Unidade de Contraterrorismo chamada a investigar Tancos

O ministro da Defesa exigiu uma auditoria às condições de todas as bases militares. Segurança Interna em silêncio

A Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ) foi chamada a investigar o roubo de material de guerra da base militar de Tancos. Fonte autorizada da direção nacional desta polícia confirmou ao DN que esta unidade especial está a trabalhar com a Polícia Judiciária Militar (PJM), que abriu inicialmente a investigação. A UNCT é na PJ quem investiga os casos mais graves de criminalidade organizada violenta e o terrorismo - crimes em que o tipo de material roubado pode ser utilizado.

Ainda não está decidido formalmente qual dos órgãos de polícia criminal vai conduzir a investigação, mas tudo aponta para a PJ, dado a dimensão do crime e principalmente devido aos possíveis destinatários do arsenal bélico desviado. Recorde-se que os últimos roubos de armas, como o dos comandos da Carregueira em 2011, investigados pela PJM, têm sido arquivados sem suspeitos. A investigação a um caso mais recente, de janeiro deste ano, que foi o furto de 57 pistolas Glock das instalações da Direção Nacional da PSP, está também num impasse. Além das quatro pistolas apreendidas a criminosos nesse mês, mais nenhuma foi detetada.

A presente ameaça à segurança nacional não teve, pelo menos até à hora do fecho da edição impacto assumido pelas autoridades de Segurança Interna. O silêncio foi a resposta ao DN do gabinete da ministra da Administração Interna, às questões sobre se tinha havido um aumento do nível de alerta e se tinham sido dadas instruções de prevenção às forças e serviços de segurança no terreno. O gabinete da secretária-geral do Sistema de Segurança Interna também não respondeu às mesmas perguntas, limitando-se a dizer que "todas as Forças e Serviços de Segurança se encontram a trabalhar em articulação e conjugação de esforços".

Tal como aconteceu no episódio das Glock da PSP, todas as informações sobre o material desaparecido foram já partilhadas nas bases de dados internacionais. As secretas nacionais também estão e contacto com as congéneres estrangeiras para que acionem os seus espiões no submundo do tráfico internacional de armas e e ajudem a localizar o destino do material , caso já não se encontre em Portugal.

Ao que o DN apurou os investigadores que já estão no terreno partiram de um cenário muito complexo para solucionar o caso. Logo à partida, não se sabe exatamente quando foi desviado o material dos paióis e terá de ser feita uma verificação exaustiva dos últimos inventários. Suspeita-se que, pela quantidade e dimensão do material roubado, o extravio dificilmente teria sido feito uma única vez. Ou seja, as entradas ilícitas podem ter sido em diversas ocasiões. Isto apesar de, conforme confirmou o Exercito, "o incidente" tenha sido detetado por uma patrulha na tarde de quarta-feira. Estavam os cadeados dos paióis partidos, soube o DN junto a fonte policial. A vedação, a cerca de 500 metros dos paióis invadidos, foi cortada.

Por outro lado, a falta de equipamento de videovigilância, que está inoperacional naquela base, conforme o DN também noticiou, e que seria uma preciosa ajuda na investigação, condiciona fortemente a identificação de suspeitos. O Exército confirmou a situação e informou que estava prevista a sua ativação em 2018.
O Exército não divulgou quantidades exatas do material roubado e numa primeira informação ocultou mesmo que entre esse material estavam 44 lança-granadas e quatro engenhos explosivos prontos a detonar, como o DN também tinha noticiado. Só na tarde de ontem, em novo comunicado de "atualização" o Estado-Maior do Exército confirmou que esse equipamento de grande potencial destrutivo tinha desaparecido. Além dos 44 lança rockets, que o Exército diz serem "granadas foguete anticarro" e do material explosivo, os assaltantes levaram também 120 granadas ofensivas , 1500 munições 9 mm, além de cerca de duas dezenas de bobinas de arame utilizado para construir armadilhas com explosivos no terreno, elemento também não divulgado pelo Exército.

Ministro quer auditoria

O ministro da Defesa Nacional, entretanto, decretou uma auditoria da Inspeção Geral da Defesa Nacional a "todas as estruturas de armazenamento de munições e armamento", segundo fonte oficia do seu gabinete que, no entanto, não respondeu às perguntas do DN sobre se tinha conhecimento das falhas de segurança naquela base militar - que faz parte da NATO e está obrigada a fortes medidas de proteção - nem se tinha sido informado pelo Exército das dificuldades existentes.

No entanto, assinou um despacho a 5 de junho, ontem publicado em Diário da República, a autorizar a "reconstrução" da vedação da base militar. No documento, o ministério considera que "se torna fundamental" o lançamento do procedimento pré-contratual que permita aquela empreitada tendo em conta a "concentração das funções logísticas numa mesma infraestrutura e a consequente rentabilização de sinergias".
Mas em declarações ao Jornal da Noite, na SIC, afirmou que não tinha sido informado que a vedação não estava em condições e considerou "inadmissível" a falta da videovigilância, deixando implícito que não foi informado também desta falha grava às regras de segurança das instalações militares.

O gabinete do Chefe de Estado-Maior do Exército também não respondeu ao DN sobre se tinha informado a tutela desta fragilidade que está avariado há mais de dois anos.

O ministro da Defesa Nacional classificou este que é o maior roubo em bases militares no nosso país, como de "extrema gravidade". Alegou que a nível global "não é a maior quebra de segurança do século", dando como exemplo os EUA e o Canadá. "Há quebras e falhas de segurança muito superiores", afiançou.

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