25 anos da tragédia de Entre-os-Rios: a noite em que o Douro levou 59 vidas
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25 anos da tragédia de Entre-os-Rios: a noite em que o Douro levou 59 vidas

O colapso da ponte Hintze Ribeiro, a 4 de março de 2001, fez cair um autocarro e três automóveis ao rio Douro
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Há 25 anos, na noite de 4 de março de 2001, Portugal foi abalado por uma das maiores tragédias da sua história recente. A ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, no concelho de Penafiel, a Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, colapsou subitamente sobre o rio Douro, arrastando consigo um autocarro e três automóveis. Morreram 59 pessoas

Eram cerca das 21h15 quando a estrutura centenária cedeu. No momento do colapso atravessavam a ponte um autocarro, que regressava de uma excursão e transportava 53 passageiros, e três viaturas ligeiras com seis ocupantes. Em poucos segundos, uma parte significativa do tabuleiro desmoronou-se e os veículos foram engolidos pelas águas escuras e turbulentas do Douro.

A ponte Hintze Ribeiro tinha sido construída entre 1884 e 1887, durante o período em que o país procurava expandir as suas infraestruturas ferroviárias e rodoviárias. A estrutura metálica, assente em pilares de alvenaria de granito implantados no leito do rio, serviu durante mais de um século como uma ligação essencial entre as duas margens do Douro. Era uma travessia muito utilizada pelas populações locais, especialmente pelos habitantes de Castelo de Paiva, que dependiam dela para o acesso a serviços, trabalho e comércio na margem oposta.

A tragédia teve um impacto particularmente devastador nesse concelho. Das 59 vítimas mortais, 54 eram naturais de Castelo de Paiva. Muitas famílias perderam mais do que um familiar na mesma noite, o que agravou o trauma coletivo de uma comunidade relativamente pequena. O choque foi imediato e profundo, espalhando-se rapidamente por todo o país.

As operações de socorro mobilizaram meios de emergência de várias regiões. Bombeiros, mergulhadores, militares e equipas especializadas iniciaram de imediato buscas no rio. No entanto, as condições eram extremamente difíceis. Nos dias anteriores tinham-se registado fortes chuvas e o Douro apresentava um caudal elevado e águas turvas, o que dificultava a localização dos veículos e das vítimas. Ao longo das semanas seguintes apenas 23 corpos foram recuperados. Os restantes desapareceram nas águas do rio.

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As investigações realizadas depois do desastre apontaram para várias causas que contribuíram para o colapso. O quarto pilar da ponte terá cedido devido à erosão das fundações, provocada pela força das correntes e pelo desgaste acumulado ao longo de décadas. A extração intensiva de areias no leito do Douro, realizada durante muitos anos, foi identificada como um dos fatores que fragilizaram a estabilidade da estrutura, ao remover sedimentos que ajudavam a sustentar os pilares.

Também se tornou claro que a ponte apresentava sinais de degradação e que existiam alertas sobre a necessidade de reforço ou substituição da travessia. Nos anos anteriores ao desastre tinham sido feitas advertências por autarcas e por responsáveis locais quanto ao estado da infraestrutura e à urgência de construir uma nova ponte.

A dimensão humana da tragédia gerou uma forte comoção nacional. O Governo decretou dois dias de luto nacional e milhares de pessoas participaram nas cerimónias fúnebres em Castelo de Paiva. Menos de 24 horas depois do colapso, o ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, apresentou a demissão, assumindo responsabilidade política pelo sucedido. O gesto marcou um dos momentos mais simbólicos da reação institucional ao desastre.

Seguiram-se investigações técnicas e processos judiciais destinados a apurar eventuais responsabilidades na manutenção da ponte e na gestão da exploração de areias no rio. Apesar do longo processo, os tribunais acabariam por não produzir condenações penais definitivas. Ainda assim, a tragédia desencadeou um debate profundo sobre a fiscalização das infraestruturas públicas, a segurança das pontes e a regulação da atividade extrativa nos rios portugueses.

Durante meses, a queda da ponte deixou as populações das duas margens com mobilidade fortemente condicionada. A travessia passou a ser assegurada por barcos e ligações provisórias até à construção de uma nova ponte rodoviária na zona, inaugurada em 2002.

No local onde ocorreu o desastre foi erguido um memorial às vítimas. A escultura, conhecida como “Anjo de Portugal”, ergue-se junto ao rio e guarda os nomes das 59 pessoas que perderam a vida naquela noite. Todos os anos, a 4 de março, familiares, autarcas e habitantes da região juntam-se para assinalar a data e recordar as vítimas. Em silêncio, são lançadas ao Douro 59 flores — uma por cada vida perdida.

Um quarto de século depois, a tragédia de Entre-os-Rios continua presente na memória coletiva do país e, sobretudo, na vida das famílias que ficaram. Para muitos, a noite em que a ponte caiu não terminou verdadeiramente. Permanece como uma ferida aberta na história recente de Portugal.

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