Santa Maria não recebeu pedido para internar doente de Faro com AVC

Doente acabou por ser transferido para Coimbra, onde morreu ontem. Ministério quer nova organização das urgências

O hospital de Santa Maria, em Lisboa, não foi contactado nem pelo hospital de Faro nem pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes [CODU] para receber um idoso de 74 anos vítima de AVC. O doente acabou por ser transferido para o hospital de Coimbra, a cerca de 500 quilómetros de distância, onde acabou por falecer ontem de madrugada depois de vários dias em coma profundo. Ministério quer nova organização das urgências de Lisboa, com as primeiras medidas a entrar em vigor a 1 de fevereiro.

O doente, deu entrada no hospital de Faro no dia 14, depois de ter sido assistido em Vila Real de Santo António. Sem serviço de neurorradiologia, o hospital algarvio solicitou a transferência para a unidade mais próxima com serviço, que terá sido S. José. Segundo a TVI 24, alegadamente o hospital de Lisboa terá recusado receber o doente porque o médico estaria quase a sair de serviço. O DN não conseguiu contactar S. José para confirmar a informação.

A lógica seria então contactar uma segunda unidade mais próxima, neste caso Santa Maria que também tem o serviço de neurorradiologia, o que não aconteceu. "Não houve nenhum pedido do Hospital de Faro ou do CODU para receber este doente. Temos sempre equipa disponível para estes casos, nem que seja através da chamada de médicos", disse ao DN fonte do hospital de Santa Maria.

O Centro Hospitalar do Algarve (CHA) abriu um inquérito, que demorará pelo menos duas semanas, para apurar se houve ou não atraso no diagnóstico e que unidades foram contactadas para receber o doente. "Nós não temos neurorradiologia de intervenção, nem médicos nem equipamento. Acho que devemos ter. Houve já uma candidatura ao programa 20 20 para compra de equipamento e desenvolvimento de obras", afirmou Pedro Nunes, administrador do CHA, que não sabe dizer que se foram contactados os dois hospitais de Lisboa. "O hospital pode adiantar-se e contactar outras unidades, mas é o INEM que orienta os meios. Alguém decidiu que o o doente iria para Coimbra e que seria de helicóptero, que não terá estado disponível por razões atmosféricas. Não compete a Faro comentar a organização dos serviços em Lisboa."

Segundo o INEM, o CODU recebeu um pedido de helitransporte de um médico do CHA às 19.56 "para transporte para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra de doente vítima de AVC. O helitransporte não foi possível devido a falta de condições do voo". Acrescenta que "todos os trâmites relativos à transferência teriam sido tratados entre o CHA e a unidade Hospitalar que rececionou o doente em causa, como aliás, é sempre feito em termos estipulados por protocolo".

Nova organização nas urgências

O Ministério da Saúde diz estar a averiguar o que se passou neste caso, tal como no do jovem de 29 anos que morreu em S. José depois de três dias à espera de uma intervenção a um aneurisma. Ontem reuniu com os administradores e diretores clínicos dos cinco maiores hospitais da Área Metropolitana de Lisboa para criar um novo modelo de organização das urgências na grande Lisboa, que aposta "nos princípios da cooperação interinstitucional, da organização em rede e da partilha dos recursos disponíveis no SNS". O objetivo é responder de forma eficaz a situações urgentes e graves, com poucos profissionais disponíveis. O grupo de trabalho vai iniciar de imediato, "dando prioridade às especialidades em que se verificam maiores dificuldades devendo as medidas começar a ser aplicadas a partir de 1 de fevereiro de 2016".

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?