E por que não usar a Inteligência Artificial (IA) para evitar defeitos na produção de tecidos, poupar dinheiro e desperdício às fabricas e salvaguardar o ambiente? É isto que três jovens engenheiros portugueses andam a fazer com a sua Smartex, a empresa que partiu como projeto universitário, em 2018, passou a startup em 2019 e já migrou para scale-up dado o seu nível de crescimento nos últimos 3 anos. À conversa com o Dinheiro Vivo, António Rocha, cofundador e CTO da empresa, explicou como está a correr esta evolução meteórica e que o representou a sua empresa ter sido há uma semana distinguida com uma Menção Honrosa no concurso Santander X Global Challenge | The AI Revolution, no qual havia mais de meia centena de candidatos de 11 países.."A Menção Honrosa do Santander X, para nós, além de representar uma honra, passando o trocadilho, tendo em conta a globalidade e o número de empresas envolvidas, representa também que estamos na direção certa no nosso objetivo primário de reduzir ao máximo o desperdício da indústria e torná-la não só mais sustentável, mas também mais transparente", disse ao DV António Rocha, engenheiro físico e responsável pela tecnologia da Smartex..Agora, a empresa e os seus três sócios cofundadores - todos engenheiros formados na Universidade do Porto (FEUP), Gilberto Loureiro, o CEO e homem da ideia, porque chegou a trabalhar numa fábrica de Barcelos e detetou o problema, e que tal como António Rocha tirou Engenharia Física, mas fez uma pós-graduação em Finanças; e Paulo Ribeiro, que optou por Sistemas e Redes Informáticas - pertencem à comunidade Santander X 100, uma rede onde as mais prometedoras startups e scale-ups dos programas Santander X partilham experiências e ideias, redes de contactos e clientes, treino, capital e outros recursos de valor..Apesar da distinção, o responsável da Smartex não se deixa deslumbrar, porque logo a seguir, comenta: "E não obstante, [representa] o facto de ainda estarmos muito, muito, muito no início dessa mudança que queremos trilhar, ainda temos muita coisa para fazer.".Em apenas 4 anos, a Smartex e os seus fundadores já venceram o pitch da Web Summit de 2021, captaram várias rondas de investimento, a última das quais em finais de 2022 no valor de 24,7 milhões de dólares (25 milhões de euros, à época), e foram eleitos em 2020 pela revista Forbes para a lista dos 30 under 30 da Europa, isto é, os 30 melhores talentos europeus com 30 anos ou menos..Hoje, diz António Rocha, a empresa tem 150 trabalhadores - "o número muda mais ou menos constantemente: estamos a crescer muito rápido e sempre a contratar pessoas novas" -, dois escritórios, no Porto e em Istambul, mas colaboradores também no Brasil, na China, na Holanda e na Índia. "Temos uma faturação, sem dizermos exatamente os números, na ordem das dezenas de milhões e estamos presentes em 12 países a nível mundial, em termos de vendas", acrescenta.."Fazemos sistemas de automação de controlo de qualidade para a indústria têxtil, baseados em Inteligência Artificial e, dessa forma, evitamos o desperdício têxtil, que é a terceira indústria mais poluidora do mundo", diz o CTO..E isto faz-se, explica, instalando "câmaras e outros sensores em máquinas de produção têxtil - em teares - e inspecionando as imagens". "Estas câmaras captam imagens da produção em tempo real e inspecionam as malhas nas próprias máquinas em que estão a ser produzidas. Nós analisamos, com algoritmos de Inteligência Artificial para detetar os defeitos desta produção, e evitamos, parando as máquinas e ajudando os operadores a corrigirem os defeitos que advêm destes problemas.".Evita-se, assim, artigos com defeito cujo fim era, na maioria das vezes, aterros, além do desperdício de energia e mão-de-obra, frisa o CTO..Para isso, a Smartex desenvolve, em termos de software, além dos algoritmos de Inteligência Artificial, os modelos de machine learning, sistemas de rede que depois instala nos clientes para analisar imagens e sensorização. Na parte de hardware, além das câmaras, os sistemas óticos (lentes, etc.), a eletrónica que os controla e os invólucros que os protege. Tudo isto é desenhado pela Smartex e dado a produzir em outsourcing..Por tudo isto, pode não ser barato contratar a Smartex: consoante o tipologia da máquina do cliente pode custar entre 3000 e 6000 euros por ano por máquina. Mas "após 14 meses, os nossos clientes pagam, em média, o investimento que fazem no nosso produto", garante António Rocha..O futuro da Smartex é para o CTO e seus cofundadores muito claro: continuar a crescer e expandir o negócio, não só nos mercados existentes, mas também em novos mercados, embora a aposta mais forte seja nos mercados já conquistados, garante António Rocha..Além disso, a Smartex quer "aportar valor de uma forma anexa" ao que já faz. Isto é, além de se focar em evitar o desperdício, a deteção de defeitos e em caracterizá-los, quer também passar a dedicar-se à rastreabilidade da produção, da origem dos materiais e da qualidade dos mesmos. "Estamos a responder a necessidades que temos identificado no mercado, muito em parceria e com apoio dos nossos clientes-parceiros, que nos ajudam muito a desenvolver novas tecnologias para resolver problemas reais", disse António Rocha..E é possível adaptar a tecnologia Smartex a outros produtos que não tecidos, no futuro? "Sem dúvida. Desenvolvemos o nosso hardware e os nossos modelos até IA sempre com o mantra de serem escaláveis para outras indústrias anexas à têxtil, indústrias que sofrem dos mesmos problemas e cujos processos são relativamente semelhantes: a indústria do metal, a indústria de papel, que funcionam também em modo de rolos de malha ou de tecidos, digamos. Neste caso, o rolo de papel e rolo de folhas de metal. No entanto, ainda temos aqui muito espaço para crescer dentro da nossa querida indústria têxtil, ainda temos aqui muita coisa para vencer, muitos problemas a resolver.".Notícia originalmente publicada a 08/07/2023