"São sinais de que algo vai muito mal"

Entrevista a Vítor Veloso, presidente da Liga portuguesa Contra o Cancro

Que impacto pode ter esta medida do IPO?

É mais uma situação preocupante, a juntar às listas de espera para cirurgia, às notícias de atraso nos tratamentos de quimioterapia em Santa Maria, aos doentes pediátricos tratados em corredores no S. João. São todos sinais de que algo vai muito mal na saúde em Portugal. Embora se saiba que as melhorias no IPO de Lisboa estiveram adormecidas durante muitos anos, assumirem que não conseguem fazer exames a tempo tem reflexos na vida de milhares de utentes, até porque sabemos que há milhares que ainda não têm médico de família.

Parece que o SNS não conseguiu acompanhar as alterações demográficas do país, com maior esperança de vida e também o crescimento de casos de cancro e sobrevida...

Compreendo as dificuldades, ainda mais quando sabemos que 80% dos doentes estão a ser tratados no litoral. Devíamos ter hospitais no interior mais apetrechados. Temos o caso de Tondela-Viseu que está em pé de guerra, Vila Real assume que está em grandes dificuldades, o Estado devia olhar a sério para os hospitais do interior. Não me chocava até que um médico de um hospital do interior ganhasse o dobro de um do litoral. Porque não? Não é preciso que esses hospitais acompanhem todos os cancros, há doenças que têm de ser tratadas em unidades altamente diferenciadas, mas o da mama é um desses casos que podia ser acompanhado em proximidade. Agora quem paga é o doente, que vai ter grandes dificuldades em agendar os exames.

E o que está a Liga a fazer para denunciar estes casos?

Nós estamos a fazer um inquérito junto dos hospitais, para perceber como está o panorama dos tratamentos oncológicos. As unidades não são obrigadas a responder, claro, mas se há problemas, que os relatem para se poder fazer pressão sobre quem tem decisão nesta área, e não falo apenas no Ministério da Saúde, mas também junto das Finanças.

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