Com a economia a crescer, sucedem-se os alertas das empresas da falta de mão de obra disponível: só as indústrias tradicionais, a construção e a hotelaria e restauração reclamam quase 147 mil pessoas. Isto apesar de haver, ainda, 424 mil desempregados em Portugal em novembro de 2017, segundo os dados do INE. Para os sindicatos, o problema está na “política de baixos salários e de trabalho precário” que leva a que “os melhores profissionais emigrem”. As associações patronais falam em desajuste entre a oferta e a procura e reclamam a criação de condições para a “receção seletiva” de imigrantes qualificados..Calçado, têxtil e vestuário e metalomecânica são das indústrias mais penalizadas. Em conjunto estimam precisar de quase 37 mil funcionários, 28 mil dos quais só para a metalomecânica. Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP, assegura que “as especificidades do setor” levam a que as profissões sejam “exigentes” e, por isso, “relativamente bem pagas”: em 2017 o salário médio foi de 932,75 euros, mas o ganho médio (que inclui as outras componentes salariais) ascendeu a 1088,20 euros, diz. “Posso-lhe garantir que não há soldadores, técnicos de cad-cam ou operadores de máquinas inscritos nos centros de emprego. Há um desajustamento entre as necessidades do mercado e a oferta. É um problema estrutural do país, não estamos a formar as pessoas adequadas para o tipo de empresas que temos”, argumenta..A falta de formação especializada "dificulta muito o recrutamento", refere o dirigente associativo, sublinhando que tivemos, nos últimos dois ou três anos, um "enorme desinvestimento" na formação dedicada ao setor - em consequência das cativações orçamentais - e isso "prejudicou muitíssimo" a quantidade e qualidade da oferta de mão-de-obra. "Felizmente, pela leitura da Lei do Orçamento, parece que esse desinvestimento vai parar. Todavia, os prejuízos causados foram enormes e levarão alguns anos a ser compensados", frisa Rafael Campos Pereira. Sobre os milhares inscritos, ainda, nos centros de emprego, este responsável sublinha que, "infelizmente, não têm as competências necessárias" ao setor, mas admite que algo deveria ser feito: "Se os pudéssemos formar em áreas que são necessárias ao mercado, isso seria, também, uma forma de contrariar as estatísticas e aumentar a empregabilidade"..Paulo Vaz, diretor-geral da ATP, estima que a fileira têxtil poderia criar, de imediato, pelo menos, sete mil empregos. A falta de atratividade da indústria é um dos problemas, diz, levando a que “os jovens se sintam mais mobilizados” para os serviços, as tecnologias de informação e o turismo, “mesmo quando estas atividades são pior pagas e com carreiras profissionais mais incertas”. E no caso do têxtil e vestuário, a situação é, ainda, mais problemática porque a indústria "está a recuperar de uma má imagem que, durante décadas, lhe foi criada por responsáveis políticos, opinion makers e sindicatos, que a conotaram com uma indústria obsoleta, de salários baixos, com reduzida intensidade tecnológica e sem futuro"..Paulo Vaz garante que o salário médio no setor ronda os 800 euros, nas atividades mais operativas, mas que os valores "sobem exponencialmente" nos quadros técnicos, serviços e direção, que "vão tendo um peso crescente na estrutura de pessoal". E assegura que a carência de pessoal tem "determinado a subida natural das remunerações". Para o diretor-geral da ATP, o sistema de apoio social ao desemprego "incentiva à permanência nesta situação, usufruindo dos subsídios até ao limite do tempo", pelo que considera que defende que estes deveriam ser “mais seletivos”, beneficiando quem precisa e “não promovendo a acomodação no sistema”..O têxtil pede, ainda, a criação de um sistema de green card, a exemplo do que existe nos EUA, que “possibilite a receção seletiva de trabalhadores imigrantes qualificados”, e advoga a deslocalização da produção, quer para concelhos onde exista mão-de-obra disponível, quer para outros países, designadamente para Marrocos, sempre mantendo o centro de decisão, com a criação e a engenharia de produto, em Portugal, de modo a que "a maior parte do valor se retenha" no país..Esta estratégia de deslocalização interna, com a construção de novas fábricas no interior, tem já sido seguida pelo calçado, que, há anos, se debate com o esgotamento da mão-de-obra disponível nas zonas de forte concentração da indústria, como Felgueiras. Castelo de Paiva, Paredes de Coura, Celorico e Cabeceiras de Bastos foram os concelhos escolhidos. O setor, que criou nove mil empregos nos últimos anos, admite que, atualmente a falta de trabalhadores é menos sentida, mas sempre poderá precisar de mais 1000 a 1500 pessoas durante este ano. "Temos vindo a empreender várias campanhas de sensibilização junto dos mais jovens para demonstrar o potencial de crescimento e de futuro na fileira do calçado em Portugal, numa perspetiva de podermos alterar este cenário no médio prazo", diz Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da associação do calçado, a APICCAPS..O campeão das necessidades é a construção, com 60 a 70 mil trabalhadores em falta. E é, também, dos setores que mais trabalhadores perdeu para o exterior: 240 mil. O presidente do sindicato, acredita que, com um ganho médio de mil euros, já fosse possível convencer muitos deles a regressar. Ricardo Gomes, presidente da federação da construção (FEPICOP), acredita que, à medida que o setor volta à normalidade, os salários vão começar a crescer. "Têm que subir, para se fazer regressar quem saiu do país", diz. Senão, será necessário ir buscar trabalhadores lá fora. "Já propusemos ao Governo que se começasse a fazer algo semelhante ao que a Suíça fez há muitos anos em Portugal, que é ir aos centros de formação lá fora pedir que se formem profissionais nas áreas que nos fazem falta, garantindo-lhes emprego e visto", explica. E a que países poderíamos recorrer? "À Moldávia, à Ucrânia... Vieram muitos na época da Expo e estão muito bem integrados na sociedade portuguesa", defende Ricardo Gomes..Albano Ribeiro recusa que a solução seja essa. "Não que se repitam as situações que vimos nas construções dos estádios para o euro 2004, em que havia engenheiros do leste a ganhar o salário mínimo em Portugal. Não é esse tipo de mão-de-obra que Portugal precisa. Precisamos de trabalhadores que sejam valorizados", defende..Por fim, a restauração e alojamento reclama 40 mil trabalhadores para fazer face ao ritmo de crescimento do sector. A Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) admite que metade das empresas da restauração tenham faltam de mão-de-obra, o que estará a impedir novos investimentos. O sindicato garante que o problema do setor são “os baixos salários, as más condições de trabalho, os horários de trabalho infindáveis, o não pagamento dos feriados ou o trabalho ilegal e clandestino”. E embora a AHRESP assegure que o ganho médio do canal HORECA (hotelaria, restauração e cafés) ronda os 920 euros – valor bem distinto dos 621 euros divulgados pela Segurança Social, por incluir, diz a associação, as remunerações complementares, como o trabalho suplementar ou em dias de descanso – o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte frisa que “cerca de 80% dos trabalhadores da restauração recebem o salário mínimo nacional”. A associação patronal nega..Para o secretário-geral da CGTP, o problema está na “desvalorização” dos trabalhadores em Portugal, levando “os mais qualificados e competentes” a emigrar, à primeira oportunidade. “Agora, faltam profissionais. A melhor forma de os recuperar é assegurar-lhes estabilidade de emprego e melhores condições de remuneração”, diz. Arménio Carlos lembra que hoje 23,2% dos trabalhadores portugueses são abrangidos pelo salário mínimo nacional, quando, há seis anos, eram, apenas, 11%. O problema é que, com a subida do salário mínimo e a contratação coletiva "bloqueada", há uma série de grelhas salariais imediatamente acima que foram sendo absorvidas. "Hoje, as empresas têm uma série de profissionais com experiências e competências muito diversificadas que estão todos a receber praticamente o mesmo. É uma lógica que desvaloriza o trabalho e as profissões", defende.