10 minutos e 20 segundos bastaram para Mário Ferreira ser astronauta

Veja o vídeo no interior da nave. Pela sexta vez consecutiva, a companhia aeroespacial de Jeff Bezos fez um voo suborbital perfeito, recuperou cápsula e foguetão para os reutilizar e permitiu a mais seis pessoas saber o que é ir ao espaço. Uma delas, pela primeira vez na história, um português.

Tanto quanto os técnicos sabiam, apenas o mau tempo poderia impedir o empresário Mário Ferreira de se tornar, esta quinta-feira (4), o primeiro português a ir ao espaço. E durante a madrugada houve mesmo uma tempestade que não ajudou...

De tal forma que a Blue Origin, a empresa aeroespacial criada pelo fundador da Amazon, Jeff Bezos, acabou por adiar um pouco o voo da missão NS-22. O foguetão estava já na torre de lançamento -- uma peça de engenharia adquirida à NASA e restaurada e modificada pelos especialistas da empresa privada sediada no Texas -- e os tripulantes, já no interior da cápsula New Shepard, esperavam pela "luz verde" da sala de controlo.

A Blue Origin acabaria por informar que o voo seria atrasado 20 minutos, por precaução. Na realidade, Mário Ferreira e os outros cinco companheiros de viagem acabariam por ter de esperar 26 minutos além da hora inicialmente marcada. Foi às 14h56 de Lisboa que o engenho partiu do Launch Site One rumo ao espaço.

Menos de cinco minutos depois, os instrumentos a bordo mediam a altitude máxima atingida: 107km acima do nível do mar. Estava mais do que ultrapassada a Linha de Kármán, a fronteira internacionalmente reconhecida entre a terra e o espaço, que fica a uma centena de quilómetros de altitude. Todos os passageiros a bordo da cápsula automatizada estavam, tecnicamente, no espaço.

E, como tal, passaram a ser astronautas.

Sonho quase duas décadas

"Esperei 18 anos por este momento", diria depois, já em terra, Mário Ferreira, num curto vídeo emitido pela CNN Portugal - canal de que é acionista de referência. "Espero ter uma bela fotografia."

Além do português, a bordo foi também a primeira egípcia, a engenheira Sara Sabry. E a montanhista britânica-americana Vanessa O'Brien, que completou o recorde do Guinness Explorers' Extreme Trifecta, um feito em que alguém chega aos extremos da terra, mar e ar.

Os outros tripulantes da NS-22 foram Coby Cotton, cofundador da empresa de entretenimento Dude Perfect, Clint Kelly III, um especialista em tecnologia que contribuiu para o desenvolvimento de carros autónomos, e Steve Young, ex-responsável de uma empresa de telecomunicações que agora está no negócio dos restaurantes.

Surpresa e alegria na "gravidade zero"

Durante algumas dezenas de segundos, enquanto a cápsula passava o período de apogeu e antes da abertura dos três paraquedas que a traria de volta ao solo, os seis passageiros puderam experimentar "gravidade zero" -- estiveram em queda, ou seja, tiveram a mesma sensação de microgravidade que sentem os tripulantes da Estação Espacial Internacional, por exemplo.

Foi-lhes dada a ordem de retirarem os cintos de segurança e foi possível ouvir, captado pelos microfones a bordo, os gritos de surpresa e alegria dos seis turistas espaciais enquanto flutuavam, davam as mãos e observavam, pelas amplas vigias da cápsula, a paisagem exterior.

Veja as imagens:

Àquela altitude, é perfeitamente visível a curvatura da Terra, o negro do espaço e os limites da atmosfera azul do nosso planeta.

Enquanto o foguetão pousava verticalmente no solo, usando os seus próprios reatores para desacelerar -- no caso deste engenho pela oitava vez consecutiva -- a cápsula abria os seus paraquedas. É a 23.ª vez consecutiva (incluindo todos os testes) que a Blue Origin o faz com este tipo de cápsulas. Tudo somado, a empresa de Jeff Bezos vai dando passos para demonstrar que a reutilização de aparelhos espaciais está cada vez mais fiável.

Ao todo, a missão NS-22 durou 10 minutos e 20 segundos. A velocidade máxima atingida foi de 3603 quilómetros por hora.

São já 35 as pessoas no mundo que foram ao espaço e, com o crescimento do turismo espacial, o número só tenderá a aumentar. Se este tipo de voos não são, de facto, um passo de gigante para a humanidade, pelo menos neste dia, para um português -- e não só -- a experiência foi, seguramente, inesquecível. E estas missões ajudam (e muito) a desenvolver a tecnologia para que possamos, todos, no futuro, ir mais além.

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