Os acontecimentos atuais convergem para situações de uma profundidade obscura tão grande que é preciso atenção ao interpretá-los, e nem toda gente tem paciência para isso..Foi-se o tempo em que ações convencionais ou projetos triviais eram os que resultavam. Nada mais é tão simples quanto parece ser, sempre há algo por trás..Enquanto a Covid-19 trava o Planeta e causa imensas mortes, há quem acredite que não é bem assim. Um deles é o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que comparou o corona vírus a uma gripezinha que só traria risco aos idosos. Pessoas como ele desprezam o uso de máscara, não respeitam o isolamento social, saem às ruas a cumprimentar os seus adeptos e, parece que de propósito, passam a esfregar o nariz e a tossir aqui e acolá, sem cerimónia..Os seus eleitores, que se transformaram em seguidores, como aqueles de Jim Jones – pastor americano maluco que envenenou mais de 900 no seu templo nas Guianas - vão ao êxtase. Vestem camisolas da equipa nacional, enrolam a bandeira do país no corpo, erguem a dos EUA e de Israel e saem às ruas a visitar diariamente a residência oficial..Não por acaso a maioria deles, entre outras coisas espantosas, acredita que a terra é plana e que viver um regime de exceção é o melhor dos mundos. Mas alto lá! Isso não acontece só no Brasil. Como sabemos a extrema-direita ganhou espaço nos últimos anos em quase todos os países..Esse grupo nos inseriu na era onde ninguém mais quer um modelo de verdade absoluta. Cada grupo quer construir a sua versão, ajustada ao seu modo de vida e expectativa de felicidade, ainda que essa verdade sirva apenas para sustentar o projeto de poder. É, no fundo, o menosprezo à verdade..Foi assim que o governo brasileiro tentou editar as estatísticas sobre a Covid-19 no país para criar a sua própria verdade sobre o tema. De uma hora para a outra o modelo anterior – que apresentava as mortes diárias somadas àquelas que haviam sido confirmadas por laboratórios naquele dia – não servia mais..Ao subtrair a confirmação dos testes de mortos de dias anteriores, o número total diário cairia vertiginosamente. Eles haviam morrido e os laboratórios não dão conta de apresentar os seus resultados no mesmo dia. Mas morreram e não haviam sido contabilizados. Portanto, o número novo era a mais pura distorção da verdade..As eleições americanas, copiadas pela brasileira, fez uso desse mecanismo de distorção da realidade por meio das redes sociais. As equipas dos candidatos vencedores inundaram os eleitores com fake news, mentiram sobre fatos históricos na tentativa de desconstruir a verdade..Esse enredo se assemelha incrivelmente ao livro 1984, de George Orwell. Uma distopia que nos apresenta uma sociedade conduzida por um governo ultraconservador, que usa como estratégia para perpetuar-se no poder, controlar a todos num imenso big brother e apagar o passado..No livro eles criam o Ministério da Verdade, a quem caberia distorcer aquilo que remetia ao passado e qualquer coisa que se lembre o quanto era bom. Alterar a verdade histórica, manipular modelos estatísticos, os números, era a base do processo..Embora isso tudo pudesse ser feito ao se reeditar livros, registos e anotações, havia um problema: as memórias das pessoas. Como evitar que elas carregassem o modelo de comparação nas suas mentes?.Como as pessoas expressam os seus sentimentos com palavras, expõem as suas lembranças a contá-las ou descrevê-las, se tivéssemos um idioma de limitadas palavras teríamos dificuldades em explicar os nossos próprios sentimentos. Assim, com o tempo, eles seriam esquecidos..Criaram, então, um novo idioma com poucas palavras, o mínimo possível, a Novilíngua. De facto, a memória passou a ser apagada ao passo em que pouco se falava sobre ela, até que foi esquecida. O povo começou a passar fome e como não tinha lembrança do que era não passar fome, não reclamava. Quem comanda tudo é o Big Brother..Sugiro imenso a leitura dessa obra, aqui fiz uma breve e rasteira analogia. O livro, um hit da literatura mundial, apresenta a alienação a partir do controlo do pensamento, da vigilância de cada movimento, do conceito de que é possível doutrinar com um imaginário coletivo..Isso é tão real quanto a Covid-19. Atualmente temos a imprensa a ser bombardeada, historiadores ridicularizados, factos históricos sendo considerados mentiras, debates menosprezados e, como resultado, a exaltação da ignorância, do nonsense, da agressividade, o desprezo aos ritos, aos símbolos, à literatura, à história… o desprezo à vida..Quando vemos um policial a asfixiar um cidadão já dominado até a morte, podemos perceber que há algo de muito errado nesse roteiro distópico..Parece mesmo que mergulhamos no livro de George Orwell..Paulo Cardoso de Almeida, jornalista e designer brasileiro