Sócrates lamenta falta de apoio do PS

Ex-primeiro-ministro insiste no ataque ao Ministério Público, diz que ainda não teve acesso a todo o processo e aponta fim político no seu processo: derrota do PS nas legislativas

José Sócrates subiu ontem mais um degrau na sua defesa e nos ataques ao Ministério Público (MP) passando a responsabilizar diretamente a procuradora-geral da República (PGR). Em entrevista à TVI, o antigo primeiro-ministro apontou o dedo a Joana Marques Vidal, que considera ser "a principal responsável" pela Operação Marquês, processo no qual é arguido.

"Ela [a PGR] é que tem de dar uma explicação sobre o que está a acontecer. O MP devia pensar bem no que está a fazer e olhar para as regras do direito penal. Aquilo que deve fazer é calar-se", atirou Sócrates na primeira entrevista que concedeu desde que, a 16 de outubro, ficou em liberdade.

Reiterando a sua inocência em relação às suspeitas da prática de crimes de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais - apesar de não ter havido qualquer pergunta sobre os fluxos de dinheiro que alegadamente recebia de Carlos Santos Silva - o antigo chefe do governo insistiu na tese de que o MP "tinha de dizer de que é que estava a ser acusado" e assinalou, uma e outra vez, que o prazo de um ano para dedução de acusação não está a ser cumprido - "o inquérito acabou a 18 de outubro", recordou.

Por isso, reduziu todo o processo a "uma campanha de brutal difamação" e de "denegrimento pessoal" e acusou a Justiça de ter feito uma "operação de terror" junto dos seus familiares e amigos. Desde o momento em que a investigação começou, desde as buscas policiais na casa de Santos Silva e da ex-mulher, Sofia Fava, quando o próprio Sócrates se encontrava em Paris.

Sobre a detenção na Portela, a 21 de novembro de 2014, o ex-secretário-geral do PS afirmou que "foi o início do espetáculo" e revelou que, antes, o advogado João Araújo terá enviado um e-mail ao diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Amadeu Guerra, a sinalizar a disponibilidade para "dissipar as dúvidas", posição que o advogado terá confirmado por telefone. Em vão, explicou.

Sem sinais de arrependimento, uma vez que disse nada ter feito para o justificar, Sócrates frisou que não aceitou sair em junho do Estabelecimento Prisional de Évora, com pulseira eletrónica, porque não queria dar a sua concordância a nada naquele "processo odioso" e assumiu a posição do procurador Rosário Teixeira para ironizar: "Ah sim? Não estás de acordo? Então ficas aí [Évora] mais três meses."

Sempre de dedo em riste para com Rosário Teixeira e o juiz de instrução, Carlos Alexandre, o homem que esteve preso quase dez meses voltou a desafiá-los a apresentarem "provas" ou "factos" dos ilícitos de que é suspeito, criticando ainda o facto de não lhe ter sido dado acesso a todo o processo.

"São 60 tomos", notou, sustentando ainda que existe um a que lhe tem sido vedado o acesso. A propósito desse tal 60.º volume processual, sugeriu que ou nele existem as provas de que terá favorecido o Grupo Lena na Parque Escolar ou em parcerias público-privadas (PPP), quando era primeiro-ministro ou que tudo isso não passará de mera "fantasia".

O apoio (que não teve) do PS

Na reta final da primeira parte da entrevista - que foi gravada de seguida ontem e cuja segunda parte será emitida hoje -, José Alberto Carvalho questionou Sócrates sobre se esperava outra atitude do PS e de António Costa. Sobre relações pessoais, não falou, mas não conteve a farpa ao partido. "Não só apelei ao PS para não se pronunciar sobre o processo como disse que ele era político e que me defenderia sozinho", começou por responder. Mas acabou por disparar: "Ao fim de seis meses, esperava que o PS dissesse "Desculpem, não será o momento de apresentar as provas?" A atuação do MP prejudicou o PS."

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