E se pudesse poupar entre 250 a 300 euros na conta da luz, no espaço de um ano? E, além disso, ainda deixar de usar gás em casa para aquecer a água dos banhos, por exemplo? Estas são as principais conclusões do projeto Sensible, promovido pela EDP em parceria com a Siemens e o INESC TEC, e a decorrer no terreno na aldeia alentejana de Valverde (em Évora) desde julho de 2017.."Ao nível dos clientes residenciais, com dados de um ano, observa-se uma poupança na casa dos 250 a 300 euros/ano (produção fotovoltaica e armazenamento em modo de autoconsumo), que se estima poder ainda ser potenciada em cerca de 20 a 25% pela introdução de mecanismos de gestão da flexibilidade avançados", revelou esta segunda-feira João Maciel, responsável da EDP New, na apresentação de resultados do projeto..No total, as 25 famílias de Valverde que participaram no projeto pouparam 6600 euros num ano, o que representa uma poupança média de 25 euros por mês na conta da luz.."Há uma poupança muito grande, de cerca de 350 de poupança em 11 meses. Todos os meses pago menos na fatura da luz. Em média são menos 3o euros por mês. Mas a poupança maior diz respeito ao gás, porque além dos painéis solares e da bateria temos um termoacumulador e deixámos de consumir gás. É uma poupança a triplicar. Antes gastávamos cerca de duas garrafas de gás por mês, a uma média de 25 euros por garrafa", contou ao Dinheiro Vivo Fernando Mendes, um dos moradores de Valverde que participou no projeto Sensible. "Isto é o futuro. O Alentejo é sol e temos aqui 12 meses de sol por ano. Há que aproveitar esta energia e agora não só produzimos para nós como ainda enviamos eletricidade em excesso para a rede"..Para já, esta poupança está acessível apenas aos participantes do projeto Sensible (que teve o seu início já em 2015 e terminará no final deste ano), todos eles moradores de Valverde, mas o objetivo da EDP é escalar o projeto a um universo maior, assim que sejam ultrapassados os constrangimentos económicos (a começar pelos preços ainda elevados das baterias) e regulatórios que ainda persistem..Presente na apresentação das conclusões do projeto, em pleno Alentejo, João Marques da Cruz, administrador da EDP, garantiu no entanto que este cenário poderá ser uma realidade no espaço de cinco anos.."Estes projetos não são só de investigação pura. Nós só apostamos em algo que, mesmo que não possa ser escalável no imediato, por razões económicas e regulatórias, tenha capacidade de o ser a médio prazo. As redes de distribuição vão ser cada vez mais complexas, com equipamentos de armazenamento, baterias, em média ou baixa tensão. É normal que a evolução seja essa", disse o membro do conselho de administração da EDP, acrescentando: "Se me pergunta se os custos de hoje já o permitem, sou o primeiro a dizer que ainda não. Mas há uma redução nos preços dos equipamentos de storage [baterias] que já se verifica. Os painéis solares já tiveram reduções de preço de 60 a 70% nos últimos três anos. Esta evolução permite novas soluções que garantam melhor qualidade do serviço de eletricidade"..No que diz respeito à regulação, João Marques da Cruz diz que tem de "seguir a inovação". "A regulação [ERSE] vai ter de incluir a realidade do storage nas suas várias componentes. Com este projeto quisemos mostrar, primeiro, que é possível tecnicamente, que é viável para uma comunidade local. Falta a demonstração que há viabilidade económica, em determinadas condições, num horizonte temporal que não seja de longo prazo", disse o administrador da EDP..A mesma visão é partilhada por João Maciel, responsável do projeto Sensible. "O autoconsumo é uma tendência forte do setor. As pessoas querem ter energia fotovoltaica, querem ter produção própria de eletricidade, o cliente é ativo, quer decidir. Isso vai acontecer e nós temos de seguir a tendência. A EDP quer vender e energia, quer vender serviços e flexibilidade. Temos de acompanhar a evolução"..O responsável da EDP cita a Bloomberg, que prevê que entre 2020 e 2022 as baterias terão já um custo competitivo para muitas aplicações. "Quanto mais competitivas são as baterias, mais são soluções reais para os clientes e as redes de distribuição. Entre 200 a 400 euros por KW/h seria já um valor competitivo"..Para o futuro do projeto Sensible, João Maciel quer também que os 30% de energia gerada pelos painéis fotovoltaicos de Valverde que ainda são injetados na rede (ou seja, que não são usados para autoconsumo nem armazenados nas baterias) sejam geridos de forma mais inteligente: ou seja, partilhados de forma flexível entre um conjunto de clientes (algo que não existe na oferta comercial), ou então usados como fonte local de energia para a rede de baixa tensão. "Evoluindo a regulação nesse sentido, o cliente pode receber um incentivo tarifário, ao nível do preço, para poder disponibilizar a energia para a rede". Outra hipótese, diz, passa ainda por colocar a energia excedente numa pool comum, para depois ser vendida por leilão aos comercializadores. Mas "ainda não há enquadramento regulatório para fazer esta agregação", diz João Maciel..Financiado pelo Programa Horizonte 2020 da Comissão Europeia, que lhe atribuiu o estatuto de "projeto bandeira" e até já enviou emissários a Valverde para ver o projeto em funcionamento, o Sensible foi lançado em 2015 e "visa a demonstração de tecnologias de armazenamento e gestão de energia, com o objetivo de dotar a rede de distribuição de ferramentas que permitam uma gestão otimizada em cenários de forte penetração de produção renovável distribuída e, ao mesmo tempo, desenvolvendo modelos de negócio inovadores, envolvendo gestão da flexibilidade energética de clientes das empresas de comercialização"..Com 14 parceiros de seis países europeus e 15 milhões de euros de orçamento, o projeto Sensible tem uma componente de demonstração, liderada pela EDP (NEW R&D – Centre for New Energy Technologies), com três demonstradores: em Portugal, no Reino Unido e na Alemanha..O demonstrador português abrange cerca de 250 clientes. Para além de sistemas de microgeração fotovoltaica (que abrange 10% da população de Valverde, ou seja, 25 casas de um total de 250), foram ainda instalados sistemas de gestão de energia, baterias e também termoacumuladores inteligentes, permitindo não só a produção de energia, mas também uma eficaz gestão de consumos de eletricidade..Na rede de distribuição da região, dotada de equipamento de redes inteligentes de última geração, foram também instalados sistemas de armazenamento e um sistema de automação avançada.