"A ansiedade seguramente será um desafio para o século XXI"

Nuno Mendes Duarte é psicólogo e acaba de lançar o livro "Superar a Ansiedade - Um manual para conquistar uma vida calma". Diz que a ansiedade tem uma prevalência muito alta na sociedade, mas que apesar de ainda existir algum estigma, os portugueses estão mais bem informados nas questões de saúde mental. Sobre a pandemia, afirma que foi um fator de stresse, tanto no confinamento, como no regresso à normalidade.

No seu livro diz que a ansiedade é o mal do século XXI. Porquê?

Nos últimos anos temos vindo a ouvir a Organização Mundial de Saúde a falar quer de depressão, quer de ansiedade. E, na realidade, a ansiedade tem uma prevalência muito alta. Ou seja, aquilo que nós vamos assistindo, e vamos assistindo neste século XXI, é exatamente à prevalência da perturbação psicológica, neste caso às perturbações da ansiedade e efetivamente será uma das coisas com as quais nós teremos de lidar. Parece-me ser essencial para nós conseguirmos ter uma vida tranquila, uma vida capaz de nos realizar, conseguirmos gerir essa ansiedade, que seguramente será um desafio para o século XXI.

Quais são os sinais de alerta de que se tem problemas de ansiedade?

Há uma distinção muito importante entre aquilo que é a ansiedade normal e os nossos sinais de alerta. Os sinais de alerta para uma perturbação de ansiedade tipicamente é quando nós entendemos que há uma frequência excessiva e nós estamos a sentir que essa frequência dessa ansiedade e a forma como nós estamos a sentir a ansiedade está a tornar-se impeditiva de algumas coisas que eram importantes para nós. Eu diria que esse é o maior sinal de alerta, é quando a ansiedade nos impede de fazer aquilo que é importante.

Quais são os tipos de ansiedade mais comuns?

A perturbação de ansiedade social é uma situação muito frequente, muitas vezes é confundida com timidez e, na realidade, é uma das questões essenciais, por isso é que eu falava há pouco na tal limitação das atividades. Na perturbação da ansiedade social ela é sentida de uma forma que limita muito as pessoas que querem ir a situações novas, conhecer pessoas novas. A situação da perturbação de pânico é também muito prevalente. Nós encontramos tanto a perturbação de ansiedade social como a perturbação de pânico como muito prevalentes na prática clínica. As fobias específicas sabemos que têm uma prevalência elevada, mas não aparecem tanto na prática clínica porque muitas vezes as pessoas são capazes de lidar com isso uma vida inteira sem muitas vezes terem que lidar com os objetos fóbicos.

Já há muita gente a procurá-lo para consultas por questões de ansiedade?

Eu trabalho com perturbações relacionadas com trauma e com perturbações da ansiedade desde o início da minha prática clínica. E, portanto, aquilo que acontece é que as pessoas ao longo do tempo sempre associaram o meu nome às perturbações da ansiedade. Ao início era muito por perturbações de pânico, foi algo que no início eu trabalhei muito e continuo ainda a trabalhar hoje, fazia grupos de tratamento de perturbação de pânico, etc., essa foi uma área que sempre as pessoas vieram e clinicamente é seguramente das áreas que eu mais recebo em consultório.

Acha que a saúde mental é algo que já preocupa os portugueses?

Eu tenho a certeza que nesta fase, e já ao longo dos últimos anos, temos visto uma grande alteração naquilo que é perceção das pessoas a propósito do que é a saúde mental. Ainda hoje, infelizmente, temos situações de estigmas relacionados com a ideia da perturbação psicológica e com a ideia da saúde mental, mas as pessoas vêm muito mais informadas. E para isso tem servido quer a Ordem dos Psicólogos Portugueses, quer as várias estruturas de saúde em Portugal, que têm permitido chegar às pessoas informação de qualidade. E essa informação de qualidade vem desmistificar por completo aquilo que eram os preconceitos relacionados com a Psicologia, aquilo que eram os preconceitos relacionados com a saúde mental. Acredito que hoje em dia as pessoas estão muito atentas àquilo que é boa informação sobre saúde psicológica e cada vez mais procuram essa boa informação. E nós sabemos que a seguir a boa informação, estamos a falar de boa prevenção e se temos boa prevenção também as pessoas estão mais capazes para perceber a importância do tratamento.

Não acha que há ainda um défice ao nível dos cuidados de saúde mental no Serviço Nacional de Saúde, ao nível das escolas. A ideia que transparece é que a maioria dos psicólogos e psiquiatras está no privado e que não é uma coisa barata. Acha que se deveria melhorar esse acesso ao nível do serviço público?

A ideia de nós termos um desafio do século XXI, esta ideia de nós termos de trabalhar na ansiedade e de termos de trabalhar na saúde psicológica, a questão central é claramente a questão do acesso. O grande desafio que vamos enfrentar nos próximos anos é como é que conseguimos criar respostas de acesso às pessoas. Nós sabemos que claramente é insuficiente a resposta que temos no ponto de vista dos serviços nacionais de saúde, do ponto de vista das escolas muitas vezes. Há um caminho que foi feito até agora claramente, e parece-me que esse caminho terá que ser necessariamente o caminho que nós vamos enfrentar. Ou seja, as pessoas vão procurar e vão pedir cada vez mais acesso, estas respostas que são insuficientes têm que ser criadas e seguramente as estruturas e os organismos responsáveis vão ter que dar essa resposta às pessoas, acho essencial que isso aconteça. Efetivamente, há uma grande parte da área do privado que oferece este tipo de serviços, existe no Serviço Nacional de Saúde - e eu não tenho dúvidas sobre isto - uma boa capacidade naquilo que são os profissionais que lá estão porque são profissionais que são formados cada vez melhor.

Mas não acha que deveria existir um maior investimento por parte do Estado?

Neste momento, eu tenho a certeza que, do ponto de vista estatal, e por causa desta necessidade reconhecida das pessoas, também terá que haver cada vez maior investimento nesta área e será seguramente uma das áreas onde veremos esses investimentos, esperemos já nos próximos anos em que agora há este plano de recuperação económica.

A pandemia contribuiu para os níveis de ansiedade das pessoas?

A pandemia gerou nas pessoas um grande bloco de stresse. Eu quando digo um bloco de stress é porque estão lá dentro vários fatores de stresse, nomeadamente, as mudanças laborais, as mudanças no nosso registo de vida e de modo de vida, as mudanças muitas vezes na forma como nos relacionámos em família, as perdas significativas e a dor que houve em muitas famílias portuguesas. E nós temos estes múltiplos fatores de stresse quando existe uma resposta de stresse continuada no nosso organismo.

Porquê?

O nosso organismo está a responder aos fatores de stresse - por um lado há fatores de stresse, por outro lado, há a nossa resposta do organismo - e essa resposta pode ser uma resposta aguda, no sentido de curta duração, ou crónica, no sentido de longa duração. Nós enfrentámos uma resposta de stresse aguda e, ao longo do tempo, essa resposta foi-se tornando cada vez mais crónica. No fundo, qualquer tipo de resposta que nós tenhamos a esse stresse, a forma como o nosso organismo vai reagir a isso, vai fragilizar aquilo que são condições que nós já poderemos ter, condições psicológicas ou condições físicas, diabetes, asma, etc. Esse conjunto de doenças crónicas são vulneráveis ao stresse e no conjunto de perturbações psicológicas muitas delas são vulneráveis também à nossa resposta do stresse.

O que é que isso quer dizer?

Alguém que até estivesse a ter uma boa recuperação de uma perturbação ansiosa é muito natural que nesta fase tenha sofrido uma recaída. A outra questão são aquelas que não tinham ainda nenhum tipo de perturbação ansiosa ou perturbação depressiva e viram aumentada a probabilidade de terem uma perturbação ansiosa, e o que nós vimos foram vários quadros a aparecer na clínica decorrentes desta situação da pandemia.

Teve um aumento de pacientes ou de número de consultas desde março de 2020?

Sim, eu penso que é geral nesta fase em termos de psicologia. Nós verificámos isso, quer na nossa clínica, quer entre colegas em conversas que tivemos, é de facto muito relevante neste momento a procura de psicologia em Portugal, nomeadamente em Lisboa, que é onde nós temos a clínica. Nós, na Oficina de de Psicologia, aquilo que verificámos ao longo desta situação de pandemia foi um aumento muito significativo da procura de pedidos. Eu penso que há aqui dois, três fatores que justifiquem isto, que foi a questão positiva de algumas pessoas até procuravam já há algum tempo quer disponibilidade financeira, quer do ponto de vista do recurso de tempo, para poder investir num processo de trabalho a propósito de alguma perturbação psicológica que tivessem. A segunda questão deve-se ao agravamento de quadros, quer familiar, quer de situações de stresse, que levaram à procura clínica, e isso é de salutar, muitas pessoas vêm numa lógica preventiva, já sentem os tais sinais de alerta, não querem agudizar. A estimativa neste momento em termos de grandes números é que as pessoas esperam dois anos desde os primeiros sintomas até procurarem um psicólogo. E nós vimos aqui muitas pessoas a terem sensibilidade ao verem os primeiros sinais de alerta e a quererem ajuda para que não agudizem estes quadros e para poderem ter uma resposta rápida.

Fale-me também da questão da ansiedade em doentes com covid-19.

A investigação ainda não é muito clara nesta questão, mas vão aparecendo alguns estudos que mostram que existem repercussões após a presença de covid-19. Muitas pessoas têm a doença, recuperam da infeção, e depois, ao longo do tempo, vão manifestando sintomas psicológicos e algumas das investigações mostram até alterações ao nível do sistema nervoso autónomo, ou seja, o sistema que é responsável pelo nosso estado de alerta. E, portanto, o que é que acontece? Muitas pessoas estão mais sensíveis a estados de ansiedade, por exemplo, e outras pessoas estão com maior nível de cansaço e letargia e dificuldade de reação. Neste estudo, acredita-se que este tipo de alterações têm que ser tidas em conta naquilo que é nossa intervenção e tratamento a partir de agora. Eu tenho a certeza que muitos outros estudos surgirão a começar a mostrar de que forma é que a presença de covid-19 pode ter um impacto significativo na presença de outras perturbações psicológicas ou, pelo menos, na manifestação de alguns sintomas do ponto de vista psicológico e que os clínicos terão de preparar-se e olhar com muita atenção e devem ter isto em conta na primeira consulta se a pessoa teve ou não covid-19.

Agora estamos na fase de regresso à normalidade. Acha que este regresso trará uma nova fase de ansiedade?

Eu penso que nós estamos nesta fase de regresso à normalidade a enfrentar alguns fatores importantes. O primeiro deles é que começaremos a sentir agora também muitas das questões das famílias e da forma como foram gerindo o stresse, nomeadamente o stresse financeiro, as questões económicas, as moratórias, etc. Há um conjunto de situações que vão gerar agora algum nível incerteza. E pessoas que tenham maior vulnerabilidade e que estejam perante situações de maior incerteza neste regresso à normalidade vão ter maior facilidade em começar a estar enrolados em preocupações e começar a sentir que muita da nossa vida pode ficar vedada por essas preocupações. E esse será certamente um dos primeiros sinais de alerta, quando começarmos a sentir persistentemente uma sensação que estamos a voltar uma vida de normalidade, mas, por outro lado, eventualmente estamos a sentir um cansaço que não conseguimos explicar muito bem, que estamos a sentir preocupações persistentes das quais não nos conseguimos livrar.

O trabalho é um fator de stresse e a pandemia trouxe o teletrabalho, que não foi bem recebido por alguns, mas que para outros significou encontrarem o seu espaço de felicidade e que agora estão a ser obrigados a regressar ao local de trabalho. Como é que essas pessoas podem lidar com esse regresso?

Eu diria que aí é particularmente duro e estamos a falar essencialmente de situações de adaptação. A questão essencial é as pessoas terem uma ponderação sobre "estou perante um cenário no qual é possível negociação, no qual é possível compromisso, no qual é possível uma resolução de um problema?". E isto é olharmos para o futuro, com alguma esperança. Do outro ponto de vista, está uma noção em que nós dizemos "não há espaço para negociação", há uma perda clara de um conjunto de sensações, de um conjunto de espaço feliz. E aí estamos perante uma situação mais psicológica, no sentido em que estamos a lidar com uma perda de facto. Eu diria que há aqui desafios individuais, que é quais são as tarefas e aquilo que eu posso fazer para ir transformando esta experiência de perda e ir reagindo de uma forma positiva ou pelo menos adaptativa, e depois um desafio que me parece societário e que é de que maneira também as empresas vão ter que olhar também para o seu papel em ajudar as pessoas a serem mais resilientes. Eu acho que dos dois lados há responsabilidade e dos dois lados temos que fazer necessariamente aquilo que é preciso para que as adaptações, as tais mudanças, a capacidade de perceber "mas será que então é benéfico o teletrabalho e que modalidades são?". Isto vai exigir também às empresas resiliência e capacidade de adaptação à sua própria força de trabalho. Eu acho que há desafios importantes dos dois lados, quer do ponto de vista individual, quer do ponto de vista coletivo.

Também temos o lado das empresas nesta questão do teletrabalho. Acha que as empresas deveriam recorrer a um psicólogo neste processo?

As empresas são sempre constituídas por pessoas. Quando falamos em patrões falamos também depois de cargos diretivos, de um conjunto de pessoas que estão nos vários pontos de direção, nomeadamente de direção de recursos humanos, que influencia também depois os CEO... Aquilo que nós temos vindo a assistir, do ponto de vista de comportamento organizacional, e há psicólogos dedicados ao comportamento organizacional, é cada vez mais uma procura também do trabalho dos psicólogos junto das empresas.

ana.meireles@dn.pt

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