Salvador Malheiro: "O PSD é muito mais do que o seu grupo parlamentar"

Ajudou a eleger Rui Rio e é agora seu vice-presidente na Comissão Política Nacional do PSD, foi nadador-salvador em Esmoriz, é engenheiro, fez investigação para a Renault, ganhou a Câmara de Ovar em 2013 depois de décadas de poder socialista naquele concelho. Salvador Malheiro é o convidado desta semana do Diário de Notícias e da TSF

Passaram três semanas desde o Congresso do PSD e, aparentemente, a sensação que existe neste momento é que Rui Rio saiu de cena. Onde é que pára o líder da oposição?

[Risos] Onde é que ele pára? Está obviamente na sede. Depois do Congresso que teve lugar há três semanas, naturalmente que a grande preocupação é a organização, à escala das estruturas locais e da organização das equipas de trabalho. Quem conhece o Dr. Rui Rio sabe que é uma pessoa que antes de apregoar, de fazer questão de dar a notícia pública, gosta de ter as coisas bem feitas, bem planeadas e, portanto, aquilo que está a acontecer nestas três semanas é a concretização e a organização de uma estratégia para depois vir apresenta-la a público de forma muito assertiva, fazendo essa oposição ao Governo existente neste momento. Mas, todos nós sabemos que o Dr. Rui Rio não é alguém que defenda que a melhor oposição é aquela que fala mais alto, aquela que apupa mais, é sim uma oposição construtiva que visa sobretudo chegar ao povo, à comunidade e não tanto aos soundbites, à gestão da espuma dos dias, mas sim uma estratégia a longo prazo. É essa que está a ser preparada.

Uma gestão mais programática, mais pela positiva, mas a verdade é que, até agora, ninguém viu, nem sequer no encerramento do Congresso, nenhuma proposta palpável do PSD. A questão aqui é se alguém como Rui Rio, que teve tanto tempo para se preparar para ser líder, não deveria já estar a assumir a primeira linha do discurso político?

É uma leitura que algumas pessoas estão a fazer, mas isso seria até contraproducente mediante aquilo que o Dr. Rui Rio apresentou aos militantes do PSD aquando das eleições diretas. Porque aquilo que foi dito - e as linhas mestras estão patentes na moção estratégica e eu posso desde já começar a dissecá-las - traduziu-se num compromisso com os militantes para se dar valor, se reconhecer, tentar chamar os melhores do partido, no sentido de se preparar ideias fortes que não fossem apenas de um homem só, mas que fossem sim da conjugação de muitas opiniões, de muitas reflexões de toda a gente. Neste momento aquilo que existe são linhas mestras, orientações gerais, mas de onde podemos já tirar uma série de conclusões, até neste prazo de três semanas onde muita coisa já aconteceu e que está a ter reflexo na opinião pública - se calhar, não tanto na opinião publicada -, mas o que é certo é que a comunidade, o povo, está a gostar de ver alguém que chegou ao poder de forma completamente livre, que não tem problema nenhum em enfrentar e confrontar alguns interesses instalados, que prima por fazer uma oposição pela construtiva, que não tem problema nenhum em dialogar à esquerda e em dialogar à direita; de permitir que quem está a governar tenha as melhores condições possíveis, porque sabe colocar o interesse de Portugal acima de qualquer estratégia político-partidária.

Naturalmente, mediante tudo aquilo que está a acontecer e é visível para todos sobre o desempenho deste Governo e mediante o diagnóstico que está a ser feito em todo o país, com os contributos que agora vão começar a surgir, designadamente com a constituição deste conselho estratégico nacional hoje anunciado, tenho a certeza de que medidas concretas, palpáveis, vão acontecer. Se tivessem surgido já medidas neste hiato de tempo tão curto, essas sim, deviam merecer a nossa dúvida porque não estariam em sintonia com o que é o pensamento do Dr. Rui Rio e que foi a forma de ele fazer política durante este tempo todo. Quando ele fala de alguma coisa sabe daquilo que está a falar, fala de questões com fundamento, bem preparadas, e que visam chegar a um objetivo concreto.

Pegando naquilo que diz, sim, Rui Rio é, tanto quanto sabemos no país mediático e não mediático, uma pessoa pragmática; a questão é perceber se isso será bom ou mau à luz do que é o habitual político em Portugal e penso que isso pode ser estranho apesar de, conhecendo Rui Rio, perceber que é essa a postura dele.

Nós sabemos que o líder do PSD é alguém que não gosta de ir atrás do que são os timings seja da comunicação social seja de outros players da comunidade; ele gosta de ter o seu timing e prefere, em primeiro lugar, organizar-se, ter um pensamento estruturado, ter as equipas bem formadas. Contrariamente ao que foi dito anteriormente, o Dr. Rui Rio não teve esse tempo de preparação que as pessoas pensam e, toda a gente sabe, que eu fui daqueles que acompanharam o percurso do Dr. Rui Rio para a vitória no PSD e posso dizer que a constituição das equipas, mesmo para a campanha eleitoral, só aconteceu depois de outubro, depois das eleições autárquicas. Esse mito que por vezes surge de que o Dr. Rui Rio esteve um ano, um ano e meio, a preparar-se para tudo isto é completamente infundado e não corresponde à verdade.

Agora, é uma forma muito particular de fazer política, distinta das outras, mas que, a mim, dá-me provas de poder ter sucesso. Aliás, basta reparar naquilo que aconteceu em 2001 na Câmara Municipal do Porto, em que ninguém pensava que o Dr. Rui Rio pudesse vir a ganhar, era uma pessoa que não falava com a comunicação social, não estava sempre dependente dos timings desta e, depois, o povo escolheu-o, sobretudo pela forma assertiva da personagem de que estamos a falar.

Não andou a formar equipas mas - eu acompanhei várias dessas iniciativas -, andou no terreno durante meses a fio, em contacto com as bases do partido e, nesse esforço, foi apresentando ideias e propostas.

Mas posso afiançar que foram muitos os convites recusados por parte do Dr. Rui Rio, sobretudo no período de preparação das eleições autárquicas, porque os convites eram imensos e ele fez questão de não ir, na maior parte dos casos, até para não criar uma entropia maior. Foi a alguns, mas foram muito mais aqueles que recusou, precisamente para não criar instabilidade dentro do Partido Social Democrata, não tenho a menor dúvida disso.

Apesar de tudo, uma parte substancial dos deputados do PSD, na última eleição para a liderança da bancada, votou em branco. Quiseram vingar-se de alguma forma ou já antecipam que não fazer parte das próximas listas do partido?

Nós temos um grupo parlamentar e um nível elevadíssimo, tem feito política ao mais alto nível, tem mostrado os ideais da social-democracia no Parlamento. Agora, é natural que depois de um processo de eleições diretas, que foi disputado e em que...

...uma parte substancial não apoiou Rui Rio.

Exatamente. Depois, a escolha do Dr. Negrão também causou ali alguns contratempos e é natural que tivesse havido esse momento pontual, que eu penso que já está sanado. Penso que, neste momento, o interesse geral e o interesse do país, o interesse do Partido Social Democrata, já estarão a prevalecer perante os interesses de qualquer um dos seus deputados.

Estão curadas as feridas?

Penso que sim. É importante ter-se a noção de que o PSD é muito mais do que o seu grupo parlamentar na Assembleia da República e de que a comunidade nacional e o país são muito mais do que aquilo que se passa na Assembleia da República. Aliás, acho mesmo que a realidade que as pessoas têm quando confinadas naquele espaço é completamente distinta da que existe cá fora.

E isso é um problema?

Eu acho que pode ser visto como um problema, mas também como uma oportunidade e algo extremamente positivo, porque todos nós sabemos - porque vivemos esse problema - que há um distanciamento entre a comunidade em geral e os seus representantes na Assembleia da República. Já foi tempo em que todos reconhecíamos que os melhores da sociedade estavam na Assembleia da República. Sabemos que vivemos uma crise no que toca à dignificação da classe política. Portanto, também sabemos que é preciso estar em contacto constante com o povo para ouvir as suas opiniões, para constatar que há muita gente que também gosta que as pessoas não cedam a interesses instalados e que tenham a sua ideia bem vincada e que sigam o seu rumo sem grandes interferências.

Mas não acha que o próprio discurso de Rui Rio, em alguns momentos, terá permitido perceber, a quem está a representar o partido no Parlamento, que vai haver efetivamente uma mudança e que, portanto, poderão não ter lugar nas próximas bancadas parlamentares do PSD?

Não creio, não creio. Isso é um assunto que, em primeiro lugar, está muito distante; tenho a certeza absoluta de que o Dr. Rui Rio ainda não perdeu um segundo com essa matéria, acho que há aqui, agora, um espaço enorme para os nossos deputados mostrarem aquilo que valem, para mostrarem a sua solidariedade, a sua coesão em torno de uma moção estratégica global que foi escolhida pelos militantes do Partido Social Democrata. Todos os nossos deputados sabem, naturalmente, que representam o PSD e vão querer estar a funcionar como autênticos braços armados do presidente do partido. Não tenho a menor dúvida e penso que essa foi uma falsa questão, daquelas que, por vezes sem querer ou em alguns órgãos de comunicação social se calhar de propósito, tentam desestabilizar esta entrada do Dr. Rui Rio, mas todos nós que conhecemos o Dr. Rui Rio sabemos que ele também gosta de olhar para estes desafios e transformá-los em oportunidades. Quando temos ambientes aparentemente um pouco mais adversos, por vezes são os mais propícios para implementarmos uma estratégia diferente.

Salvador Malheiro, gostaria que me verificasse aqui um ponto: disse que há muita qualidade na bancada do PSDE, mas também disse, passados uns segundos, que já houve tempos em que os melhores da sociedade estavam na Assembleia da República, o que permite pensarmos que já não estão. Em que é que ficamos?

Isso merece uma clarificação. Eu conheço a maioria dos deputados do PSD na Assembleia da República e reconheço em todos eles enormes competências seja em termos técnicos, nas várias áreas temáticas em que são especialistas, como em termos políticos. Outra coisa é o que sentimos da população e da comunidade em geral, em que há um afastamento claro entre a classe política e a comunidade, e onde sinto que as pessoas, neste momento, não têm aquele deslumbramento que tinham no passado quando olhavam para aquela Assembleia da República e, de facto, identificavam ali os melhores da sociedade. É um problema para cuja solução penso que todos nós temos de contribuir, nós políticos, a comunicação social também, porque precisamos para o sucesso do país de uma classe política forte e que tenha a máxima dignificação junto da comunidade.

A resposta para esse afastamento, para esse divórcio, é sempre tema em estúdios em noites eleitorais depois de conhecermos os números da abstenção; todos nós falamos, e os políticos falam com muita preocupação sobre esse divórcio e esquecem-se passados cinco minutos. A resposta para esse afastamento é precisamente um líder que foge aos tempos da comunicação social, aos tempos do debate político, que se pode dar ao luxo de estar duas, três semanas sem aparecer e que pretende, como o Salvador Malheiro dizia há pouco, falar diretamente com o povo. Não há aqui também o toque de algum populismo?

Eu penso que esse afastamento da classe política junto do povo é o resultado de uma série de erros que vários partidos cometeram ao longo dos tempos, sobretudo alguns protagonistas desses partidos. Essa é a razão principal. A forma particular de o Dr. Rui Rio fazer política e de não estar dependente dos timings da comunicação social e de não ir a toque de caixa da comunicação social ou de não estar preocupado, em primeira análise, com o que é a notícia do dia de amanhã, mas muito mais com o que é um plano a médio e longo prazo, é uma forma de estar, mas se há pessoas que, por vezes, possam não apreciar essa forma de fazer política, há outras que apreciam. Não creio que o Dr. Rui Rio tenha contribuído para o afastamento da classe política junto do povo, bem pelo contrário, sobretudo olhando para o seu desempenho ao nível da gestão autárquica no Porto e para o seu desempenho na Assembleia da República, onde foi das pessoas que contribuiu, tenho a certeza, para que esse afastamento não acontecesse.

Há muita gente que quando olha para o Dr. Rui Rio vê naturalmente uma imagem de credibilidade, de confiança; se isso acontecesse com todos os eleitos, sejam eles locais ou na Assembleia da República, naturalmente que a realidade seria diferente, mas isso é o meu ponto de vista. Nos dias de hoje é importantíssimo ter um relacionamento cordial com a comunicação social, sabendo a força, o poder, o peso que ela tem e que são hoje completamente distintos daquilo que eram há 10 ou 20 anos. Neste momento temos a informação que passa em segundos e, portanto, há que saber estar ao nível desta nova realidade. Tenho a certeza de que o Dr. Rui Rio também, mais uma vez, não vai defraudar as expectativas.

Coligação com o CDS? Creio que está tudo em aberto, mas o PSD sozinho tem uma capacidade de penetração no centro-esquerda muito maior

O mundo acelerou e Rui Rio, ao aparecer menos, tem, com toda a certeza, a noção de que cada vez que aparece isso tem um significado; o facto de ele ter reunido primeiro com António Costa e só depois com Assunção Cristas tem uma leitura política?

Não acho, não acho. Aliás, o CDS é o nosso parceiro natural ao longo dos tempos e continua a sê-lo. Vi noticiado nos últimos dias que estaria fora de hipótese uma coligação entre o PSD e o CDS. Nada disso corresponde à realidade; será um assunto a ser analisado no período oportuno. Neste momento, diria que nada diz que o PSD vai sozinho e nada diz que o PSD vai em coligação com o CDS. Estão os cenários todos em aberto, aliás temos o Congresso do CDS neste fim-de-semana e o Dr. Rui Rio lá está e eu também estarei com ele para ouvir atentamente aquelas que são as linhas mestras do CDS para o futuro.

A questão de se ter falado com o Partido Socialista, poderia ter sido ao contrário, poder-se-ia ter falado primeiramente com o CDS e depois com o PS; estou a falar com conhecimento de causa, não houve a preocupação de que primeiro teria de ser o Partido Socialista.

Está a dizer que foi uma coincidência, uma questão de agenda?

Uma questão de agenda, não mais do que isso. Aliás, passados uns dias estiveram logo com a Drª Assunção Cristas.

Na política os sinais são importantes.

Mas não creio, há alguns sinais de que se tenta tirar de imediato algumas ilações que depois são infundadas.

Não tem portanto leitura política desta agenda?

Não tenho leitura política absolutamente nenhuma. Para mim, a leitura que faço é: o Dr. Rui Rio esteve durante todo o período de campanha eleitoral a dizer que são absolutamente necessários acordos estruturais entre os partidos...

Essa é a melhor forma para arrancar para uma liderança de um partido da oposição, a admissão de um acordo, de um suporte do partido que neste momento sustenta o Governo?

Eu acho que sim. Nós não podemos dizer uma coisa e depois na práxis fazer o seu contrário; portanto, se o Dr. Rui Rio, olhando para os enormes constrangimentos que o país tem, na sua opinião, e que, segundo pensa, só podem ser ultrapassados com grandes acordos estruturais que envolvam os dois maiores partidos e o máximo de partidos possível, tem que, de imediato, e depois de ter ganho o partido, mostrar a sua disponibilidade para isso. Essa foi a razão pela qual nós mostrámos a nossa disponibilidade para atacar, desde já, dois dossiers que são absolutamente decisivos: os fundos comunitários e, também, a chamada descentralização. Isso não quer dizer que estejamos a preparar um Bloco Central, nada disso, que iremos estar de acordo com a estratégia do Partido Socialista sobre estas matérias, não, nós estamos é a proporcionar as melhores condições possíveis para que o país tenha sucesso.

Tal como dizia o Francisco Sá Carneiro, acima de qualquer interesse pessoal, partidário, tem de estar o interesse nacional. Por exemplo, ao nível dos fundos comunitários penso que, com este apoio que está a existir por parte do Partido Social Democrata, estão criadas todas as condições para termos um excelente desempenho no que diz respeito à negociação do Portugal 2030 e que, no mínimo, seja igual ao que foi conseguido pelo PSD conjuntamente com o CDS em 2014, onde conseguimos ir buscar cerca de 30 mil milhões de euros. Estão qui criadas todas as condições para que, no mínimo, se consiga ir buscar tudo isso.

Da mesma forma, no que tem a ver com a descentralização - que é uma grande luta do poder autárquico há muitos, muitos anos; todos nós temos a consciência de que há uma série de tarefas que sendo feitas pelos players que estão em contacto permanente com as populações, conhecedores do terreno, ganham em eficiência e eficácia -, o PSD, sendo um partido responsável, tem de se mostrar disponível para poder ajudar a que este grande pacote seja conseguido. Agora, vamos ver quais serão as condições financeiras que irão servir de contrapartida para que os municípios possam acatar essa delegação de competências da tutela para as autarquias. Estamos a falar aqui de municipalização, não estamos a falar de descentralização. O projeto estrutural que o Dr. Rui Rio tem ao nível da descentralização vai muito mais além do que aquilo que, neste momento, está em cima da mesa no que respeita à municipalização que este Governo está a tentar fazer junto dos municípios delegando uma série de competências ao nível da saúde, da segurança social, da educação.

Não é pelo facto de que o que este Governo quer fazer agora não ser precisamente aquilo que nós queremos fazer, que vamos estar completamente de costas voltadas.

Quer dar-nos ideias sobre o que significa para o país essa descentralização na cabeça do Dr. Rui Rio?

Pretende-se, sobretudo, fazer com que haja vários níveis de poder, com que tenhamos várias instituições intermédias - que podem ser as próprias autarquias, que podem ser comunidades intermunicipais - onde possamos ter a decisão não centralizada sempre na capital do país. Portanto, podemos ter órgãos de decisão...

Mas chegando à regionalização? Pergunto isto porque Rui Rio já foi contra, numa determinada fase, e a favor alguns anos depois. Pode chegar a esse nível de voltar a levantar a questão da regionalização do país?

Creio que nesses termos não. O Dr. Rui Rio é muito contra o que se passa neste momento, sente que o país está muito centralizado e que sendo o poder central a resolver uma série de situações, isto é, tendo competências a mais, e, ainda por cima, não tendo nós qualquer tipo de ganho ao nível financeiro, como está não está bem. Portanto, há que equacionar outras soluções. Essas soluções nunca passarão por uma regionalização nua e crua, porque se constatarmos que vamos criar regiões administrativas em que vamos ter mais Assembleias Regionais com mais custos, podem ter a certeza de que o Dr. Rui Rio será contra esse modelo. Agora, em relação a um modelo intermédio em que tentemos descentralizar o que existe, ele será claramente a favor, mas temos de colocar, naturalmente, os principais players a conversar, temos de fazer os diagnósticos precisos, fazer contas porque na situação em que estamos é que não estamos bem.

Não é com uma reforma das florestas que é pensada em cinco dias e apresentada em cinco dias que tudo fica resolvido

Foi um erro ter acabado com a figura dos governadores civis?

[Risos] Essa foi uma das primeiras resoluções do Governo de Pedro Passos Coelho. Eu, pessoalmente, acho que sim. Penso que era uma estrutura que estava criada, onde havia alguns custos que conseguimos evitar nesse momento, havia também uma grande pressão por parte de quem nos tinha emprestado o dinheiro no âmbito da assistência financeira externa e, portanto, acho que foi a decisão correta na altura. De todas as formas, também se via que todas as competências, as funções, as tarefas, que estavam afetas aos Governos Civis praticamente já não existiam.

Pergunto isto porque tivemos um verão com uma fatura pesada nos incêndios, de perdas humanas e danos materiais muito pesados, e houve falta de coordenação, faltou ali uma estrutura intermédia que poderia ter sido desempenhada pelos Governos Civis.

Não creio que se nós tivéssemos Governos Civis as coisas tivessem sido muito diferentes. Não é o facto de termos, ainda por cima na figura em que nós tínhamos os nossos Governos Civis - praticamente sem meios, sem recursos, sem equipas técnicas -, que teria feito com que as coisas fossem diferentes. Também temos de olhar para estes problemas com realismo e com muita seriedade. O que aconteceu foi algo extremamente complicado, sobretudo sob o ponto de vista meteorológico, foi a conjugação de uma série de fatores, ainda por cima com uma carga combustível enorme nas nossas florestas. Naturalmente que houve uma série de erros ao nível da coordenação, da Proteção Civil, que importa agora tentar resolver.

Importa tentar resolver atacando o problema de fundo. Não é com uma reforma das florestas que é pensada em cinco dias e apresentada em cinco dias, que tudo fica logo resolvido. Não é passar a responsabilidade toda da limpeza das florestas para os municípios e dizer que o problema está resolvido. Penso que tem de passar por uma gestão florestal de muita qualidade, por uma estratégia de emparcelamento dos prédios rústicos, tentando aumentar a escala dos mesmos, tem de passar, naturalmente, por um cadastro de todas as propriedades rústicas que deve ser feito principalmente por quem conhece o terreno: as autarquias locais, as freguesias - as nossas juntas de freguesia têm aqui oportunidade de poder fazer esse trabalho -, e, depois, atacar a limpeza das florestas como deve ser. A limpeza das florestas, designadamente para aproveitamento energético de resíduos, é algo que toca em todos os vetores da sustentabilidade.

Mas está a ser feita como deve ser ou não? Os autarcas dizem que estão a exigir que em poucos meses façam o trabalho que não foi feito em várias décadas.

Não está e não poderia estar, porque foi pensada, foi planeada, foi analisada muito rapidamente e, portanto, isto é uma reforma de fundo que tem de acontecer e que tem de perdurar muitos anos, muitos mandatos, independentemente dos partidos que estiverem à frente do poder. Tem de valer a pena criar-se redes para a limpeza das florestas; quem limpa as florestas tem de ganhar o dinheiro suficiente para que esse seu trabalho compense. Reparem que já estamos aqui a falar de emprego, já estamos a tocar na componente económica. As grandes manchas florestais acontecem precisamente nas zonas do interior, onde temos uma densidade populacional menor. Estamos aqui a falar da chamada coesão territorial que pode ser alavancada por aí.

Depois, naturalmente, deve tentar-se aproveitar esses resíduos florestais como um recurso endógeno renovável, seja para diminuir as emissões de dióxido de carbono, seja para a produção de eletricidade verde, mas há que saber que isto não pode ser feito como está a ser anunciado, que é: "Vamos colocar uma série de centrais de biomassa de 3 megawatts nos locais onde temos mais florestas", esquecendo se existe ou não disponibilidade na rede para que essa energia elétrica seja injetada com sucesso, esquecendo se temos ou não rentabilidade com essas centrais de biomassa. As centrais de biomassa também têm de ter uma particularidade, tem de haver gente que sinta que vale a pena investir, as centrais têm de ter rentabilidade. Estamos a falar de uma central de 3 megawatts e eu pergunto se ela terá ou não rentabilidade. Será que não vale a pena aumentar um pouco a potência? Será que não vale a pena aumentar um pouco a sua dimensão? Depois, estamos a falar de centrais dedicadas, aquelas que queimam resíduos florestais e produzem apenas e só eletricidade; estamos a desperdiçar para a atmosfera mais de 2/3 daquela energia que estamos a queimar.

O seu discurso far-me-ia lembrar quase um discurso ministerial na área, mas eu queria voltar atrás para o questionar sobre o que disse há pouco relativamente a estar tudo em aberto em relação às próximas eleições, nomeadamente à possibilidade de haver um entendimento com o CDS. Marques Mendes considerou recentemente um erro o PSD e o CDS irem separados a eleições, não teriam mais possibilidades se fossem juntos?

É muito relativo e eu não queria passar para casos específicos, mas creio que tudo está em cima da mesa. Ir sozinho tem as suas vantagens. O PSD sozinho tem uma capacidade de penetração no centro-esquerda muito maior do que indo com o CDS. As contas que foram apresentadas em termos de mais-valias no que concerne ao método de Hondt, de facto existem, mas se calhar não têm a dimensão que foi apresentada pelo Dr. Marques Mendes, que merece o meu máximo respeito, aliás acho que é uma das maiores referências do Partido Social Democrata, mas só tenho pena que ele, na altura em que foi presidente do partido, não tenha aplicado todos estes ensinamentos que agora tenta dar a todos os militantes do PSD e, aí, ter tido sucesso.

O tempo acelerou, a vida mudou.

É verdade, mas penso que está tudo em aberto. Há vantagens em ir com o CDS, há vantagens em ir sozinho, é tudo uma questão de nós analisarmos. Eu, pessoalmente, sou um social-democrata convicto e sou alguém que olha para a social-democracia defendendo a economia de mercado, muito a iniciativa privada, defendo premiar aqueles que mais correm, mais trabalham, mais estudam mas, ao mesmo tempo, tem de existir um Estado Social que garanta as condições mínimas de habitação, de educação, de segurança social, de saúde. Essas grandes bandeiras que muitas vezes as pessoas identificam apenas com a esquerda, mas, na verdade, estas foram as grandes bandeiras de Francisco Sá Carneiro.

Nesse contexto penso que o Partido Social Democrata redirecionando o seu foco, como o Dr. Rui Rio já o fez, um pouco mais para o centro-esquerda poderá ter uma maior probabilidade de entrar até naqueles descontentes socialistas que não apreciaram a solução governativa que neste momento existe e, sobretudo, a forma como isso foi conseguido. Naturalmente que se tivermos um bloco com o CDS podemos ter algumas mais-valias no que diz respeito à aritmética dos deputados para a Assembleia da República mas, volto a dizer, a seu tempo tudo será analisado. Mas uma coisa é certa: o PSD ou vai sozinho ou vai com o CDS, o seu parceiro natural.

Este realinhamento do PSD - e acabou de o defender -, traduz-se numa busca de votos mais no centro-esquerda; é aí que se ganham as eleições em Portugal, é no centro. Que caminhos vê para o partido nesse realinhamento - e estou a falar de propostas concretas; falou agora numa agenda que não temos ouvido na boca do PSD, a defesa de uma forma quase desabrida do Estado Social e das vantagens deste. É por aí, o caminho?

Sem sombra de dúvida. O PSD é um partido que promove a mobilidade social, a ascensão social, nós não queremos nivelar todos da mesma forma, queremos dotar as pessoas com as ferramentas mínimas para que elas, de sua livre e espontânea iniciativa, possam melhorar as suas condições de vida. Não obstante, a existência deste Estado Social é absolutamente decisivo para a qualidade de vida das pessoas que cá vivem e a força de um país mede-se sobretudo pelo nível da sua classe média.

Portanto, temos de ter a preocupação de, criando riqueza, tendo um país com contas certas que gere confiança, poder ter as nossas empresas a alavancar a economia, muito sustentada na transação de produtos que são comercializáveis, na incorporação de valor porque, aí sim, podemos ter melhores condições para os nossos trabalhadores. "Trabalhadores" é uma palavra que eu acho que tem de entrar no léxico do Partido Social Democrata, porque é uma classe que merece o nosso máximo respeito e com isto estamos a dignificar e a respeitar quem fundou o Partido Social Democrata, e há muita gente que, identificando o PSD como um partido de direita, não estaria neste partido. Eu sou daqueles que estou no PSD por ele ser do centro-esquerda.

Não ouviremos este PSD a defender menos Estado, é isso?

Um Estado que chegue. Um Estado que chegue. Um Estado que - e é importante - ninguém se aperceba que ele exista, mas que seja um Estado regulador, um Estado fiscalizador.

O PSD é ou não favorável a alterações ao Código laboral, e em que sentido?

O PSD tem muito orgulho no seu passado recente em que algumas questões do Código laboral foram introduzidas e que, não tenho a menor dúvida, foram decisivas para as boas notícias que temos em termos de emprego. Gostava de ver, designadamente os parceiros do Partido Socialista, neste momento a pronunciarem-se sobre essas mesmas alterações que tiveram lugar.

Ainda que isso tenha atacado, em boa parte, a classe média que há pouco dizia que o PSD deve defender, que foi aquela que foi mais prejudicada, apesar de tudo, com a governação de Pedro Passos Coelho?

Que foi uma governação condicionada e que ninguém tenha a menor dúvida de que foi absolutamente decisiva. É inglório apanhar-se um país praticamente na bancarrota, ter a necessidade absoluta de implementar medidas impopulares para salvar o país. Penso que o Pedro Passos Coelho merece esse respeito, essa nota pela positiva de todos, porque sabendo que essas medidas não foram nada simpáticas conseguiu-se aquilo que foi mais importante, que foi salvar o país.

Depois pronto, voltou novamente o Partido Socialista, embora muito refém de uma extrema-esquerda e eu temo que tudo seja deitado por terra. Naturalmente que fico sempre muito satisfeito quando vejo boas notícias que dizem respeito ao meu país, mas nós não podemos desbaratar, não podemos alicerçar a nossa atividade política em irresponsabilidades. Portanto, penso que urge o PSD voltar.

Mas acha que deve haver alterações ou não, até pelo nível de recuperação que o país teve, sem entrar aqui com os méritos do PSD ou do PS, o país está hoje de facto a respirar melhor, deve ou não haver alterações ao Código laboral?

Há sempre melhorias que são passíveis de serem implementadas. Reverter completamente, naturalmente que não sou apologista de que haja uma reversão completa porque nestes períodos de ciclos económicos melhores, nós temos que precaver períodos menos bons. Isso é que é uma gestão responsável, uma gestão de quem não se preocupa apenas com o presente. Esta gestão, do atual Governo, é muito direcionada para o presente ou para o futuro muito, muito próximo, e nós temos de prever à la longue períodos menos bons. Portanto eu diria: alterações sim, reversão completa não.

Falou do Estado Social, falta investimento nas áreas do serviço público e dos serviços públicos?

Falta e isso constata-se. Não vale a pena virem as notícias, que por vezes até custam a aparecer, mas basta ouvir as pessoas e sentir isso na pele. Nós temos as escolas no estado em que estão, em que temos os municípios a substituir-se à responsabilidade do Governo para fazer obras de requalificação nas escolas; vemos o setor da saúde onde temos uma dívida do Serviço Nacional de Saúde a subir sempre e, sobretudo, os serviços de saúde que não estão a melhorar, com toda a gente a queixar-se. Penso que apesar de este Governo ter o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda como os seus grandes parceiros - os grandes defensores dessas bandeiras - estes não estão a cumprir com aquilo que é a sua ideologia e, portanto, acho que há muito a fazer em termos de saúde, em termos de educação, em termos de habitação, em termos de ambiente.

O ambiente também não é uma bandeira exclusiva da extrema-esquerda, é uma bandeira da social-democracia que eu defendo e acho que eles também estão a falhar em vários aspetos no famigerado Estado Social.

Também em relação ao investimento, à aposta em infraestruturas. Podemos esperar deste novo PSD, se me permite essa designação, um aliviar dos tabus clássicos dos últimos anos relativamente a grandes apostas em investimentos públicos? Estou a falar da ferrovia, de estruturas aeroportuárias.

Nós vimos nas últimas semanas o anúncio de uma série de investimentos em ferrovias, mas há que ter a noção de que tudo isso foi preparado no passado e durante o Governo de Pedro Passos Coelho. Agora, estar aqui a levantar o grande sucesso de tudo isto, apensa e só porque foram eles que chegaram agora aqui na parte final...

Eu creio que o papel do Governo é sobretudo permitir que as nossas empresas tenham as melhores condições possíveis para elas fazerem os seus investimentos. Eu sou muito apologista do crescimento económico alavancado nas exportações, alavancado na incorporação de valor nas nossas empresas e não tanto no consumo privado. O sucesso que estamos a ter neste momento, até nos índices económicos que estão a surgir resulta precisamente do extraordinário desempenho dos nossos empresários, muito baseado no setor das exportações.

Não foi nada disto que António Costa anunciou no seu período eleitoral. Ele queria alavancar a economia, muito baseado no investimento público e no consumo privado. Eu acho que o investimento público tem de ser analisado caso a caso e sempre numa estratégia de custo-benefício. Nós sabemos que cometemos muitos erros no passado, com investimentos megalómanos que depois se tornaram autênticos elefantes brancos.

Há, por exemplo, o tabu do novo aeroporto de Lisboa e, neste momento, percebe-se com o boom do turismo que as soluções estão esgotadas, a Portela+1 vai ser uma panaceia de curto, médio prazo e, se calhar, teria sido bom o país ter chegado a um consenso para uma nova estrutura.

Está a falar de Lisboa, mas o país não é só Lisboa. O Porto também está com um sucesso enorme no que respeita ao setor turístico, também já estamos a chegar aos valores-limite do aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Mas aí nunca houve um debate público sobre o novo aeroporto.

Mas vai ter de haver.

Aqui houve e foi diabolizado.

Mas vai ter de haver porque, de facto, o setor do turismo é e tem sido absolutamente decisivo para o sucesso da nossa economia - e as pessoas nunca se podem esquecer disso -, o que obriga a que tenhamos uma grande preocupação com as infraestruturas.

Naturalmente, estando o PSD com uma nova liderança, da qual eu faço parte, há três semanas, essas questões que são fundamentais e estruturais estão a ser analisadas e serão apresentadas a seu tempo ao país.

O Salvador Malheiro é conhecido por planear o seu futuro a longo prazo. Constou, a uma determinada altura, quando conquistou a Câmara de Ovar, que planeou ser eurodeputado. Vê-se no papel de ministro, nomeadamente do Ambiente?

Eu estou muito bem como estou agora. Sou presidente da Câmara da minha terra, das minhas pessoas, da minha gente, aliás não encontro com facilidade nenhum cargo político tão dignificante como o cargo de autarca e, ainda por cima, das nossas gentes, da nossa terra.

Dito isso?

Dito isso, será com muita dificuldade que irei trocar o cargo de presidente de câmara por outro cargo qualquer, não troco por deputado, não troco por deputado europeu, quanto ao resto, o futuro a Deus pertence. Vou repetir: sendo autarca, o facto de nós tomarmos uma decisão num dia e vermos, quase de imediato, um sorriso nas pessoas, o índice de felicidade dos nossos conterrâneos a melhorar é extremamente gratificante.

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