Uma mercearia das antigas que acabou de abrir

Quando todas as antigas mercearias originais fecham, expulsas pela "renovação" da capital, três gémeas resolveram abrir uma "à antiga" no coração de Lisboa, num prédio que compraram para fazer alojamento local. Uma experiência irónica e paradoxal sobre isso a que se dá o nome de "gentrificação"

O grande prédio onde abriu estava entaipado há décadas. A última utilização foi como Conservaria de Lisboa - que, ao contrário do que o nome indica, não se tratava de uma fábrica de conservas mas de bolos e frutos cristalizados - que, asseveram duas vizinhas idosas, tia e sobrinha, que moram em frente e são conhecidas como "as viúvas", perfumava a rua quando era altura de cozer o bolo-rei. Quando os atuais donos lá entraram, em 2012, encontraram ainda as roldanas de metal da fábrica e uma enorme pedra redonda onde se fazia a massa dos bolos. Guardaram tudo o que puderam como memória do edifício; ao começar a obra, descobriram que nas fundações havia, em camadas, tesouros insuspeitados - soleiras de portas pré-terramoto, e, por baixo, vestígios de várias épocas até, ao fim de um ano de escavações arqueológicas, se chegar à entrada das termas romanas dos Cássios (ou Cassius), datadas do século I a.C. e descobertas aquando da reconstrução do Palácio do Correio-Mor, hoje Palácio Penafiel e sede da CPLP, em 1791. Havia até capitéis de colunas que começaram por manter no restaurante inaugurado em novembro de 2017, mas acabaram por entregar ao museu da cidade com medo de que se estragassem. Antes, em 2016, tinham aberto The Lisboans (o nome surgiu da deliberação de criar uma expressão inglesa, inexistente, para "lisboetas"), 15 apartamentos de alojamento local entre 50 e 70 metros quadrados que ocupam os três andares do edifício comprado aos CTT, por aquilo que hoje surge como uma incrível bagatela - estava à venda por 400 mil euros; por quanto o adquiriram não revelam.

A mercearia Prado, que partilha o nome com o restaurante, está a funcionar apenas há três semanas, na esquina de cima do prédio que ocupa todo o gaveto entre a Rua das Pedras Negras, a Travessa do Almada e a Travessa das Pedras Negras. Vende fruta, legumes e vinhos bio, enchidos de porco preto e alheiras artesanais, queijos portugueses e bolos caseiros, assim como cereais, pão, azeitonas, conservas, chá, café, chocolates e frutos secos, tudo nacional; também serve café e sumo de laranja e sanduíches para comer ali (há uma mesa com cadeiras) ou levar. O chão é de mosaico hidráulico, os armários de madeira, a iluminação elétrica suave; durante o dia, entra muita luz pelas várias montras. Há sacos de papel e de pano com o logo, quem atende - tudo gente sub-40 - usa avental. E ouve-se Sufjan Stevens.

Como estamos na Páscoa e na turistolândia (a dois passos da Sé de Lisboa), há uma enchente de estrangeiros, sobretudo espanhóis, a bisbilhotar as prateleiras. Tem sido assim nestes dias, comenta Marta Fonseca, uma das donas, com as irmãs gémeas Marisa e Tânia e o cunhado Isaac, do recém-inaugurado estabelecimento, do The Lisboans e do restaurante. Mas garante que se quiseram afastar do agora tão costumeiro conceito de "mercearia gourmet" pensada para turistas e, sobretudo, criar um lugar para os habitantes da área, uma ligação com o bairro. Mesmo se, confessa, está surpreendida com a forma entusiasmada como estes estão a aderir e com a quantidade de pessoas, sobretudo portugueses, que revelam viver onde é lugar-comum dizer que "ninguém vive". "Não tínhamos noção de que residia aqui tanta gente e de que queriam tanto um espaço como este."

Uma loja para os "vizinhos"

É um pouco irónico, quase sarcástico; quando nos últimos anos tudo o que era mercearia "original" da zona foi fechando, mercê da compra e da reconversão de muito do imobiliário da zona em hotéis, alojamento local ou "condomínio de luxo", vão abrindo outras que querem recriar o ambiente e o tipo de produtos e serviço das antigas. A última mercearia original da zona da Sé de Lisboa, a Casa Alves, fundada em 1954, um estabelecimento belíssimo forrado a armários de madeira de época e ainda pertencente à família do primeiro dono - José António Alves, pai de José Luís Alves, que a explorou até ao fim - fechou em 2016, depois de o prédio no qual funcionava, na Rua São João da Praça, ter sido comprado para, alegadamente, ser reconvertido em "condomínio de luxo"; antes, em 2011, tinha encerrado a mais que centenária Mercearia Açoreana, na esquina da Rua da Prata com a de São Nicolau (já na Baixa propriamente dita), para dar lugar à receção de um hotel. Entretanto foram abrindo pequenos negócios sobretudo direcionados para os turistas, com alguma fruta, conservas, vinho e água, mas lojas com produtos de boa qualidade rareiam - surgiu, na Rua da Madalena, uma nova Mercearia Açoreana que, fazendo inteiro jus ao título, só tem produtos dos Açores; bastante mais longe, já na Praça da Figueira, subsistem o Mercado da Ribeira, pequeno supermercado com boa oferta de frescos, e a ótima Manteigaria Silva, na Rua D. Antão de Almada, com fruta, frescos, queijaria, charcutaria e bacalhoaria e classificada na lista das "lojas com história" pela câmara municipal. Mas na zona da ainda catedral, que deu o nome à nova e gigante freguesia de Santa Maria Maior, a oferta de víveres é fraca. Uma falta da qual Marta, 36 anos, se deu conta quando viveu, entre 2014 e 2018, na Rua da Madalena, para estar perto da obra que esteve a dirigir como arquiteta.

"Eu não tenho carro e gosto de andar a pé, de ir às lojas da zona. Mas percebemos que havia muito poucos sítios para comprar comida. O único supermercado que existe aqui [um Pingo Doce no edifício do antigo mercado do Chão do Loureiro, junto ao Largo do Caldas] está muito direcionado para os turistas e tem muito pouca qualidade. É aliás pior do que muitos da mesma cadeia. A fruta é toda importada, não sabe a nada, é desarrumado, feio. A nossa ideia foi termos aquilo que os locais, os vizinhos, comprariam. E estamos abertos a sugestões; no outro dia uma senhora disse-nos que gosta de uns iogurtes específicos e vamos passar a ter." Aliás, há um ano que tinham tudo pronto para abrir - móveis, espaço, etc. - mas levaram esse tempo a procurar produtos e produtores. "Andámos a fazer pesquisa do que havia, e no fim escolhemos. Temos por exemplo os ovos e as leguminosas de uma senhora que vende no mercado biológico do Príncipe Real; os legumes são os dos fornecedores do restaurante. Aliás o chef [António Galapito, que convenceram a deixar a Taberna do Mercado, em Londres, pelo Prado] vem aqui muitas vezes buscar coisas. Essa também foi a ideia inicial, a de isto funcionar como despensa do restaurante e dos apartamentos. Temos aqui a cozinha [aponta uma porta da mercearia para lá da qual fica uma copa] que é onde fazemos os bolos e preparamos os pequenos-almoços para os hóspedes." Não foi fácil, certifica, encontrar fornecedores para todos os produtos que queriam ter, e sobretudo, que estes sejam "certos" a entregar.

"Queremos ter preços acessíveis"

E como foram fixados os preços? Marta e Carlos Duarte, o gerente da Prado, que antes trabalhava em publicidade, entreolham-se. "Não podemos fazer tão barato como o Pingo Doce, por exemplo, mas não é o preço das chamadas mercearias gourmet. Quisemos que fosse acessível." Ainda assim, reconhecem que a maioria dos seus clientes são pessoas "com poder de compra", ainda que tenham ficado surpreendidos por haver bastantes jovens a morar perto. "Houve um novo povoamento aqui na Baixa, nota-se. E os nossos clientes são sobretudo pessoas que querem largar o carro e fazer compras na zona onde vivem."

O que nos traz a um termo muito usado hoje em dia: gentrificação - definida como a substituição de antigos habitantes por outros de uma classe social mais elevada/abastada. Atualmente a viver numa casa que compraram - "ainda antes da loucura" - nos Anjos, Marta e Carlos são testemunhas diretas do aumento desmesurado dos preços do imobiliário em Lisboa. "Pagávamos 600 euros pelo nosso apartamento na Rua da Madalena, com um terraço incrível sobre Lisboa [mostram uma foto, com uma vista deslumbrante sobre a cidade e o Tejo]. Agora nem imaginamos quanto custará. Quisemos alugar um aqui em frente para servir de armazém e pediram-nos três mil euros/mês. Temos amigos que estão a perder as casas que tinham arrendado no centro. A minha irmã alugou uma agora e já está à procura para comprar porque tem medo de que não lhe renovem o contrato. É muito preocupante. O problema é saber como se dá a volta a isto."

Um dos motivos, entre vários, para esta subida de preços é, porém, precisamente a explosão do alojamento local - o principal sustentáculo do negócio deles, que neste momento emprega 26 pessoas (sete no escritório, quatro na limpeza, 12 no restaurante e três na mercearia). Carlos assente. "Uma das coisas que decidimos desde o início era que só compraríamos um prédio onde não vivesse ninguém; não queríamos despejar pessoas. Tem de haver bom senso e regulação. Nós ainda abrimos isto com 15 apartamentos, mas a atual lei só permite um máximo de nove por prédio. E fala-se em quotas por zona, entre outras restrições." Parece-lhes bem? Marta reflete: "Sim. É como quando se desatou a abrir farmácias e se impôs uma distância mínima entre elas. É preciso encontrar um equilíbrio. Mas vejo o turismo como um bem que aconteceu à cidade. Ajudou imensa gente a encontrar uma forma de sobreviver; muitos reconfiguraram a sua vida. Eu por exemplo era arquiteta e larguei a arquitetura, tirei um curso de cozinha; o Carlos trabalhava em marketing, uma das minhas irmãs é advogada e a outra publicitária. Tínhamos uma formação e agora estamos a fazer outra coisa. Demos tudo de nós aqui."

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