Reciclar e distribuir brinquedos em nome da solidariedade

Municípios, universidades e hotéis promoveram campanhas de recolha para proporcionar um Natal mais feliz às crianças carenciadas e às famílias afetadas pelos incêndios

"Viseu viveu dias horríveis. Nem se podia sair à rua. Levar brinquedos onde está tudo negro é algo que nos aquece o coração." Ainda com o drama dos incêndios bem presente na memória, Francisco Pinto, estudante do 4.º ano do curso de Engenharia Eletrónica e Telecomunicações da Universidade de Aveiro (UA), reuniu-se, nas últimas semanas, com dezenas de estudantes da UA e outros voluntários para recuperar cerca de três centenas de brinquedos, que ontem distribuíram por instituições e famílias carenciadas dos distritos de Aveiro, Guarda e Viseu. Neste último distrito, o foco são as crianças das zonas mais fustigadas pelas chamas. "Vi muitas famílias afetadas, com problemas. Esta é uma iniciativa ótima. É um miminho para as crianças", diz o estudante, natural de Viseu.

Um miminho que por estes dias se repetiu em vários pontos do país onde diversas entidades e universidades protagonizaram inúmeras iniciativas de solidariedade.

Apoio aos mais necessitados que teve expressão no Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da UA, que se transformou na Fábrica do Pai Natal, na segunda edição do ShareToy, um projeto solidário que une os estudantes do IEEE Student Branch da UA e do Núcleo de Robótica do DETI e que, pela primeira vez, entregou também brinquedos a crianças de famílias afetadas pelas chamas. "Os incêndios abalaram o país. Já que tínhamos esta iniciativa, pensámos que seria uma boa ajuda", explicou ao DN Fábio Correia, um dos responsáveis pela campanha.

Carros, aviões, peluches, bonecas, livros, puzzles e muitos outros brinquedos foram recolhidos no DETI, na Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro e no Quartel do Comando Territorial de Aveiro da Guarda Nacional Republicana. "Milhares de brinquedos" escaparam ao caixote do lixo para ganhar vida nas mãos dos voluntários, que nas últimas semanas se disponibilizaram para limpar, coser, soldar, colar e embrulhar presentes. Em papel verde, a cor da esperança, um sentimento que querem partilhar. "Todas as crianças merecem ter um Natal feliz, seja com brinquedos ou com carinho", diz Rita Ribeiro, do 5.º ano de Engenharia Eletrónica e das Telecomunicações, enquanto desmonta aquilo que "parece ser um comando".

Mariana Oliveira desafiou a prima, Rita trouxe a irmã mais nova. "Como não tinham aulas, as mães acharam boa ideia. Elas gostam de ajudar", diz Rita. Além de contribuírem para alegrar o Natal de muitas crianças, as futuras engenheiras têm ainda a possibilidade de pôr em prática alguns conhecimentos. "O curso já é bastante prático, mas isto não é um exercício proposto pelo professor. É bem divertido", sublinha a jovem. Um dos desafios que teve nas oficinas de reparação foi "adaptar um cão para crianças com necessidades educativas especiais", pois esse é também um dos objetivos do projeto: adaptar brinquedos para crianças com deficiência. "Tive de fazer as ligações do botão do cão a um botão externo", adiantou.

Os antigos estudantes da universidade também quiseram dar o seu contributo, como Alexandra Figueiredo, licenciada em Terapia da Fala: "Vim limpar os brinquedos e fazer embrulhos, porque eletrónica não é comigo. Como trabalho com crianças, estou sensibilizada para estas questões", refere, enquanto embrulha uma corda - ainda dentro da caixa - e um dominó.

Foram muitos aqueles que se juntaram à iniciativa da Universidade de Aveiro. "Tivemos muitos patrocínios, desde as impressoras 3D ao papel de embrulho, pilhas e outros materiais. Também houve uma empresa que fez as caixas para a recolha dos brinquedos e outra que ofereceu drones", sublinhou Fábio Nogueira, destacando que nesta edição houve um aumento do número de brinquedos e de voluntários. E também apareceram alguns professores para ajudar.

Dado o elevado número de brinquedos recolhidos, os voluntários não conseguiram recuperá-los todos, mas deixam ao DN a promessa de os arranjar para entregar no próximo ano. Uma prova de que ninguém fica indiferente quando o mote é ajudar as crianças, que, nesta época, são o centro da festa. Universidades, hotéis, câmaras municipais e juntas de freguesia promoveram recolhas de brinquedos nas últimas semanas, com o intuito de os doar a crianças de todo o país.

Cascais recria Natal

A Casa de Tires, a Casa Mimar, a Banco do Bebé, o Instituto Português de Oncologia (IPO), creches sociais e a prisão de Tires são algumas das instituições que beneficiam dos apoios recolhidos pelo município de Cascais no âmbito da iniciativa Recriar o Natal, que neste ano também se associou às zonas afetadas pelos incêndios. Mais de 140 bebés e crianças são abrangidas pela campanha, essencialmente com roupa e calçado novo, um patrocínio da Fundação Belmiro de Azevedo. Todas as crianças da Casa de Tires e da Casa Mimar recebem, ainda, um brinquedo na véspera de Natal. O IPO vai receber 70 pijamas e 20 pantufas, uma oferta da fundação, que contribui ainda para as crianças das zonas ardidas com milhares de peças de roupa e centenas de pares de sapatos. Serão ainda entregues brinquedos novos e usados.

Minho adapta brinquedos

Os alunos do Núcleo de Robótica do Departamento de Eletrónica Industrial da Universidade do Minho adaptaram os brinquedos recolhidos para os tornarem mais acessíveis a crianças com paralisia cerebral. Por norma, estes brinquedos custam dez vezes mais do que o mesmo produto sem adaptação. Por isso, explicou Fernando Ribeiro à Lusa, o objetivo da iniciativa é "fazer uma criança feliz com um brinquedo que não é de muito fácil acesso". Os restantes, sem componente eletrónica, foram levados para instituições minhotas que trabalham com crianças carenciadas.

Recolha em hotéis

Já as delegações da Cruz Vermelha de Lisboa, Porto, Bragança, Guimarães, Figueira da Foz, Coimbra, Setúbal e Faro receberam, durante esta semana, os brinquedos recolhidos nos hotéis do grupo AccorHotels. Todos os brinquedos entregues nas unidades hoteleiras tinham de ser novos e não incentivar a discriminação de género.

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