Sem mãos e sem pés: experiência num carro autónomo

"A partir de agora não estou a tocar no volante". Se ninguém nos tivesse dito isto, não saberíamos que tínhamos acabado de entrar em piloto automático. O Tesla Model S está a andar sozinho. O piloto da Bosch tem as mãos fora do volante e os pés longe dos pedais.
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"Mas não está mesmo a tocar em nada?", perguntamos.

"Garanto-lhe que não", assegura o piloto da fornecedora alemã.

Estamos em Boxberg, num centro criado pela marca alemã para estas apresentações, a 100 km de Estugarda, cidade onde a Bosch foi fundada em 1886. Apenas um monitor ao lado do mega-tablet, de 17 polegadas, da viatura norte-americana denuncia que estamos noutra realidade. O carro está a ser gerido por seis sensores, responsáveis por todos os cálculos. Só assim é que o veículo se mantém na estrada. Além disso, os sistemas de navegação, de alta precisão, recebidos através de uma antena no exterior, por cima da bagageira, garantem a segurança da nossa experiência.

Seguimos um percurso do centro de testes de Boxberg. Sucedem-se as curvas e o sistema começa a enfrentar vários desafios: será que vai respeitar o limite de velocidade? Vai parar no stop? Não vai bater contra o carro da frente? Vamos continuar na estrada?

Há duas minicâmaras de vídeo que reconhecem, a mais de 50 metros e a três dimensões, linhas, sinais de trânsito e espaços livres para uma possível ultrapassagem. Temos um Ford Fiesta à nossa frente, a circular a 25 quilómetros por hora. Só que os sistemas da Bosch, como não encontram espaço suficiente para ultrapassar, mantêm o Tesla em ritmo de "pisar ovos".

Mais adiante - depois de o Fiesta ter saído da nossa frente - começamos a andar cada vez mais depressa, até aos 85 quilómetros por hora. Como o circuito era estreito, a velocidade não era assim tão reduzida. Surge um sinal que limita a velocidade. O carro reduz para 60 km/h, cumprindo as regras.

Mas como se trata de um protótipo, este automóvel ainda não trava suavemente. A Bosch quer fornecer às marcas um sistema que reforce a sensação de conforto dos passageiros. A marca alemã lembra ainda que, até aos 60 km/h, é possível fazer uma travagem de emergência sem intervenção do condutor, graças ao travão eletromecânico iBooster e ao controlo de estabilidade (ESP), que reduzem a distância necessária para parar a viatura.

O automóvel respeita ainda o stop num cruzamento e só avança depois de a estrada ficar livre. O tal monitor ao lado do mega-tablet mostra-nos quantos carros estão em cada lado. Se confiar nos dados, nem é necessário olhar para a esquerda ou para a direita.

Não será possível, no entanto, conduzir um carro sem ter licença: as pessoas continuarão a ter a última palavra a dizer. Através de dois botões, que terão de ser pressionados em simultâneo por três segundos, o condutor poderá voltar a tomar as rédeas do automóvel.

Tecnologia pronta em 2020

Encontrar veículos sem condutor poderá ser possível daqui a cinco anos, prevê a Bosch. A legislação é o maior obstáculo aos progressos da empresa fundada em Estugarda. As regras de circulação automóvel, estabelecidas pela Convenção de Viena, de 1968, impedem que qualquer veículo circule nas estradas sem ser conduzido pelo ser humano. A criação de grupos de trabalho é um dos passos para que este regulamento possa ser mudado.

As alterações à lei, propostas em 2014, poderão ser feitas no final deste ano, perspetiva Stephan Stass. Cada país, a partir daí, pode subscrever estas mudanças, que permitirão, numa primeira fase, aumentar o número de testes, antes de estes veículos começarem a ser comercializados junto dos construtores, acrescenta o vice-presidente da área de sistemas de apoio à condução.

As autoestradas serão as primeiras vias a permitir a circulação das viaturas auto-pilotadas. A partir de 2025, aponta a Bosch, a tecnologia poderá ser usada em todo o tipo de vias de circulação.

*O jornalista viajou a convite da Bosch

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