"Quando alguém pergunta onde vamos respondemos Urban"

O Urban Beach é um espaço da moda apesar de relatos de agressões. Há queixas, mas autoridades não dizem se há seguranças condenados.

O espaço amplo, a localização junto ao rio Tejo, as três pistas de dança com música diferente e o facto de estar na moda fazem da discoteca Urban Beach um dos espaços noturnos mais frequentados em Lisboa. Muitos estudantes - a quinta-feira é a noite dos universitários - e também, nos últimos anos, muitos turistas. E, à exceção destes, é um público bastante novo o que responde quando se pergunta onde vai acabar a noite. "Na Urban." Um cenário que nem "os relatos da agressividade" dos seguranças mudou.

O que é que tem a Urban Beach de especial? Carolina Reis, 21 anos, faz uma pausa antes de responder: "Simplesmente, é muito falada, muito comentada entre amigos. Quando alguém pergunta qual é o sítio de que mais gostamos, respondemos Urban. Como tem três espaços, cada um com a sua música, há mais opções de escolha e acabamos por ir para lá."

Clientes de 16, 18, 20 anos e que deixam de ser assíduos quando acabam a faculdade. A sexta-feira é que tem um público mais novo e em maior número, que aumenta consideravelmente nos finais dos períodos letivos do ensino secundário. O nível etário sobe aos sábados.

Há festas temáticas na pista principal - brasileira, kizomba, Erasmus, anos 80, etc. Um segundo espaço, o Box, tem música comercial e reggaeton (origem na música latina e caribenha). O terceiro abre nas enchentes e é dedicado à eletrónica. Explicações de Carolina, que agora vai ter de mudar de lugar para dançar. Tinha lá uma festa de anos marcada já para quinta-feira.

Rapazes e etnias mais barrados

Um gestor de 25 anos recorda todo aquele percurso que fez várias vezes. Agora vai à Urban uma ou outra vez, pois deixou de ser o local de eleição do grupo. "Não há muitos lugares em Lisboa com uma discoteca tão grande, com mais do que um espaço, boa decoração, uma área aberta no verão. A música é comercial, a que se ouve em todo o lado." E que é frequentado por gente gira. "É capaz de ser um pouco seletiva como todas as discotecas", reconhece quem já foi uma ou outra vez "barrado". Sempre ouviu relatos sobre a agressividade da vigilância, mas sublinha que não é caso único. "Os seguranças não são diferentes dos outros, são sempre autoritários. Há mais relatos do Urban, se calhar, porque tem mais gente."

As raparigas têm o acesso facilitado, torna-se mais complicado para os rapazes que vão em grupo, mais ainda se são de outra etnia que não a caucasiana. Uma amiga de Carolina relata uma situação que a deixou constrangida. "As casas de banho estão muito próximas e um rapaz entrou na das raparigas. Foi sem querer, saiu logo, e o segurança ameaçou-o violentamente. E não vale a pena a pessoa meter-se no meio, levam a mal."

O que acontece às queixas?

No caso da Urban Beach, a segurança é feita pela PSG, cujos funcionários têm sido acusados de agressão: os casos no PBM Festival, no Algarve, e agora em Lisboa foram gravadas e originaram o mesmo tipo de comunicado. A administração "repudia", "compromete-se a apurar responsabilidades" e "garantem que os responsáveis serão punidos de forma exemplar".

A PSG existe há dez anos e desde logo passou a fazer parte do staff do Grupo K, disse ao DN o seu administrador, Paulo Dâmaso.

José Falcão, da direção do SOS Racismo, critica a atuação das entidades competentes nesta matéria. "Desde 2013 que temos denunciando o que se passa nesta e noutras discotecas e não se sabe o resultado das queixas apresentadas."

O DN tem tentado saber o desfecho das queixas: quantos processos há na PSP além dos 38 apresentados em 2017? Quantos seguiram para julgamento? Quantos seguranças foram condenados? Isto porque estes profissionais só perdem a carteira - que é atribuída pela PSP - em caso de condenação. "Não temos os dados fragmentados por quem os praticou", respondem do Ministério da Justiça. A mesma justificação é dada pela Procuradoria-Geral da República e pela PSP. Repete-se com a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação RaciaI: "As estatísticas não estão individualizadas de acordo com o tipo de estabelecimento." Acabam por confirmar uma queixa contra a Urban Beach neste ano.

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