Funchal. Uma árvore assassina torna o resultado imprevisível

O que parecia um passeio no parque para o presidente recandidato, Paulo Cafôfo, pode deixar de o ser por causa da queda de um plátano que matou 13 pessoas. Até a tragédia acontecer, o tema dominante era o futuro do autarca: quereria fazer da câmara um trampolim para o governo?

Agosto começa a ser um mês maldito para o Funchal. No ano passado, um incêndio devastador entrou pela cidade dentro até ao centro, vindo da área florestal: três mortos, cerca de mil pessoas desalojadas, hotéis evacuados (e um destruído), cerca de 300 edifícios atingidos. Entre prejuízos públicos e privados, a conta ascendeu a cerca de 60 milhões de euros. Vinte por cento da área da cidade ardeu. Confirmou-se a origem criminosa: um homem de 24 anos, condenado depois a 14 anos de prisão. Passou-se tudo nos dias 8 e 9.

Neste ano foi pior: no dia 15, por volta do meio-dia, um carvalho de enormes dimensões desaba sobre uma multidão que aguardava no Largo da Fonte o início de uma procissão em honra de Nossa Senhora do Monte, padroeira da ilha. A Festa de Nossa Senhora do Monte é o maior acontecimento religioso da Madeira e a ele acorrem todos os anos milhares de pessoas: madeirenses, emigrantes de visita à sua terra de origem, turistas. Balanço: 13 mortos e 49 feridos (12 dos quais em estado grave).

De imediato se iniciou a tradicional troca de acusações. Paulo Cafôfo, presidente recandidato há Câmara do Funchal, garantia que nunca tinha entrado nos serviços camarários nenhum alerta sobre a árvore em causa, propondo nomeadamente o abate. Mas a Junta de Freguesia do Monte, que é do PSD, dizia o contrário: já tinha alertado o município e mais do que uma vez. Entretanto, desenvolveram querelas sobre a propriedade do terreno onde estava o carvalho: é público ou da Diocese do Funchal? É o que está para se saber. O Ministério Público tomou conta da ocorrência e ontem fez saber que, apesar de o Largo da Fonte continuar interditado ao acesso público, "ficaram concluídos os trabalhos complementares de peritagem". Agora, em querendo, a autarquia poderá remover o que resta da árvore do local e, depois disso, "serão levantadas todas as restrições de acesso".

Personalidades locais ouvidas pelo DN garantem que este evento veio introduzir uma nota de imponderabilidade no resultado das eleições autárquicas no Funchal. "A primeira tendência é culpar quem gere os espaços municipais, independentemente de saber de quem é o terreno. Sendo o Paulo Cafôfo recandidato, é neste momento quem mais pode perder com a tragédia", diz ao DN o diretor do Diário de Notícias da Madeira, Ricardo Miguel Oliveira (ver entrevista ao lado).

Costa no Funchal em setembro

É certo que o PSD fez avançar Rubina Leal, uma mulher com peso no partido e currículo na ação executiva, sobretudo na área social e da inclusão, sob as ordens de Miguel Albuquerque, tanto quando este dirigiu a câmara como depois no governo regional. Mas a verdade é que as sondagens apontavam - antes da tragédia do Largo da Fonte - para uma vitória tranquila de Paulo Cafôfo, o professor independente eleito presidente a câmara em 2013 à frente de uma coligação de seis partidos (PS, BE, PND, MPT, PTP e PAN) que destronou - embora sem maioria absoluta - décadas de gestão PSD (parte das quais da responsabilidade do atual presidente do governo regional, Miguel Albuquerque).

Na verdade o que então se discutia é se Paulo Cafôfo pretende ou não fazer, a partir da Câmara do Funchal, o mesmo que Albuquerque fez: usá-la como trampolim para a liderança do governo regional, lançando-se portanto para um segundo mandato autárquico sem uma verdadeira intenção de o cumprir até ao fim (as próximas eleições legislativas regionais serão em 2019).

Se o projeto existe ou não é algo que o próprio nem às paredes confessa - mas sabe-se que António Costa, líder do PS, vê em Cafôfo um interlocutor qualificado, mesmo que a estrutura regional do partido pareça um bocado desconfiada (o presidente da câmara não é militante do partido nem dá mostras de o querer ser). Em setembro, o líder socialista deverá ir ao Funchal dar uma ajuda à campanha eleitoral autárquica.

O maior hotel de Portugal

Falava-se também nas finanças públicas do município mas aí com notória vantagem para Cafôfo (o saldo negativo de 19 milhões em 2013 passou para um saldo positivo de 8,2 milhões em 2015 (dados da Pordata). Temas como o monstruoso novo Savoy em construção na cidade - um hotel do grupo AFA, que quando estiver pronto será o maior de Portugal (mais de 500 camas) - pareciam relativamente fora do radar, embora entre os operadores turísticos este seja um tema permanente pelos efeitos que a sua entrada em funcionamento poderá ter no mercado de trabalho (redução dos salários) e nos próprios preços cobrados aos turistas (redução também por via de uma overdose na oferta). O hotel está em construção e já nada o pode parar - e também aqui o PSD estava em desvantagem (o novo hotel foi autorizado pela câmara do Funchal quando Miguel Albuquerque a dirigia, Paulo Cafôfo limitou-se a herdar a obra).

Em 1 de outubro os eleitores do Funchal decidirão. Há quatro anos a derrota do PSD na capital madeirense foi só uma na derrocada autárquica do partido na região: tinham todas as 11 câmaras e restaram-lhe quatro.

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