Sampaio, Durão, Portas e Martins da Cruz podem recusar convocatória

Aprovado na comissão de Negócios Estrangeiros requerimento do PCP chamando Durão e Paulo Portas para falarem da invasão do Iraque. A estes nomes a comissão juntou outros dois: Jorge Sampaio e Martins da Cruz

Com os votos contra do PSD e do CDS e favoráveis da esquerda, a comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros aprovou ontem um requerimento do PCP chamando a depor Durão Barroso e Paulo Portas, respetivamente primeiro-ministro e ministro da Defesa em março de 2003, quando o governo português apoiou a invasão do Iraque decidida pelos EUA.

Na resposta, o PSD propôs que fosse também chamado o então Presidente da República, Jorge Sampaio, requerimento aprovado por todos os partidos menos o CDS, que se absteve. Os centristas também se abstiveram num outro requerimento, desta vez do PS, para que fosse igualmente convocado o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Martins da Cruz. O PSD propôs também que fossem ouvidos Luís Amado e Jaime Gama, antigos ministros dos Negócios Estrangeiros em governos socialistas, mas a esquerda chumbou.

A iniciativa comunista, que deu origem às outras do PSD e do PS, resultou das conclusões do chamado "relatório Chilcot" - um inquérito britânico às circunstâncias que levaram o Reino Unido a tornar-se no principal apoio internacional aos EUA na invasão do Iraque e à teoria norte-americana - dada como absolutamente certa mas que depois nunca se confirmaria - segundo a qual o regime de Saddam Hussein dispunha de armas de destruição maciça que poderia usar ou pôr à disposição de organizações terroristas como a Al-Qaeda.

O relatório britânico, que deve o nome ao seu coordenador, Sir John Chilcot, um antigo alto funcionário público, centrou-se na conduta do governo britânico da altura e concluiu que foram largamente exageradas as ameaças atribuídas ao Iraque: o Reino Unido foi para a guerra sem necessidade e, além do mais, sem preparar convenientemente o pós-guerra.

Em junho de 2003, já com a invasão em curso, Durão Barroso garantia ele próprio ter a certeza de que essas armas de destruição maciça existiam mesmo. Questionado pela TSF sobre se tinha visto as provas da existência dessas armas, disse: "Com certeza que vi. Estão mortas as pessoas. Há os cadáveres. Toda a gente sabe que foram utilizadas armas de destruição maciça no Iraque contra o seu próprio povo e contra os iranianos. Isso não é discutível". "A questão - acrescentou - é saber se foram destruídas ou não antes da intervenção norte-americana."

Não sendo a comissão de Negócios Estrangeiros uma comissão de inquérito, as personalidades agora convocadas têm o direito de recusar testemunhar. "Se vier a ser notificado para qualquer audição - o que não aconteceu até agora - nessa altura tomarei posição junto das entidades competentes", disse Jorge Sampaio ao DN. Paulo Portas e Martins da Cruz também reservaram uma decisão para mais tarde. "Estou de férias", disse ao DN, por sms, o antigo líder do CDS. Num contacto telefónico, Martins da Cruz afirmaria algo parecido: "Estou de férias. Não quero pensar nisso. Quando receber a convocatória logo decido." O DN tentou - em vão - obter uma resposta de Durão Barroso.

Em 2003, o apoio do seu governo à invasão do Iraque criou tensão com o então presidente da República, Jorge Sampaio. Este era contra e opôs-se, como comandante supremo das Forças Armadas, a que o apoio político português se traduzisse em apoio militar, por exemplo com envio de tropas. A solução de síntese foi enviar pessoal da GNR.

Sampaio desmente Durão

Em maio passado, Durão disse ao Expresso que Jorge Sampaio fora previamente avisado da cimeira das Lajes (ver fotolegenda) e do seu propósito. Sampaio retificou imediamente as alegações do antigo primeiro-ministro dizendo que só foi informadopor Durão sobre a realização da cimeira dois dias antes de esta se realizar, tendo-lhe a mesma sido apresentada pelo então primeiro-ministro como uma "derradeira tentativa para a paz e para evitar a guerra no Iraque". Na verdade, tratou-se exatamente do contrário: foi o tiro de partida para a invasão, que começaria dias depois. "Costuma dizer-se que a memória é seletiva e que os relatos históricos são reconstruções narrativas", disse ainda o ex-PR.

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