Socialistas divididos arriscam ficar em minoria

Luta fratricida numa autarquia dirigida por socialistas desde 1979 ameaça complicar a gestão camarária para o próximo mandato, com o PS nacional a apoiar o independente que ganhou há quatro anos e o PS local a manter um candidato que avança agora como independente.

Duas décadas de luta interna entre socialistas de Fafe, que o candidato do PSD diz lembrar "a guerra dos 100 anos e nunca mais acaba", atingiram novo patamar com a entrada em cena do PS nacional.

Câmara liderada pelo PS há quatro décadas, quase sempre com maiorias claras mas onde os socialistas só ganharam a última eleição por 17 votos, as divisões internas poderão complicar a gestão camarária no novo mandato. Esse é um cenário provável, caso a reeleição do atual presidente seja acompanhada por uma minoria de vereadores no executivo.

Essas contas partem da natural divisão do eleitorado socialista entre o candidato oficial do partido, Raul Cunha, e o da concelhia, Antero Barbosa, a que se juntam a recolha de votos à esquerda por parte do BE, com Leonel Castro, e do PCP, com Alexandre Triguinho - enquanto à direita está a coligação PSD/CDS, cujo candidato Eugénio Marinho rompeu há meses a coligação informal na autarquia.

Raul Cunha, independente eleito em 2013 com o apoio do PS, disse há meses que não estaria disponível para se recandidatar caso o antecessor José Ribeiro ganhasse as eleições na concelhia - que venceu mesmo por larga maioria, tendo os órgãos locais convidado o ex-dirigente e antigo vereador Antero Barbosa para concorrer à autarquia.

Mas o PS nacional avocou o processo e convidou pessoalmente Raul Cunha, o qual integrou na sua lista o líder do movimento independente XVII - um socialista há muito desavindo com as estruturas locais do partido, Parcídio Summavielle - que em 2013 perdera por 17 votos. "Fizemos um esforço de concertação que levou a que o PS fizesse um acordo de entendimento com os independentes de Fafe" que até permitia ao partido ficar "mais unido porque essas pessoas decidiram regressar" às fileiras, conta o autarca ao DN. Mas, "para surpresa nossa, uma parte dos órgãos dirigentes da concelhia" não aceitou, lamenta.

Antero Barbosa, que dirigia o PS/Fafe em 2013 e esteve afastado das lides políticas nos últimos quatro anos, tem outra visão das coisas: "Se me passasse pela cabeça que o atual presidente voltava com a palavra atrás" não teria aceite "o desafio do PS, feito "numa altura em que o partido não tinha candidato."

A decisão de se manter na corrida como independente com o apoio das estruturas locais do PS - o líder da concelhia é o candidato da sua lista para a Assembleia Municipal - constitui "um grito de revolta relativamente à injustiça cometida [pelo PS nacional] em relação a quem tinha legitimidade para decidir", enfatiza Antero Barbosa.

Reconhecendo ao DN que os órgãos nacionais do PS tinham competência para avocar o processo, Antero Barbosa contrapõe que "a tradição do partido é respeitar a vontade expressa dos órgãos locais", ainda por cima tendo a escolha recaído num "militante do PS". "Genuinamente somos mais socialistas [que Raul Cunha] e dirigimos o partido durante anos, enquanto o atual presidente é próximo do PS e os que o acompanham foram-no em tempos mas andaram nos últimos anos a lutar contra" o PS.

Eugénio Marinho, que há quatro anos ficou em terceiro lugar, acredita que "só quando o PSD ganhar é que acaba" a guerra socialista que diz prejudicar Fafe - cidade que ontem acolheu o final da sexta etapa da Volta a Portugal em bicicleta. A sua previsão de que isso iria ocorrer em 2013 falhou, mas o PSD "desta vez vez tem possibilidades muito diferentes".

"Há uma divisão completa do PS, pois até aqui eram franjas que saíam e se colocavam à margem do partido enquanto as candidaturas continuavam unidas. Agora a cisão é mais profunda, pois toda a direção política local está na candidatura independente, [José Ribeiro] não se demitiu nem foi demitido...", pelo que "o PSD tem uma margem de progressão e de vitória muito superior", sublinha Eugénio Marinho.

Leonel Castro, que há quatro anos integrava a lista independente de Parcídio Summavielle, avança agora porque "há espaço para que o eleitorado do Bloco e os descontentes se revejam numa candidatura do BE" em Fafe. Por outro lado, assinala o candidato, as listas do partido são dominadas por "independentes e maioritariamente femininas". "A questão da paridade foi um problema" na composição das listas, porque havia "muito mais mulheres", confessa a sorrir e explicando esse pormenor com o "grande trabalho" que as mulheres - como Catarina Martins, Marisa Matias ou Mariana Mortágua, entre outras - "têm feito a nível nacional". Alexandre Triguinho (CDU) é o outro candidato, que também tem como objetivo eleger um vereador e aumentar a representatividade na Assembleia Municipal. "O nosso objetivo é muito claro", apesar dos menos de 3% obtidos em 2013: "Apresentarmo-nos como alternativa à população de Fafe, dar voz aos cidadãos que não se reveem neste tumulto à frente da câmara nem nos rumores que estão a ser lançados sobre essa fissura" socialista. "São tudo questões e casos levantados para desviar as atenções do essencial", como sejam os problemas do reduzido transporte intermunicipal, da fixação dos jovens no concelho, do desemprego ou da desindustrialização num território dominado pelo setor têxtil, diz o candidato comunista.

A desertificação do município, as lacunas no saneamento básico e nas vias de comunicação, o abandono da agricultura e a requalificação do parque escolar são outros problemas que as diferentes candidaturas dizem querer resolver.

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