850 transplantes de coração em 30 anos. Portugal é o 12.º da Europa

Portugal está à frente de países como a Alemanha e o Reino Unido no número de transplantes realizados anualmente. Há, atualmente, 40 doentes à espera de um coração no país. A taxa de sucesso desta operação é de cerca de 90%

Em Portugal, cerca de 850 pessoas foram submetidas a um transplante de coração desde 1986, ano em que a equipa do médico Queiroz e Melo realizou o primeiro transplante cardíaco no país. No ano passado, 42 portugueses receberam um coração e, até ao final do mês de agosto, contabilizavam-se 29 transplantes, mas o número de órgãos doados é insuficiente para os doentes necessitados.

Nos últimos cinco anos morreram 36 pessoas à espera de um coração e, neste momento, existem cerca de 40 em lista de espera. Com uma média de 4,9 transplantes cardíacos por cada milhão de habitantes, Portugal situava-se em 13.º lugar na Europa, em 2015, numa lista liderada pela Eslovénia. Segundo Manuel Antunes, chefe do centro de cirurgia cardiotorácica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), o país estava em 12.º lugar no ano passado, com uma média de 4,1 transplantes por cada milhão, "à frente de países como o Reino Unido e a Alemanha", frisou. Valores que o especialista considera "razoáveis".

No CHUC, onde anualmente se realizam cerca de 25 transplantes de coração, estão atualmente 15 pessoas em lista de espera. "Nunca tivemos tantos doentes em lista de espera. Precisamos, no entanto, de algum tempo para perceber se há mais doentes a ser enviados para transplantação ou se há menos dadores, mas, em parte, há falta de dadores", disse ao DN Manuel Antunes, que nos últimos 13 anos efetuou perto de 330 transplantes de coração.

Há cerca dez anos, a maior parte dos dadores de coração eram vítimas de acidentes de viação. "Felizmente, há uma história de sucesso nas mortes por acidentes de viação. Agora, a maior parte dos dadores tiveram AVC e são muito mais velhos. Começam a faltar corações para transplantação", explicou o cirurgião. Enquanto há alguns anos existiam muitos dadores com cerca de 30 anos, hoje assiste-se "a um desvio da idade média de dadores de coração, que está a aproximar-se dos 50 anos". De acordo com o especialista, este é o órgão mais escasso porque, ao contrário do rim e do fígado - os dois mais transplantados -, "o coração envelhece muito mais com a idade". "Podemos ter uma pessoa com 80 anos e com fígado e rins a funcionar, mas o mesmo não é verdade para o coração." Manuel Antunes salientou que, regra geral, não são enviados para as unidades de transplantação corações de dadores com mais de 60 anos. "E entre os 50 e os 60 têm de se fazer estudos específicos, que por vezes não são possíveis nos hospitais" onde se encontram os cadáveres.

Um problema global

Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, diz que "há falta de corações em todo o mundo". "Há mais procura do que oferta. Somos um país envelhecido. E a diminuição dos acidentes mortais também pode ter impacto." Além disso, prossegue, "cada vez há mais indicação dos doentes para transplantação, a medicina tem progredido muito". Na opinião do cardiologista, a lista ativa de espera é "um sinal de consciencialização".

Segundo os dados do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), nos últimos anos têm sido feitos, em média, entre 40 e 50 transplantes de coração por ano, à exceção de 2012 (30) e 2013 (55). "Deveriam ser feitos sete a oito por cada milhão de habitantes, o que quer dizer que em Portugal deveria haver 70 a 80 por ano", adianta Manuel Antunes. Em muitos casos, isso não acontece porque os doentes não procuram um especialista.

Para diminuir a lista de espera é preciso acabar com o desperdício de órgãos. "Existem muitos potenciais dadores que não são identificados como tal, especialmente nos hospitais mais pequenos, onde essa atividade não faz parte da rotina", lamenta Manuel Antunes, destacando que "transformar um morto num dador dá muito trabalho". Para melhorar a colheita, "tem sido feito um esforço para informar as pessoas envolvidas". Por outro lado, perdem-se órgãos porque por vezes são necessários exames que os hospitais onde o cadáver está não dispõem de meios para fazer. Com vista a uma melhoria no número de transplantes, o IPST diz que "o programa de dador em paragem cardiocirculatória, que já decorre no Hospital de São João, está em processo de alargamento a hospitais de Lisboa".

"Coração artificial"

Em março, Portugal assistiu à notícia do primeiro implante de um coração artificial no país. Contudo, como explica Manuel Carrageta, trata-se de um "dispositivo de assistência ventricular, cardíaca", que "ainda não é um coração artificial". De acordo com o cardiologista, o "espírito do equipamento é ajudar na espera por um transplante de coração, mas não é uma solução".

Além de não ser indicada para todos os doentes, esta bomba é, segundo Manuel Antunes, "extremamente dispendiosa e os resultados não são 100% positivos".

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