PSD e CDS já não estão numa relação. Ficou a "afinidade"

Oposição mantém boas relações. Trocam informações privilegiadas, como sentidos de voto em diplomas e estão em conversa permanente. A coligação acabou, há desconfiança quanto baste, mas mantém-se cumplicidade

PSD e CDS já não estão numa relação (leia-se coligação), mas mantêm "afinidade". Oficialmente, a relação entre os líderes - do partido e parlamentares - são as melhores. Os deputados e dirigentes encontram-se com frequência, almoçam juntos e as bancadas até informam previamente o sentido de voto em diplomas. Não há surpresas de parte a parte no hemiciclo.

Em on é impossível arrancar às duas bancadas algo diferente de "excelente relação", embora em off as fontes parlamentares falem de "marcação próxima", "passar a perna" ou "disputa de eleitorado".
Comecemos pela via oficial. O presidente do grupo parlamentar do PSD fala ao DN num "relacionamento muito tranquilo". Luís Montenegro explica que "neste contexto não temos uma coligação formalizada, mas existe uma grande afinidade" entre os partidos aos quais se junta uma "identidade" naquilo que ambos pretendem para o futuro do país.

Luís Montenegro considera que PSD e CDS "não são concorrentes naquilo que é o crescimento eleitoral de cada um. Queremos que cresçam e queremos crescer."Montenegro revela que se reúne várias vezes com o seu homólogo do CDS, Nuno Magalhães. "Articulamos algumas coisas", confessa.
O líder parlamentar do CDS corrobora: "Temos uma relação excelente, que vem dos últimos quatro anos, que mais parecem oito". E concretiza: "Até estou a dever um almoço ao Luís porque falhei o último. Conversamos muitas vezes, estamos sempre a falar, seja por telefone, seja pessoalmente".
Já não há relações regulares e agendadas religiosamente como acontecia no tempo da coligação, mas encontram-se sempre que necessário.

O líder parlamentar do CDS, Nuno Magalhães, garante que o PSD "não é um adversário" é antes um "parceiro privilegiado". E ambos trocam informações para se ajudarem. Exemplo? "Há uma preocupação de partilhar informações úteis. Sabemos sempre quando os partidos votam nos diplomas A e B de forma diferente, mesmo que sejam do PCP ou do PS".
Entre PSD e CDS não há "surpresas no hemiciclo". Nuno Magalhães concretiza mesmo - face às acusações da esquerda face à falta de unidade dos ex-parceiros de coligação: "Isto não é uma caranguejola".

Os próprios líderes dos partidos (Passos Coelho e Assunção Cristas) têm uma ótima relação. "Já no governo eram próximos e estenderam essa relação", revela fonte próxima da direção do PSD. No CDS, reafirmam: "A relação é ótima".

Passos e Cristas não têm reuniões agendadas e regulares, mas sempre que há um assunto há uma espécie de telefone vermelho entre ambos. Ou seja: têm acesso direto e encontram-se quando é necessário.

Os próprios deputados vão confessando que a relação é ótima é boa. Ao DN, Duarte Marques afirma que da sua "experiência pessoal no parlamento a relação tem sido impecável". Duarte Marques destaca que são "dois partidos diferentes com muito em comum, sobretudo na visão de credibilização do país, mas também com muitas diferenças, por isso são dois partidos e não um.

Duarte Marques destaca que "há lealdade, diálogo, mas logicamente não podemos estar sempre de acordo, e ainda bem que assim é."

Opinião diferente têm outros deputados, mas não dão a cara por ela. Um deputado do PSD disse ao DN que "há a sensação que o CDS nos quer passar a perna". A mesma fonte entende que os centristas se estão a colocar um pouco "em bicos de pés", mas sabem que "só terão relevância, principalmente a nível governativo, ao lado do PSD".

Um outro deputado social-democrata diz que é saudável uma "marcação próxima", em que "ambos controlam a perda de eleitorado". Porém, destaca que os dois nunca serão "fratricidas".

Barrigas do afastamento?

Há casos em que o afastamento ideológico parece enfatizar-se. Aconteceu com a legalização das "barrigas de aluguer", diploma em que o PSD deu liberdade de voto e Pedro Passos Coelho usou-a para votar a favor. No entanto, o CDS não parece incomodado.

"Não há problema por eles [PSD, leia-se] ficarem satisfeitos por estarem mais à esquerda que nós", diz um dirigente centrista, que trata logo de contrapor: "Nós sempre gostámos e ficámos mais satisfeitos por sermos mais conservadores que eles nas causas fraturantes."

Aliás, nas hostes centristas ninguém encara a agenda fraturante como o ponto em que o caminho da ex-coligação bifurque. Antes disso, recordam, já tinha sido dado o tiro de partida para a autonomização dos dois parceiros. A título de exemplo, recordam a forma incisiva com que o CDS propôs a rejeição do Programa de Estabilidade e do Programa Nacional de Reforma.

"Péssimo sinal"

De fora, a paz aparente é vista de outra forma. José Ribeiro e Castro, ex-presidente do CDS, não perdoa o posicionamento dos dois "dois rostos da PaF [coligação Portugal à Frente]" nas votações da semana passada. E se não gostou de ver Passos votar a favor da legalização das "barrigas de aluguer", menos apreciou ver Paulo Portas ausentar-se do hemiciclo. "No fundo, aderiram à geringonça. É um péssimo sinal", afirma o antigo deputado.

Ribeiro e Castro sobe o tom quando lamenta que "parte do PSD tenha alinhado com a geringonça", mas aproveita a boleia para se confessar "preocupado" por o CDS "não afirmar o seu pensamento" e "não exibir o seu lado personalista". Poupando Assunção Cristas - até considera que o CDS "votou bem" -, atira: "É importante que sejamos esclarecidos sobre o pensamento do dr Pedro Passos Coelho e do dr. Paulo Portas. Foram eles que escolheram os deputados."

Adriano Moreira, ex-presidente do CDS e atual conselheiro de Estado, é mais cauteloso. E frisa entender a posição de Passos, apesar de dela discordar. "Não é de direita ou de esquerda, é de convicções sobre valores. Eu, por exemplo, há muitas coisas dessas que não aprovo, mas digo honestamente que é pela minha ignorância. É a sério: eu não sei o mistério da vida", explica, socorrendo-se do caso paradigmático que é a interrupção voluntária da gravidez.

Significará isto maior clivagem entre PSD e CDS? Adriano Moreira não faz futurologia, mas deixa o alerta: "O imprevisível está sempre à espera de uma oportunidade."

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