Quem quiser falar no PS pede senha e espera pela vez

Ordenação dos discursos deixa de ser feita arbitrariamente em função dos interesses políticos de quem dirige os trabalhos

É uma tradição que chega ao fim nos congressos do PS. A ordenação dos discursos dos delegados no XXI Congresso Nacional do PS - que se iniciará amanhã e terminará no domingo, na FIL do Parque das Nações, em Lisboa - deixará de ser feita à vontade de quem coordena os trabalho da reunião.

Era uma vontade que levava sempre a que os discursos dos dirigentes mais importantes ocorressem justamente nos prime time televisivos, independentemente da ordem das inscrições. Este era também um procedimento que permitia, nos congressos com disputa entre candidaturas, que o coordenador dos trabalhos modelasse as intervenções de forma que um oponente da sua linha tivesse sempre logo a seguir resposta de um seguidor da sua linha.

O PS vai instituir, no essencial, um sistema de senhas como nos estabelecimentos comerciais ou nos serviços públicos. Quem se inscrever primeiro, fala primeiro; quem se inscrever depois, fala depois. Todos por ordem de inscrição. Num dos ecrãs gigantes do congresso surgirá sempre o nome do orador e dos três que se lhe seguirão. As inscrições poderão ser feitas entre as 16.00 de sexta-feira e as 11.00 de sábado, no momento em que cada congressista se credencia. Quem quiser falar preencherá um requerimento a que será dado um número - esse número definirá a ordem da sua intervenção.

A notícia de que a organização do congresso se decidiu por este procedimento surge depois de pelo menos dois críticos internos de António Costa - Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto - terem avisado que pretendem intervir no congresso, mas só se lhes derem "condições" para o fazer. Ou seja: só se a direção dos trabalhos - neste congresso, como no anterior, a cargo de Carlos César, presidente do partido - não lhes atirar os discursos para fora de horas. Em 2014, zangado com a hora tardia para que lhe fora marcada a sua intervenção, Francisco Assis abandonou os trabalhos do XX congresso do PS, recusando também - por antever uma deriva esquerdista na direção de António Costa - integrar os órgãos nacionais do partido (recusa que mantém, tendo aliás já dito ao DN que não votou em António Costa nas eleições diretas no PS que o reelegeram secretário-geral, há cerca de dez dias).

"Fraturantes" quase sem tempo

Com esta nova forma de organizar as diversas intervenções, a organização do congresso pretende dizer a todos os congressistas que serão tratados por igual, sendo de primeira linha ou não. Serão abertas exceções para os convidados especiais do secretário-geral - Manuel Alegre, por exemplo. E para as intervenções institucionais, como as do secretário-geral, do presidente do partido, do presidente da federação distrital de Lisboa do PS (estrutura anfitriã) ou para o presidente de câmara municipal da capital, Fernando Medina.

Ontem, foi divulgada a ordem de trabalhos da reunião máxima dos socialistas. Prevê 45 minutos no domingo de manhã (último dia do conclave) para a discussão de dez moções setoriais, três das quais abordam temas da chamada "agenda fraturante" (uma propõe a despenalização da eutanásia, outra a despenalização total da produção, venda e consumo de drogas leves e uma terceira regulamentando a prostituição como uma profissão legal, com todos os direitos e deveres inerentes).

O congresso inicia-se amanhã pelas 16.00 com discussões separadas de vários painéis setoriais num hotel perto da sala onde depois os delegados reunirão. Às 20.30 os trabalhos serão transferidos para esta sala, prevendo-se que o discurso de abertura de António Costa ocorra pelas 22.00.

Pela ordem de trabalhos, o líder do partido só voltará a discursar no encerramento, no domingo, pelas 12.15.

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