), começou a parecer doente. Eu preenchia os nossos dias com almoços, filmes, museus, lojas, cabeleireiros e bebidas com amigos e ele seguia-me corajosamente pela cidade, até que, no meio de uma festa no nosso apartamento emprestado, George teve um acidente vascular cerebral.

Eu sabia que ele deveria ir imediatamente para o hospital, mas foram precisas quase 24 horas e um médico persuasivo ao telefone para que ele concordasse. O lado esquerdo do seu rosto descaiu. A perna e a mão esquerdas ficaram paralisadas, embora a fala - na sua totalidade - não tenha ficado afetada.

E ele não gostou do Hospital de Lenox Hill, onde o seu AVC foi classificado como "pequeno". George pediu para ser levado de volta para o hospital em Key Largo, onde, acreditava ele, seria reconhecida a verdadeira dimensão do seu AVC.

De regresso às Keys, George foi instalado (sob protesto) no vizinho Centro para Convalescentes Plantation Key. Eu fiquei secretamente aliviada; ele estava a dar comigo em louca.

Quando eu fui para casa para recarregar energias, o delinquente John disse-me: "Querida, nós temos um outro problema. Um sacana de um grande furacão está a dirigir-se diretamente para nós." Ele já tinha começado a colocar as portadas contra a tempestade.

Aquilo já tinha acontecido antes e eu verifiquei as lanternas, as latas de sopa, os garrafões de água, etc. Todos os dias eu ia visitar George ao centro, com o rádio ligado na meteorologia, até que bati na traseira de outro carro, destruindo o amado Mitsubishi.

Sentei-me na relva da berma, sentindo-me miserável enquanto a agente da polícia me dava uma palestra sobre o comportamento adequado de um condutor da Florida, coisa que eu não era exatamente, por me ter recusado a trocar a minha carta de Nova Iorque por uma da Florida. Mas havia questões mais prementes.

Eu tinha dito a George que ficaria com ele quando o furacão Wilma nos atingisse, mas, então, as coisas ficaram fora de nosso controlo; tinha sido ordenada uma evacuação. Eu teria permissão para ir no autocarro com ele para uma instituição a norte de Miami.

Naquele momento era evidente que o centro de convalescença era um também um hospital psiquiátrico e alguns dos nossos companheiros eram bastante estranhos. Ainda mais peculiar foi o nosso destino de evacuação, um lugar a que chamámos Grimstone Manor, a nossa casa durante os próximos cinco dias e onde Wilma decidiu fazer um ataque direto, poupando Key Largo.

Em Grimstone, George partilhava um quarto com uma vítima de mergulho em coma, um homem com um fato camuflado preparado para a guerra e um homem incontinente que só se ria. Eu dormia num sofá que chiava perto da sala das enfermeiras, embalada pelas árias noturnas de uma paciente e os gritos de uma outra que chamava pela mãe.

A comida era escassa e intragável - perdi dois quilos. Quando o furacão Wilma nos atingiu houve vidros partidos, tijolos e ramos de árvores a voar e a eletricidade desligou-se. O gerador era fraco. Quando tudo acabou, George disse que estava farto daquele lugar e queria ir para casa. Um dos delinquentes veio buscar-nos - a contragosto - pois significava ter de conduzir por cima de vidros partidos, contornar enormes folhas de palmeiras e atravessar cruzamentos sem luz.

De regresso a casa, George disse: "Sinto vontade de me matar."

Eu desatei a chorar. Disse-lhe que a escolha do momento tinha sido terrível. Nós tínhamos passado por todos aqueles desastres incólumes. Os nossos cérebros ainda funcionavam, mais ou menos. Qual era o problema dele?

"É assim tão mau?", perguntou ele. "Eu já estou muito velho."

"É horrível."

"O que é que tu queres?", questionou-me.

"Eu quero dormir sestas, estar aborrecida, ler o jornal, passear num carrinho de golfe. Eu não aguento mais esta vida. Eu quero envelhecer como uma pessoa de 72 anos normal."

Ele olhou para mim com impaciência. "Irias durar cerca de duas semanas", respondeu-me. "Porque não nos mudamos para Nova Iorque?"

Uau! Não podia recusar aquela oferta. Assim fizemos. Mas já não fomos aquilo que tínhamos sido. George nunca recuperou totalmente do AVC porque não tinha feito os exercícios. Agora, ele precisava de uma cadeira elétrica. Eu precisava de uma bengala para a minha dor nas costas, provavelmente devido a ter passado o último meio século debruçada sobre uma máquina de escrever ou um computador.

Em Nova Iorque fomos a uma quantidade de médicos. George estava sempre com frio, tinha saudades da Florida e não queria ir a lado nenhum. A sua curiosidade apaixonada estava a desvanecer-se. Eu sentia falta dos delinquentes e da piscina. Nova Iorque era dura por imensas razões. Não era um lugar para nos sentarmos e ficarmos entediados. Não estava a funcionar e nenhum de nós o queria admitir. Cuidar dele deixava-me exausta.

Quatro anos depois de nos mudarmos para Nova Iorque, e sete anos depois de nos termos conhecido, George morreu - de quê foi difícil de perceber. De velhice, disseram-me. A vida dele tinha sido cheia de aventuras, viagens e mulheres. Ele deixou dois filhos e quatro netos.

Ele tinha dito que eu era a sua última e mais bonita aventura, e ele trouxe alegria e magia à minha vida. George morreu aos 91 anos, quando eu tinha 78. Só então comecei a envelhecer.

Exclusivo DN/The New York Times

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