Barragem da Vigia com "muito peixe para tão pouca água" devido à seca

Peixes "estão muito magros" e estão a ser retirados de quatro albufeiras públicas do Alentejo

Os pescadores começaram hoje logo ao nascer do sol a retirar peixes da barragem da Vigia, no Alentejo, devido à seca, e já constataram, com o que vem às redes, que há "muito peixe para tão pouca água".

"Há muito peixe" e os exemplares "estão muito magros", relatou à agência Lusa Vítor Apolo, um dos quatro pescadores profissionais envolvidos na operação iniciada hoje na barragem da Vigia, no concelho de Redondo, distrito de Évora.

Com recurso a barcos, os pescadores contratados pela Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), que coordena a operação, começaram hoje, logo ao raiar do dia, a recolher e a lançar de novo as 42 redes colocadas nesta albufeira.

"Estamos cá desde manhã cedo, desde o nascer do sol, também para escaparmos ao calor", porque "dão 40 graus para hoje e é muito difícil tirar o peixe com calor", explicou Vítor Apolo, já com o calor do sol a fazer-se sentir.

Com 12 anos de experiência na pesca e depois de já ter visto os efeitos de secas anteriores, Vítor diz não ter dúvidas. As barragens, como a da Vigia, "estão muito vazias" e é "muito peixe para tão pouca água".

A retirada de peixes de quatro albufeiras públicas do Alentejo, devido à seca e para não prejudicar a qualidade da água, foi decidida na semana passada, em Évora, numa reunião da Subcomissão Regional da Zona Sul da Comissão de Gestão de Albufeiras, presidida pelo secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins.

No global, explicou na altura o governante, vão ser removidas, ao longo das próximas semanas, cerca de 150 toneladas de peixes de barragens que servem para abastecimento público e para rega e que estão com níveis baixos de armazenamento de água: Vigia, Monte da Rocha (Ourique, distrito de Beja), Pego do Altar (Alcácer do Sal, Setúbal) e Divor (Évora).

A operação, que vai custar 120 mil euros, suportados pela Agência Portuguesa do Ambiente, visa prevenir a eventual mortandade piscícola, devido ao reduzido volume de água e à grande quantidade de peixes, evitando a deterioração da água que serve para abastecer as populações.

"É uma operação preventiva. O que queremos é evitar que o peixe morra, porque esta albufeira está muito baixa", tem "um sexto do seu volume" (está com 13% do volume de armazenamento), e, por isso, a comunidade piscícola "está muito concentrada", destacou hoje David Catita, da EDIA.

"E, como está muito concentrada no mesmo habitat, começamos a ficar com peixe a lutar pelo alimento e pelo oxigénio e muito sensível a alterações. O que fazemos é retirar o peixe para evitar que morra dentro da água" e que "degrade a qualidade" da mesma, acrescentou.

Os trabalhos na Vigia vão prolongar-se durante 10 dias, a um ritmo de "três toneladas" de peixe pescado por dia, estimou David Catita, referindo que, às 30 toneladas que a EDIA pretende retirar desta albufeira, juntam-se as cerca de 50 toneladas que espera remover da barragem do Monte da Rocha, onde a operação deve começar "ainda esta semana".

E, "em princípio, daqui a uma semana e meia, vamos tentar passar para o Pego do Altar e para o Divor", para recolher as restantes toneladas de peixe, afirmou, precisando que, maioritariamente, vão ser pescadas "espécies exóticas", que são as que mais abundam neste tipo de ecossistemas artificiais, como a carpa, lúcio-perca, pimpão e peixe-gato.

"O que queremos é garantir que a qualidade da água não piora. As condições para a manutenção da qualidade não são boas, porque estamos com um menor volume, está a aumentar a concentração de todos os nutrientes que estão na massa de água e o tempo também está muito quente. Portanto, o que fazemos é reduzir a biomassa piscícola, para aliviar a pressão na água e não perder qualidade", vincou.

Com a carinha de transporte estacionada mesmo junto à água, para onde são carregadas as caixas com o produto da pesca, mal saem dos barcos, João Cortez, também da equipa de pescadores, já tem destino para os peixes.

São "para isco, para algumas herdades que precisam [do peixe] para alimentação dos javalis e para alguma fábrica que faz a transformação para farinha", para incorporar rações animais, indicou.

Habituado a estas operações, em que já tem participado ao serviço da EDIA, o pescador não tem dúvidas sobre a necessidade de remover o peixe das barragens: "É muito importante. Temos a certeza de que, se não houvesse esta retirada, o peixe iria morrer e iria estragar a qualidade da água".

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