Costuma dizer que tirou o curso em Portugal, mas que se formou lá fora. A paixão pela cirurgia cardiotorácica levou-o até aos Estados Unidos da América, à Universidade de Portland, no Oregon, e a Harvard, em Boston. Mas o regresso a Portugal impôs na década dos anos de 1980, até para se tornar um dos pioneiros nos cuidados na área da transplantação cardíaca.Chegou ao país em novembro de 1985 e a 18 de fevereiro de 1986 estava a operar a primeira doente, Eva Pinto, no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Ao fim de 40 anos, reconhece que o feito contribuiu para a melhoria dos cuidados no país, sobretudo porque sempre fomos um país onde muito se fala e onde há pouca concretização. “Nós concretizámos", afirma. A este primeiro transplante cardíaco somam-se muitos mais: 346 desde 1986 até 12 de fevereiro de 2026, só no ano passado 21, o maior número de sempre num ano. E em 2016 o Hospital Santa Cruz tornou-se num Centro de Referência para Transplantes Cardíacos de Adultos. Foi neste hospital que Queiroz e Melo fez boa parte da sua carreira clínica, como médico e diretor de serviço de Cirurgia Cardiotorácica, mas fora do meio hospitalar foi também presidente do Instituto do Coração e lecionou como professor visitante em Leiden (Holanda) e Milão (Itália), depois do doutoramento. Tornou-se membro efetivo da Academia das Ciências de Lisboa. Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, recebeu o Prémio Nacional de Saúde, em 2017, e, no ano passado, foi-lhe entregue a Medalha de Serviços Distintos do Ministério da Saúde. Em 2022, preocupado com o caminho que a Saúde está a seguir no país, criou com Luís Campos e José Vítor Malheiros o Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), porque defende que "a prática da Medicina não pode estar dissociada do ambiente e da economia circular, da reutilização do material" . E espera poder ver "Portugal a dar o exemplo à Europa" nesta matéria. . Fez o primeiro transplante cardíaco há 40 anos. Hoje, como olha para esse dia?Olho com muita serenidade. Na altura, o transplante era a sequência lógica em que um grupo alargado de pessoas, que se tinha preparado no estrangeiro e que regressou a Portugal, tinha apostado, com o objetivo de promover e melhorar o tratamento cardiológico no país. O transplante surgiu naturalmente neste percurso, mas, porque, em 1982, também apareceu um medicamento que permitiu obter resultados bons a nível cirúrgico, o que não acontecia até aí. E esse conhecimento fez com que, nós, cirurgiões da área, pensássemos que tínhamos de dar o passo para o transplante cardíaco.Mas em 1982 não estava em Portugal, formou-se lá fora...Digo sempre que tirei o curso em Portugal, mas formei-me nos EUA, fui Senior Residente na Universidade de Portland, no Oregon, e Senior Resident em Harvard, no Children’s Hospital. Mas só entrei na equipa de preparação do transplante em novembro de 85 (três meses antes da cirurgia). Antes, tinha estado um outro cirurgião com essa missão, mas o dr. Machado Macedo chamou-me para tomar esse lugar. Eu conhecia as pessoas indicadas para a equipa e rapidamente tratei de tudo, e conseguimos fazer o transplante a curto prazo. Mas também tenho de dizer que se tal foi possível o devemos à Fundação Calouste Gulbenkian, que nos apoiou financeiramente. Era tudo muito caro, sobretudo os medicamentos indispensáveis ao tratamento, que nem existiam em Portugal, e a ajuda da fundação permitiu que avançássemos. A equipa estava altamente motivada, a acreditar que estava a contribuir para o progresso da Medicina no país. O dr. Machado Macedo, presidente do conselho de administração do hospital, também nos ajudou muito. Foi ele que optou por me chamar a mim e ao dr. Seabra Gomes, também no estrangeiro, para regressarmos ao país e mostrarmos o que sabíamos fazer. Foi uma inovação, porque os grandes senhores da medicina não deixavam os mais novos mostrar o que sabiam. Ele teve um papel fundamental e indispensável na liderança deste grupo.O dia 18 de fevereiro transformou a Medicina em Portugal?Não sei se transformou a Medicina, mas contribuiu muito para que os conhecimentos médicos evoluíssem. Isso sim, seguramente. E se digo isto é porque para se mudar a Medicina tem de se criar uma estrutura. A forma como os cuidados de saúde estavam organizados precisava de enormes melhoramentos, e isso não aconteceu. É claro que o transplante teve uma cobertura exuberante pelos meios de comunicação social e os tempos seguintes eram de ambição para termos condições para fazer mais, mas não tivemos as condições que idealizámos.Nunca tiveram as condições que idealizaram, mas algo mudou na transplantação, não?Olhe, diria que a primeira coisa que mudou foi a aceitação da transplantação cardíaca. Porque não é um procedimento cirúrgico complexo para um cirurgião experiente, o que foi complexo e difícil foi demonstrar que era possível fazê-lo em Portugal numa altura em que o transplante de órgãos trazia discussão e no ano em que entrámos para a União Europeia, éramos um país subdesenvolvido. Mas o transplante foi notícia internacional, e foi muito importante.Chegou a dizer que a transplantação era vista como se se “estivesse a roubar um órgão”, hoje já não existe esse estigma...Não, esse estigma desapareceu rapidamente. Na altura, um jornalista tinha escrito um livro chamado O Escândalo dos Transplantes em que dizia explicitamente que se andavam a retirar órgãos a pessoas que ainda estavam vivas, e que os interesses para fazer transplantes eram muito financeiros. E nós sabíamos que quando fizéssemos o transplante iria falar-se disto, e com alguma razão, porque a lei em vigor dizia que se podia colher órgãos a qualquer pessoa, a não ser que esta tivesse declarado que não queria, mas não havia nenhum meio para se fazer essa declaração e quem morria e podia doar órgãos para a transplantação eram os mais jovens, que não andavam com um papel no bolso a dizer que não deixavam que recolhessem os seus órgãos. A nossa equipa quis falar da lei em público antes de fazer o transplante, mas várias pessoas nos aconselharam a não fazê-lo, porque se o fizéssemos a discussão seria tanta que não faríamos o transplante. Mas a seguir mudou-se a lei - criou-se o RENDA (Registo Nacional de Dadores). Isto foi assim a primeira mudança. Em termos de prática, a base é a mesma de há 40 anos.Olhando para o presente, o que o preocupa nesta área?Uma das minhas missões nos tempos que correm é chamar a atenção para algumas das coisas que acontecem na transplantação e que deveriam ser consideradas para a contribuição da economia circular em Saúde. Ninguém imagina, a quantidade de material que é necessário e que vai para o lixo de forma completamente incompreensível.E porquê?Porque na área dos resíduos hospitalares a regulamentação portuguesa é inaceitável. É uma regulamentação do século passado, totalmente desajustada do conheci mento científico atual - as orientações portuguesas dizem que tudo o que está dentro do corpo humano está infetado e não pode ser reutilizado, o que é mentira. E se houver uma regulamentação que possibilite abrir caminho para a reutilização, por exemplo de dispositivos médicos, estaremos a dar um enorme contributo financeiro ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), ao impacto ambiental e a proporcionar mais saúde. Há muitas pessoas motivadas para esta área e se olharmos para os problemas das alterações climatéricas é a altura para que os reguladores se atualizem.Quer dar exemplos concretos do que pode ser reutilizado?Na transplantação cardíaca, há um número considerável de doentes que têm implantados um desfibrilhador, uma máquina como se fosse um pacemaker, para evitar as arritmias que matam subitamente. São dispositivos muito caros, cerca de 15 mil euros cada um. Estes são logo removidos no momento em que o doente vai ser transplantado e deitados ao lixo. Quando deveriam ser recolhidos, avaliados eletricamente e esterilizados para reutilização. Há experiência mundial suficiente, nos EUA, Canadá e Austrália, que nos últimos 15 anos nos demonstra que isto é possível. Portanto, há conhecimento a demonstrar que isto pode acontecer e Portugal continua a dizer que tudo o que está dentro do corpo humano está infetado.A reutilização desses dispositivos faz-se nesses países?Nos EUA é proibido reutilizar lá, mas os dispositivos são enviados para países pobres para serem implantados noutros doentes, que têm seguimento completo. Mas não há dispositivos para pobres nem para ricos. Há dispositivos que são bons ou maus. E os bons devem ser reutilizados. Na Europa, a reutilização era proibida, mas o regulamento aprovado há cinco anos diz que cada país decide o que fazer. Tenho a ambição de conseguir ver Portugal a dar o exemplo à Europa na reutilização nos cuidados de saúde. É possível, desejável e eficaz.Esse será um dos próximos passos na área da transplantação? Com certeza. Vou dizer-lhe que eu, o dr. Luís Campos e um jornalista, José Vítor Malheiros, somos os fundadores do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA). Foi criado no final de 2022 e o objetivo é chamar a atenção para a necessidade de o país começar a pensar nos impactos ambientais nos cuidados de saúde. Neste momento, já se juntaram a nós mais 106 instituições ligadas à prestação de cuidados de saúde, desde autarquias, sociedades científicas, ordens profissionais e indústria. É uma campanha que todos temos de realizar, porque a única forma de melhorar os problemas que surgem pelas alterações climáticas é reduzir o seu impacto. E este também é possível na Saúde. Aliás, hoje em dia a prática da Medicina não pode estar dissociada do meio ambiente e da reutilização. É absolutamente fundamental que tenhamos consciência que é preciso introduzir a economia circular nos cuidados de saúde.O que é preciso fazer?Temos de mudar a legislação de 1996 que é assustadora, que diz que tudo o que sai de um hospital, de um bloco operatório e até do corpo humanos é um resíduo perigoso e deve ser incinerado. Isto tem de mudar. Espero sinceramente que ainda mude na minha vida, tenho essa esperança.Já apresentou a quem de direito propostas nesse sentido?Falo sobre isto há anos com todas as entidades na área da Saúde e do Ambiente, Ministério da Saúde, Direção-Geral da Saúde, Infarmed e Agência Portuguesa do Ambiente. A esmagadora maioria diz que tenho razão, mas depois nada acontece. A sociedade tem mais consciência do que é preciso mudar e do que deve ser feito, mas somos um país que fala muito e onde é difícil mudar. Não é de agora, somos assim culturalmente.Mas olhando para o estado atual do SNS considera que hoje há mais condições para se fazer transplantação? E que o que se faz está ao nível dos melhores no mundo?Estou certo que existem mais condições, porque a prática é feita por rotina em quatro centros do SNS. Portanto, seguramente que há mais condições. E do que conheço, o que se faz está ao nível da excelência. Mas volto a insistir, Portugal tem recursos limitados e tem de definir prioridades, porque há coisas muito simples que não estão acessíveis a todas as pessoas.Quer concretizar?Quando há listas de espera gigantes para cirurgias e consultas é preciso regulamentar o acesso a intervenções extremamente caras. Não estou a falar do transplante, mas de outras situações de resultados duvidosos e com exemplos recentes. Não quero entrar nessa área, porque é muito de orientação política, mas considero, como médico, pessoa e português, que a nossa grande prioridade deveria ser garantir que todos têm acesso ao mínimo dos cuidados na área da saúde, neste momento isso não é verdade.. Como médico e cidadão, ao fim de 40 anos, tem outras preocupações na área da Saúde?Estou muito envolvido noutra área, porque considero que não é aceitável a forma como alguns doentes terminam a sua presença no planeta Terra. Aliás, lancei uma petição (https://peticaopublica.com/?pi=PT127240),que já entreguei na Assembleia da República para ser discutida. As pessoas têm de saber que a forma como alguns doentes com neoplasias ou doenças extremas terminam a sua vida não é aceitável. Cada um tem de ter a oportunidade de exprimir no testamento vital o que quer que lhe aconteça se chegar uma fase dessas.Fala de eutanásia?Não estou a falar de eutanásia nem de suicídio medicamente assistido. Quero que cada cidadão tenha a oportunidade de dizer o que quer para si quando chegar ao ponto em que já não conhece, não fala, não tem dores, por estar carregado de morfina, e nem é alimentado nem hidratado. Quero que cada pessoa tenha o direito de dizer, dê-me um bocadinho mais de medicamento para o meu coração parar, porque senão a alternativa é o estado da arte da medicina em que a pessoa fica a apodrecer variadíssimos dias numa situação totalmente indigna. E quem tem de tomar esta decisão não é o médico ou a família. É o próprio.A sua petição vai nesse sentido?A minha petição defende que isto seja possível ficar explícito no testamento vital. Fico indignado quando falo disto, eu passei com a minha mulher, e, em Portugal, é assunto que não se fala, vivemos numa cultura conservadora, mas o problema ético existe na mesma, quando se tem de tomar a decisão de deixar alimentar e hidratar. É esta decisão que leva à morte, em que há que escolher entre o mal menor. E para escolher o mal menor é indispensável saber a opinião da pessoa afetada. Esta é uma das minhas preocupações.Há medo de evoluir para essa mudança em Portugal?Há medo da mudança. Toda a minha vida usei o pensamento de um filósofo chinês que viveu 40 anos antes de cristo (a.c.): ‘Queres conhecer a verdade? Olha para a realidade’. E nós em Portugal, não gostamos de olhar para a realidade. E quando se olha fala-se muito, mas depois é difícil de se concretizar. Mas isso foi o que fizemos em 1986 no Hospital de Santa Cruz, concretizámos e acho que conseguimos melhorar os cuidados na cardiologia. .Portugal alcançou marco histórico de transplantes cardíacos em 2024