Derrotar os novos Lenines no Verão Quente de 1975

Revolução. Numa fase em que os blocos político-militares negociavam uma détente (apaziguamento da tensão entre EUA e URSS), os atores principais da geopolítica olhavam para um Mário Soares a defender a democracia num país que podia alterar os equilíbrios mundiais e acabar com essa coexistência pacífica

O vertiginoso ano de 1975, em que o processo político-militar se acelerou e o País parecia estar à beira da guerra civil, transformaria Mário Soares no herói da democracia. Já tinha havido a transformação do MDP/CDE em partido, que os socialistas perceberam ser a forma de os comunistas criarem um partido satélite para lhes roubar votos. Mas tudo começaria a ficar claro quando o Conselho Superior do MFA, logo apoiado por manifestações convocadas pelo PCP, outros partidos de esquerda e a Intersindical, aprovou a "unicidade sindical" no dia 2 de janeiro. O PS, através do seu número dois, Zenha, opõe-se logo à existência de uma só central sindical.

A partir dessa altura, cava-se um fosso entre comunistas e socialistas que se manterá, pelo menos, até às presidenciais de 1986, quando o PCP, sem outra alternativa, convocou um congresso extraordinário para aconselhar o voto em Soares contra Freitas (ver "Missão Impossível acaba em Belém"). Aliás, logo no rescaldo das legislativas de 1976, José Miguel Júdice sublinha que "um Partido Socialista chega ao poder, indiscutivelmente, pela sua recusa de um "Programa Comum" [com o PC] como o francês [entre o PSF e o PCF]" E concluía: "o que vier a suceder irá refletir-se (...) em toda a Europa, mas talvez em especial em França" (O Pensamento Político de Sá Carneiro e Outros Estudos).

Após o golpe spinolista do 11 de Março, quando se iniciaria o que ficará conhecido por PREC (Processo Revolucionário em Curso), com as nacionalizações, o aprofundar da Reforma Agrária e a institucionalização do Conselho da Revolução, o líder socialista admitirá que teve a intenção de abandonar logo o III Governo Provisório, mas que Zenha o terá convencido de que o fundamental era garantir que as eleições se realizassem. E, de facto, enquanto Vasco Gonçalves previa, como Soares relataria em Um Político Assume-se , que "o MDP/CDE vai ser o maior partido, depois o PCP e o PS talvez fique em terceiro lugar", os resultados nas primeiras eleições livres dão resultados opostos: o PS com 37,9%, o PPD [depois, PSD] com 26,4%, o PCP com 12,5%, o CDS com 7,6% e o MDP/CDE com 4,1%. A partir daqui, defrontam-se a legitimidade revolucionária e a legitimidade eleitoral, a força da rua e a vontade do País.

Após ter-se sagrado vencedor nas urnas e do afastamento das comemorações do 1.º de Maio protagonizado pelos comunistas, Mário Soares passa à ofensiva contra os militares revolucionários, o PCP e a extrema-esquerda. Mas, prudente, "não [pediu] a substituição do Governo nem [reclamou] o lugar de primeiro-ministro, como muitos camaradas [seus] pediam". E ficou assim, como citariam Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, "com uma força extraordinária"(Os Dias Loucos do PREC). Almeida Santos lembra que o líder [do PS] lançou o slogan "socialismo em liberdade", "que tanta mossa fez no anarcopopulismo reinante" (Nova Galeria de Quase Retratos). E Manuel Alegre sintetiza ainda melhor: "Houve então uma pequena-grande frase de Mário Soares, porventura a mais importante que ele proferiu ou, pelo menos, a que maiores consequências históricas viria a ter: "A liberdade é um valor em si mesmo revolucionário"" (Arte de Marear).

A 19 de maio de 1975, aproveita a ocupação do jornal República - dirigido pelo seu camarada Raul Rego e com uma redação quase socialista - pelos tipógrafos de extrema-esquerda para lançar uma campanha internacional a denunciar a tentativa de sovietização de Portugal. "O [Álvaro] Cunhal nunca deve ter sabido o preço que essa aventura lhe custou" (Um Político Assume-se). Sobre este período, a posterior leitura do líder comunista acerca das afirmações de Soares podem sintetizar-se numa frase: "Mentira afirmada e repetida tendo quem mente consciência de que está mentindo e caluniando perante milhões de portugueses, que dificilmente terão acesso à verdade" (A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril ).

Em protesto pela ocupação do República, o PS abandonaria o IV Governo Provisório, sendo seguido pelos ministros do PSD dois dias depois e abrindo a crise que levou à queda desse Executivo e, depois, à contestação ao V Governo Provisório e à posterior demissão de Vasco Gonçalves. Entretanto, a ocupação da Rádio Renascença permitiria a Soares estabelecer relações de cumplicidade com o cardeal-patriarca e a Igreja Católica.

No Verão Quente de 1975 há bombas a rebentar, julgamentos populares, sedes do PCP incendiadas, os atentados direitistas do ELP e do MDLP, açambarcamento de géneros alimentares, tendências separatistas nas ilhas, "uma enorme confusão de serviços secretos", lembra Rosado da Luz, "que "ajudavam", empurravam, influenciavam e compravam os seus aliados internos" (Os Anos de Abril). Surge o Documento dos Nove, subscrito pela ala moderada do MFA e ideologicamente próxima do PS (embora, como se queixará Vasco Lourenço, em Do Interior da Revolução, Soares privilegiasse os spinolistas), e é criado o Comité de Apoio do Socialismo Democrático a Portugal (com Brandt, Schmidt, Palme, Callaghan, Mitterrand, Kreisky).

E, sobretudo, a manifestação da Alameda (ou da Fonte Luminosa), onde acorreram largos milhares de pessoas a protestar contra a ameaça de nova ditadura, as teses do PCP, as correntes terceiro-mundistas. "Foi o princípio do fim de Vasco Gonçalves e marcou o ponto de viragem da cavalgada revolucionária que, se não fosse detida como foi, arrastaria Portugal para o abismo. (...) A partir daí, o vento mudou, aprofundando por forma irresistível a clivagem entre os militares que se reclamavam do MFA" (Ditadura e Revolução). Nesse dia, estavam cá Michel Rocard, Jacques Attali, Alain Touraine, Jean Nouvel. "Muitos temiam que a batalha da liberdade estivesse já perdida. Mas, depois de assistirem ao comício da Alameda - espetáculo por eles nunca visto! -, recobraram outro ânimo. Mediram a nossa determinação e compreenderam que nunca desistiríamos de lutar. É daí, de resto, que data a admiração da Europa democrática pelo PS português" (idem).

Antes mesmo desta fase, já Kissinger, que chegou a advogar para Portugal um estatuto de "vacina" da Europa contra o comunismo, apelidara Soares de "Kerensky português", sustentando que seria devorado pelo Lenine-Cunhal (ver texto ao lado). Mais tarde, André Malraux diria ao L'Express que "os socialistas portugueses demonstraram ao mundo que os mencheviques também eram capazes de vencer os bolcheviques" - e esse, para Soares, foi "um dos elogios mais importantes que já recebi na vida" (O Que Falta Dizer).

No Le Nouvelle Observateur, em julho de 1977, Jean Daniel esclarecia, na sua "Carta a um socialista em cólera - Resposta a Jean--Pierre Chevènement" (que tinha dito, no congresso do PSF, "nem morrer como no Chile nem trair como em Portugal"), que "se houve uma "linha Soares" foi uma linha de resistência contra o estalinismo e a guerra civil que dele teria resultado, contra o despotismo e o caos - e não (...) uma contrarrevolução". E, após a queda do Muro de Berlim, quando já era Presidente, Soares podia lembrar que "os acontecimentos em catadupa [nesse ano de 1989] vieram dar em absoluto razão aos portugueses que se bateram em 1975 pela liberdade - quer quanto ao seu valor intrínseco, universal e insubstituível, quer quanto ao "colossal embuste" em que afinal o comunismo se tornou" (Intervenções 4).

Após a queda de Vasco Gonçalves, nas negociações para se constituir o VI Governo, Pinheiro de Azevedo convidou-o para seu vice--primeiro-ministro, mas Soares não só declinaria o convite, como recusaria integrar o gabinete que conciliava todas as correntes, do PCP ao PSD. "Nesses meses de brasa - outubro e novembro - quase não fiz mais nada do que conspirar" (Um Político Assume-se) com os Nove, outros militares, civis, a Igreja.

Entretanto, há o assalto à embaixada de Espanha para contestar a sentença de morte por garrote de dois separatistas bascos (que podia ter provocado incidente diplomático); a manifestação de apoio ao VI Governo Provisório, com Pinheiro de Azevedo, perante as bombas de fumo no Terreiro do Paço, a acalmar a multidão ("É só fumaça! O povo é sereno!"); o cerco dos trabalhadores da construção civil a São Bento, sequestrando Governo e Parlamento - e houve a hipótese de se transferirem órgãos de soberania para o Porto. E, a 6 de novembro, o célebre frente a frente entre Soares e Cunhal, "talvez [o debate] mais escutado e longo da televisão" portuguesa (idem), em que o socialista acusou o PCP de querer transformar Portugal numa ditadura, o comunista replicou com a famosa expressão "olhe que não; olhe que não", e o primeiro ironizava que, se defendesse a aliança PS-PCP, talvez viesse a receber "a medalha Lenine".

Tudo conduziria ao confronto militar do 25 de Novembro de 1975, que encerrava o PREC e definiria o regime democrático-parlamentar, sendo "o virar de uma página, que podia ter sido trágica, e a restituição da Revolução de Abril à sua pureza inicial" (ibidem). E, como recordará o cineasta António-Pedro de Vasconcelos, "quando, a seguir ao 25 de Novembro, [Soares] se recusou a dispensar Cunhal no Governo, não fez mais do que responder a Sá Carneiro o mesmo que respondera ao velho estalinista, que lhe pedira, após o 11 de Março, a cabeça do chefe da direita" (O Presidente de Todos os Portugueses).

Em suma, como concluiu Vasco Pulido Valente (Portugal - Ensaios de História e de Política), "se hoje há um regime democrático o responsável é Mário Soares, que precisamente o impôs contra a vontade dos militares. A verdadeira revolução foi a dele."

Ler mais